Luan: o primeiro 'Homem Gre-Nal' do Grêmio no século 21

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Gols em finais, gols em Gre-Nais: Luan está em chamas


Alguns anos atrás, em um texto seminal sobre o que é o Gre-Nal intitulado “História Universal da Angústia” (que depois deu título a um livro), o grande colorado Douglas Ceconello escreveu: “antes de ser vencido, um Gre-Nal nunca é bem-vindo”. Era a conclusão que arrematava um pensamento anterior: “Quando desperta para um domingo de Gre-Nal, Porto Alegre é toda falsidade. Porque, apesar do DISFARCE em vivas cores azul e vermelha, basta uma visão um pouquinho mais ACURADA para percebermos que a melancolia está em todos os cantos, nas calçadas sujas, nas sombras do Centro, nos armazéns abandonados à margem da Freeway, nos postes abençoados por cães de bexiga frouxa”.


Vocês eu não sei, mas eu sou um gremista curtido nos 15 anos de angústias, assim como meu amigo Ceconello foi um colorado que viveu grande parte de seus anos formativos como torcedor na década de 90, e se há algo que os tricolores do início deste século e os vermelhos de vinte e poucos anos atrás compartilham é a sensação de ter crescido à sombra do rival, mendigando glórias. E o Gre-Nal, quando aparecia no calendário, fazia-o como um fardo insuportável no horizonte: não bastasse o rival estar vencendo tudo o que aparecia pela frente, de vez em quando ele também tirava noventa minutos para nos vencer, pessoalmente. O Gre-Nal é um horror. Antes que o juiz apite seu início, é uma vontade de morrer que não se acaba. Quem diz gostar de Gre-Nal só pode estar mentindo e, se for gremista, nesses últimos longos anos, talvez até masoquista seja.


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Ramiro não fez gol, mas é outro símbolo na virada de sorte que tivemos na vida e nos Gre-Nais: também estava nos 4x1 de 2014


A mera perspectiva de ter mais dois clássicos nos próximos dez dias já me deixa macambúzio, preocupado, lamentando que nem vou poder desfrutar da enorme vitória deste domingo, porque ela acabou se tornando o primeiro capítulo de uma série melhor-de-três em que tudo pode acontecer. Mas, se vocês me permitem a alienação instantânea (só por hoje), ignorando que este jogo virou apenas um degrauzinho nessa sequência tripla assustadora, tratando a partida de ontem em um vazio, há que se reconhecer: o Gre-Nal, agora, é uma criatura completamente diferente do que era para nós quando a seca ainda estava vigente. O medo de Gre-Nal começou a ser deixado para trás na tarde em que fizemos 4 a 1 em fins de 2014, foi superado totalmente com os 5 a 0 de 2015, e as expectativas anteriores ao jogo até se reverteram a partir de 2016, quando a gangorra finalmente virou. A derrota já não era certa. D'Alessandro já não nos dava o mesmo medo. O Grêmio parecia um tanto menos incapaz.


Não quer dizer que os Gre-Nais tenham se tornado desejados, mas são um pouquinho menos assombrosos do que eram naquelas infinitas tardes em que parecíamos perder sempre, e sempre com gols de D’Alessandro, Índio e mais algum sujeito meia-boca que nunca mais jogaria bem em lugar nenhum mas destruía contra nós. Esses dias, por enquanto, são parte do passado. A gangorra um dia vai virar novamente, e talvez a sensação de leve superioridade que temos hoje já se desfaça no domingo (dentro do clássico, não no contexto geral), mas vamos aproveitar enquanto podemos: é a segunda vitória consecutiva do Grêmio dentro do Beira-Rio, emendando a tarde de ontem com aquela de 2016 em que triunfamos pela primeira vez na versão renovada do estádio rival.


Foi um triunfo com extraordinária autoridade no primeiro tempo, em que o Grêmio saiu liderando por 2 a 0 e poderia ter feito muito mais (e, certamente, pelo menos unzinho a mais, no gol incrivelmente perdido nos acréscimos por Everton), jogando um futebol até melhor do que o primeiro tempo do Gre-Nal dos 5 a 0, quando fomos para o intervalo com a mesma vantagem de ontem. O primeiro tempo do Grêmio foi tão enorme que D’Alessandro, já irritadiço desde antes do apito inicial, descarregou sua frustração com uma entrada de violência gratuita sobre Luan pouco antes do intervalo. O argentino, que comemorava 400 jogos pelo Inter embora na realidade já estivesse fazendo seu 401º, encontrou ontem uma partida bem diferente daquelas em que construiu sua mística no início da década.


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Um gol estava pouco: Luan fez dois e chegou a cinco na história do clássico


Na segunda etapa, porém, o Inter anotou um gol muito cedo, novamente com a nossa bola aérea defensiva deixando a desejar, e a partida virou completamente: foi meio jogo para cada time, embora na metade em que dominamos a distância entre os times tenha sido maior do que no meio jogo em que o Inter foi melhor, e talvez aí resida a diferença que sobreviveu no placar.


Nesse descompasso e, evidentemente, na existência de um Pedro Geromel na nossa zaga, que ontem fez mais uma partida do tamanho do mundo para provar que, se jogasse em um ALMERÍA qualquer do outro lado do oceano já seria figurinha carimbada na Seleção até 2030. Que haja dúvidas sobre sua convocação, sendo o melhor zagueiro do Brasil há cinco temporadas, é uma das realidades mais surreais do futebol nacional hoje, para a qual não existe outra explicação que não seja o preconceito intrínseco contra jogadores que atuam dentro das nossas próprias fronteiras.


A diferença não esteve só nele, é claro: também estava em Luan. E, se menciono Luan no título e só volto a falar dele agora, é porque chegou um ponto em que ficou difícil escrever novos louvores ao nosso camisa 7. Se vocês considerarem comigo que o supracitado Geromel é hors-concours, qualquer gremista sensato há de convir que Luan é a melhor coisa que aconteceu a este clube desde a virada do século. E seu nome não para de crescer e acumular feitos na nossa história: Luan dos três títulos, Luan dos gols em duas finais continentais em plena Argentina, Luan dos gols que se acumulam em vitórias em Gre-Nais. Lembram quando citei ali em cima os clássicos dos 4 a 1 e dos 5 a 0, que ajudaram a nos tirar o medo de Gre-Nal e até a esperar algo desses jogos? Luan já havia deixado sua marca neles. É Luan que conecta cada episódio da lenta, mas certeira, virada que nossas vidas tiveram nos últimos anos.


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O segundo tempo teria sido bem mais tranquilo se Everton não tivesse perdido um gol claro nos acréscimos da metade inicial


Eu cresci ouvindo falar de Jorge Veras, uma espécie de “Homem Gre-Nal” fundacional, famoso por suas jogadas que aniquilavam Taffarel e pelos gols que se acumulavam nos clássicos do final dos anos 80, no Olímpico e no Beira-Rio. Pois vejam: Jorge Veras, com toda a dimensão que tinha, marcou “apenas” quatro gols em clássicos contra o Inter. Fernandão, outro que mereceu um título similar, mas pelo lado colorado, também anotou quatro gols contra nós em sua trajetória vestindo vermelho. Luan chegou ontem a cinco. No período de Luan como titular absoluto do Grêmio, esta foi a quarta vitória em Gre-Nal e a terceira com gol dele – no único triunfo em que não fez gol, o 1x0 dentro do Beira-Rio em 2016, foi ele quem iniciou a jogada que culminou no gol de Douglas. 


O Rei da América ontem se tornou o maior artilheiro do Grêmio em clássicos desde Ronaldinho, que fez meia dúzia. Desde o início dos anos 80, só o irmão de Assis e o saudoso Lima marcaram mais do que o nosso maestro atual. Luan é, inquestionavelmente, o primeiro gremista a merecer o título de “Homem Gre-Nal” neste século. Um pedaço de jogador que já nos deixa nostálgicos enquanto joga aqui, pois sabemos que um dia, nas noites escuras de uma futura má fase, será principalmente nos seus gols que nossas memórias se agarrarão. A cada nova temporada, Luan engrandece seu legado vestindo a azul, negra e branca. E nele residem grande parte das nossas esperanças de que os próximos clássicos, embora não sejam realmente desejados, pelo menos encontrem desfecho parecido com o de ontem.


* * *


Os maiores artilheiros do Grêmio em Gre-Nais desde 1980. Mínimo de 3 gols para entrar na lista; listado ao lado está o número do clássico em que o jogador marcou:


3 gols
Alcindo Sartori (1991-93) – 315, 316 e 318
Barcos (2013-14) – 397, 399 e 400
China (1980-84, 1985-87) – 261, 277 e 281
Christian (2003-04) – 356, 357 e 358
Douglas (2010-12, 2015-18) – 387, 388 e 410
Júnior Viçosa (2011) – 385 e 386 (2x)
Osvaldo (1982-87) – 265, 268 e 280
Paulo Egídio (1989-91) – 299 e 305 (2x)
Paulo Nunes (1995-97) – 325, 326 e 331
Renato Portaluppi (1982-87) – 268, 273 e 278
Valdo (1984-88) – 272, 279 e 292


4 gols
Caio Júnior (1985-87) – 276, 281, 283 e 285
Jorge Veras (1987-88) – 282 (2x), 289 e 290


5 gols
Luan (2014-18) – 403, 407 (2x) e 413 (2x)


6 gols
Ronaldinho (1998-00) – 340, 341, 343, 345, 346 e 347


7 gols*
Lima (1987-88, 1992) – 286, 289 (2x), 292 (2x) e 294 (2x)


* Tarciso, que também fez gols após 1980, tem um total de 7 gols em Gre-Nais, mas 5 deles foram nos anos 70, por isso não está incluído no recorte dessa lista. Tarciso, que defendeu o Grêmio entre 1973 e 1986, marcou gols nos seguintes clássicos: 226, 233, 234, 236, 246, 252 e 260.