Gremistas: vejam este time jogar ao vivo antes que ele acabe

DONALDO HADLICH/FramePhoto/Gazeta Press
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Maicon: dois golaços para iniciar a construção do massacre


Não há mais desculpas. A menos que você esteja morto ou em estado de pauperismo, é preciso fazer a peregrinação à Meca do maior futebol de nossas vidas: ver este Grêmio jogar tornou-se uma obrigação da qual os gremistas não podem escapar, sob pena de se arrependerem pelo resto de suas existências neste vale de lágrimas. Vendam o carro, a casa, o corpo: vendam a alma se for preciso, mas deem um jeito de conseguir ingressos para ir em pelo menos uma partida testemunhar este Grêmio em uma das tardes ou noites de glória no Humaitá.


Este é o Grêmio sobre o qual falaremos para sempre.


Este é o Grêmio que vai nos acalentar na próxima má fase do clube.


Este é o time a partir do qual todos os Grêmios do futuro serão comparados – e, muito possivelmente, perderão na comparação.


Este é o maior Grêmio que eu vi jogar no pouco mais de quarto de século que ando sobre a Terra. E, imagino, também é o mais espetacular time que a maioria de vocês já viu trajando o azul, o negro e o branco.


Este Grêmio nós conseguimos recitar de ponta a ponta, e ainda vibrar com alguns reservas, com um tipo de identificação rara nesses tempos modernos do futebol.


Este Grêmio, em um dia bom (e quase todos os dias têm sido bons), patrola quem vier pela frente. Fale a língua que falar, tenha a grife que tiver.


Este Grêmio vai acabar.


E vai ser uma merda.


Mas ele ainda não acabou.


Então deem um jeito de ver este Grêmio jogar, por favor, enquanto ele durar.

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DONALDO HADLICH/FramePhoto/Gazeta Press
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Everton está rapidamente se transformando em um dos mais confiáveis atacantes do futebol brasileiro: seu gol nos acréscimos do primeiro tempo feriu de morte da retranca santista


Na noite deste domingo, pelo segundo ano seguido, os papéis históricos dos clubes conhecidos como Santos e Grêmio se inverteram. Foi o time que Pelé tornou famoso aquele que entrou para fazer retranca, catimba e faltas na tentativa desesperada de segurar um empate. Foi o time cuja torcida vibrava por carrinhos de Dinho que colocou o adversário na roda, dominou a partida de ponta a ponta e foi inapelavelmente superior. No ano passado, num duelo de Brasileirão em que o Grêmio massacrou o Peixe, a retranca do alvinegro praiano deu resultados, segurando o 0x0 na Arena. Desta vez, não: o Grêmio não tomou conhecimento de uma das mais respeitáveis equipes brasileiras da atualidade e aplicou 5 a 1 com a naturalidade de sempre. Nos últimos seis jogos dos titulares em casa, fizemos 21 gols e levamos apenas um – o de hoje.


Com este Grêmio, nos jogos dentro do Humaitá, é assim: se você for para o intervalo empatando, não só não é garantia de coisa alguma como é possível até sair goleado mesmo assim – que o digam Brasil de Pelotas e Monagas, que recentemente seguraram empates sem gols durante todo o primeiro tempo, só para levar quatro cada na metade final da partida. E, se você for para o intervalo perdendo, aí não há qualquer alternativa: você vai ser goleado. Foi o que ocorreu com o Inter, com o Cerro Porteño e, nesta noite, com o Santos – que passou muito perto de voltar aos vestiários sustentando um empate injusto, mas viu suas esperanças virarem pó quando Everton fez a festa dentro da sua área e chutou no canto oposto de Vanderlei.


Antes disso, Maicon havia superado o ferrolho com um chutaço de fora da área, fazendo jus à superioridade gremista com um lindo gol no ângulo. Mas a nossa expectativa de ver o Santos se abrir acabou sendo frustrada (na realidade, apenas adiada por alguns minutos) logo na sequência, quando um chute despretensioso de Jean Mota desviou em Kannemann e matou Marcelo Grohe. Encerrou assim duas marcas impressionantes do goleiro gremista: seus 868 minutos sem sofrer gols e também a sequência que vinha desde 1º de novembro do ano passado, em que o Grêmio não levava gols de bola rolando – apenas de jogadas originadas em faltas, pênaltis ou escanteios. E é claro que tinha que ser assim: um chute que nunca entraria no gol se não fosse um desvio azarado.


Infelizmente para o Santos, o gol de Everton saiu, e foi o que bastou para desmontar a estratégia para a metade final. Depois disso, o jogo que já era dominado pelo Grêmio se tornou um passeio inimaginável em outros tempos: foi a maior goleada a nosso favor na história do confronto. Se este não é exatamente um Santos que promete erguer taças, tampouco é um time desprezível: 3º colocado no último Brasileirão e líder com sobras do grupo com mais tradição coletiva desta Libertadores, uma chave em que os santistas, o Nacional e o Estudiantes somam dez títulos continentais. Pois este Santos não viu a cor da bola. O reencontro entre Luan e Sasha não cumpriu qualquer expectativa, pois só um jogou, enquanto o outro acabava conhecendo sua segunda derrota por cinco gols dentro da Arena.


Jeferson Guareze/Agif/Gazeta Press
 Jeferson Guareze/Agif/Gazeta Press

Em um gol coletivo com a cara do Grêmio atual, André cumpriu a cota da Lei do Ex neste domingo


Uma situação do jogo demonstrava a extrema dificuldade que os comandados de Jair Ventura tinham para tentar conter o Grêmio: a série de faltas frontais à área que Péricles Bassols foi obrigado a assinalar ao longo de toda a partida. Para o Santos, era arriscar uma falta perigosa ou aceitar a realidade de sofrer outro gol – ou adiá-lo com um pênalti. Em uma dessas tantas oportunidades, cada uma delas tentada por um gremista diferente (aparentemente, todo o time do Grêmio se tornou especialista em bolas paradas), Maicon acertou seu segundo gol da tarde. Depois, André e Arthur juntaram-se ao recital, em jogadas típicas deste Grêmio: toques de bola rápidos para destroçar qualquer resquício de civilização nas linhas inimigas.


Para não dizer que tudo foi perfeito nesta partida em que, uma vez mais, o Grêmio inteiro foi digno de elogios, a noite fechou com uma pontinha de raiva pelo amarelo desnecessário de Ramiro – nos acréscimos do que era uma vitória por 5x1, custando-lhe uma suspensão para o Gre-Nal de sábado que vem. A fase do Grêmio é tão boa que precisamos encontrar motivos menores para reclamar, e esta é a montanha na qual eu escolhi morrer neste final de domingo: POR QUE FAZ ISSO, RAMIRINHO? Agora vamos ter que ir para o clássico com um desfalque.


Depois de duas goleadas consecutivas marcando cinco gols, o grande risco é subir no salto e achar que todas as rodadas serão assim. A próxima semana, que promete mais dificuldades, talvez seja terapêutica para a torcida lembrar que a vida não é sempre tranquila deste jeito. Contra o Goiás, pela Copa do Brasil, a tendência é usar um time reserva que não tem o hábito de vencer jogos e não cansa de nos desesperar. Depois, um Gre-Nal em que no papel somos totalmente favoritos, mas clássico é clássico, então convém não dormir sobre os louros da boa fase atual. E, na sequência, um jogo na Venezuela com o time exausto após a viagem longuíssima. Será uma sequência boa para conter a euforia – justificável, diga-se – dos últimos dias. Este Grêmio é formidável, mas não podemos achar que atingimos o topo quando estamos apenas em maio.