Grêmio: a noite em que o puxadinho quase pareceu mansão

ROBERTO VINICIUS/AGAFOTO/Gazeta Press
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A emoção de Thaciano, que voltou a jogar e ainda balançou as redes


Hameau de la Reine era o nome que os franceses davam para uma pequena chácara escondida no complexo do Palácio de Versalhes, onde viviam os reis, rainhas e uma multidão de aristocratas antes da Revolução. Em português, literalmente, o local se chamaria “aldeia da Rainha”. Ali, com um estábulo, um moinho, um galinheiro e uma casa relativamente pequena para os luxuosos padrões da monarquia, a rainha Maria Antonieta (que depois seria levada à guilhotina pelos revolucionários) brincava de ser uma camponesa. Por algumas horas ou dias, afastava-se da sua vida habitual e fazia de conta que vinha de outro estrato social, pertencendo a uma realidade que não era a sua.


Ver o time reserva do Grêmio, nessa fase atual em que a nossa equipe principal massacra quem aparecer pelo caminho, é passar por uma experiência semelhante à da rainha que perdeu a cabeça. Ou, para usarmos um exemplo mais contemporâneo: ver os reservas do Grêmio jogar, sabendo que os titulares são o que são, é mais ou menos como ser um multimilionário com fetiche de ser pobre, que deixa de lado a sua mansão para passar os finais de semana em um puxadinho na periferia. Com uma diferença: ao contrário da rainha e do ricaço, nós sabemos bem o que é a penúria. Estar no puxadinho, ou assistir a um jogo da equipe suplente do Grêmio, é muito mais um retorno à casa onde crescemos do que um jogo de imaginação – e, como todo retorno para casa, pode até não ser a melhor coisa do mundo, mas sempre vem um sentimento de FAMILIARIDADE CONFORTÁVEL.


Porque os reservas do Grêmio são o que o nosso time titular era até alguns anos atrás: uma equipe com muitas e flagrantes limitações, que irrita mesmo, e da qual não esperamos muita coisa além de luta por um resultado bom. Esses resultados raramente vêm, pois essa nossa formação alternativa tem uma capacidade incrível de não vencer ninguém e até arrancar derrotas de lugares impensados – como fez quando levou um golaço de Gilson nos acréscimos do jogo contra o Botafogo. Hoje, de novo, por alguns instantes pareceu que poderíamos repetir a velha história: após sair vencendo com um gol de Alisson no primeiro tempo, vimos Maranhão (cujo nome de batismo é FRANCINILSON) acertar um gol absurdo e empatar o duelo logo na volta dos vestiários. Paulo Victor, coitado, parece ser um ímã de golaços adversários.


Richard Ducker/FramePhoto/Gazeta Press
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Alisson, o mais titular dos reservas, esteve presente em todos os gols da noite: dois gols e uma assistência


Mas o Goiás é extremamente limitado, e nem a poupança generalizada promovida por Renato colocou a nossa classificação em risco nesta noite. Com o 2 a 0 trazido na bagagem desde o Serra Dourada e já mirando o Gre-Nal de sábado que vem, fizemos a opção normalmente arriscada de não colocar nenhum titular na partida de volta da Copa do Brasil, nem mesmo Ramiro que, suspenso, não estará presente no final de semana. O Goiás, porém, vive uma crise bárbara, está caindo para a Série C no momento, e também não tinha interesse em se desgastar em um jogo que (para ele) tinha ares de causa perdida. Com exceção de um lance no início do primeiro tempo com o placar ainda zerado, os esmeraldinos nunca ameaçaram de verdade a boa vantagem tricolor, e conseguimos buscar a vitória até com certa tranquilidade. O Grêmio, assim, tornou-se o primeiro time confirmado nas quartas-de-final do mata-mata nacional.


Hoje foi um daqueles jogos que nem a escalação abaixo da média conseguiu estragar. O nível de aleatoriedade foi tamanho que, sem zagueiros reservas suficientes no elenco, precisamos improvisar Michel na defesa – e ele se saiu talvez melhor do que o lesionado Paulo Miranda seria capaz, se estivesse saudável. Maicosuel viveu a sua melhor partida no Grêmio, o que não quer dizer muito, e os reservas-que-costumam-entrar-nos-jogos-grandes cumpriram o que se esperava deles, que é elevar um pouco o nível geral da equipe: Cícero deu duas assistências para os gols de Alisson, o mais titular entre os reservas. E o próprio Alisson, além de balançar as redes, deu uma assistência no outro gol da noite – marcado por THACIANO, que muitos nem lembrávamos que ainda existia e nesta noite desencantou.


A fase do Grêmio é tão boa que até os reservas descobriram uma maneira de vencer. E até o obnubilado Thaciano entra em campo e encontra o caminho das redes. Hoje foi uma noite em que, por alguns momentos, até o puxadinho pareceu mansão – uma mansão cheia de paredes de gesso e com o chão feito de madeiras que rangem, com algumas torneiras em que a água não sai, mas bem mais sólida do que o barraco de papelão que costuma ser nosso time reserva.