Fábio Koff, o presidente que só fazia golaços

WESLEY SANTOS/Gazeta Press
WESLEY SANTOS/Gazeta Press

Fábio Koff, no estádio onde venceu duas Libertadores


Talvez seja lenda, talvez seja a pura verdade, mas os mais antigos contam que as paredes de Porto Alegre se acostumaram a ver, ao longo de 1983, pichações contra o presidente do Grêmio na época. Em um momento em que os estaduais ainda valiam muito, e que boa parte do futebol brasileiro não havia despertado para a importância de pleitear coisas maiores, os tricolores estavam furiosos com a campanha apenas razoável do time no campeonato local. O Inter se encaminhava para um tri gaúcho consecutivo e o Grêmio lá, fazendo o que quase ninguém ousava fazer, que era priorizar a disputa da Copa Libertadores. Os muros da capital eram tomados por mensagens clamando: “Fora Koff”. Até que, no fim de julho, a conquista do título mais importante que o estado já havia vencido até então fez torcedores e colunistas entenderem o que realmente estava em jogo. Agora, as pichações ganhavam um adendo: “Fora Koff, vai para Tóquio”.


Em Tóquio, o eterno presidente Fábio André Koff, falecido nesta manhã em Porto Alegre aos 86 anos, foi também campeão do mundo. Ele deixou o comando do Grêmio ao final daquele mesmo ano, e retornou só uma década mais tarde. Se a sua primeira gestão vinha com a missão de dar continuidade a um trabalho excelente – Koff sucedeu Hélio Dourado –, tendo que construir em cima de um clube que acabara de ser campeão brasileiro pela primeira vez, sua segunda passagem pela presidência se iniciava de forma bem diferente: ao entrar no Olímpico como mandatário em 1993, Koff agora encontrava um clube que recém voltava de seu primeiro rebaixamento à Série B nacional.


Ramiro Furquim/Agif/Gazeta Press
Ramiro Furquim/Agif/Gazeta Press

Em 2014, uma breve nostalgia dos anos 90: Koff na presidência, Felipão na casamata


Mesmo assim, ele não precisou de muito tempo para devolver o Grêmio ao nível de grandeza que ele próprio havia tornado possível. Sua segunda presidência se estendeu até o final de 1996, um período em que Felipão assumiu o comando técnico da equipe e o Grêmio construiu uma das suas esquadras mais clássicas. Com Fábio Koff, aquelas quatro temporadas viram o tricolor vencer três títulos estaduais, uma Copa do Brasil, um Brasileiro, uma Libertadores, uma Recopa Sul-Americana – e deu até tempo de voltar para Tóquio, como em 1983, e só a disputa de pênaltis permitiu que o poderoso Ajax superasse um Grêmio que jogou grande parte da partida com dez.


Bicampeão da Libertadores, as duas únicas da história gremista até então, Koff tornou-se um espectro que pairava sobre a instituição, mas de maneira positiva: não como um ditador em potencial – bem ao contrário disso, aliás. Quando quiseram mudar os estatutos para dar-lhe um terceiro mandato nos anos 90, o próprio presidente negou a possibilidade, não querendo abrir precedente para que incompetentes se fizessem donos do clube no futuro. Koff ficou, isso sim, como um exemplo de gestão a ser seguido, e também adquiriu uma aura de monstro sagrado de nossa história. Algo que, ironicamente, permitiu que muitos se afastassem de seus ensinamentos: doutor Fábio estava lá, gigante, mas era passado, e agora o Grêmio era outro.


Não foi casualidade que, pouco a pouco, o clube tenha definhado – com um novo rebaixamento e longos anos sem títulos de peso. No livro de memórias que lançou no início de 2016, um livro que em muitos aspectos peca pela incorreção histórica ao narrar certos episódios, Koff permanece preciso nas recomendações que faz. E dá uma mensagem significativa logo na dedicatória da obra: ela ia “à absoluta maioria dos gremistas que servem ao clube, em vez de se servirem dele”. No final do livro, outro apelo pela união de todos os gremistas: “Aprendi que a política é indispensável para a boa condução da vida do clube, mas os interesses pessoais e de grupos não se podem sobrepor a esse ideal, sob qualquer hipótese. Com essa torcida, a união dos diversos segmentos e a história que tem, o Grêmio alcançará todas as glórias permitidas apenas para os maiores”.


Luciano Leon/Raw Image
Luciano Leon/Raw Image

Os multicampeões: em 2015, Koff, campeão e bi da América, passou o bastão a Romildo Bolzan, que seria tri


Lançado meses antes de a maldita seca terminar, o livro de Koff atingiu tons proféticos: havia sido ele quem apoiara o nome de Romildo Bolzan Jr. ao comando do clube em 2015, e com Romildo a política interna gremista foi (até aqui) pacificada. Com o clube mais coeso, formou-se o caminho para acabar com o jejum e, vejam vocês, finalmente erguermos uma Libertadores sem precisarmos que Fábio Koff em pessoa estivesse ocupando a sala da presidência. O Grêmio voltava a alcançar as glórias permitidas apenas para os maiores. Antes disso, e antes de voltar a dirigir o tricolor entre 2013 e 2014, Koff foi alienado do Grêmio por anos, graças às picuinhas políticas, e usou esse tempo para se dedicar a outras questões – presidindo o hoje extinto Clube dos 13, foi quem liderou o movimento dos maiores times do país por acordos mais vantajosos, decuplicando as receitas televisivas durante a sua gestão. Respeitado por times de todas as cores, também aconselhou Fernando Carvalho durante o glorioso 2006 colorado.


Fábio Koff, que vinha enfrentando problemas de saúde nos últimos anos, deixa-nos após nos engrandecer. É um daqueles presidentes cujo legado vai transcender as eras. Está ao lado de gente como Saturnino Vanzelotti, o homem que ergueu o Olímpico e rompeu com as barreiras raciais do Grêmio nos anos 50, e de Hélio Dourado, que encerrou o domínio colorado nos anos 70, transformou nossa velha casa em Monumental ao concluir o anel superior, e ainda nos deu nosso primeiro título brasileiro. Koff cimentou as estruturas, também, para que outros nomes possam aparecer neste panteão tricolor dentro de algumas décadas – como o próprio Romildo Bolzan, que hoje nos conduz por uma sequência de glórias que lembra muito a delícia noventista.


Uma famosa frase do anedotário do futebol brasileiro, atribuída ao massagista botafoguense Neném Prancha, brada que pênalti é tão importante que deveria ser batido pelo presidente do clube. Fábio Koff, se fosse convocado para um momento assim, não teria qualquer problema em mandar a bola no ângulo – o negócio dele era fazer golaços.