Grêmio 0x0 Inter: o avesso da façanha

LUIZ MUNHOZ/Gazeta Press
LUIZ MUNHOZ/Gazeta Press

Geromel, novamente gigante, garantiu que o já pouco ofensivo Inter não criasse quase nada - e ainda levou perigo na frente


Quando o Grêmio ganhou o Gauchão de 2006, com dois empates, contra um Inter que depois seria campeão da Libertadores e do mundo, nós jogamos como time pequeno. Apostamos em uma estratégia defensiva, jogando por uma bola e, como o Grêmio de 2006 era MUITO MELHOR do que o Inter de 2018, isso foi o bastante para balançarmos as redes em um lance de bola parada, “vencendo” com o empate. Fomos campeões no gol qualificado, e naquele ano disputamos outros dois Gre-Nais, agora pelo Brasileiro, jogando do mesmo jeito – um empate por 0x0 fora de casa e uma derrota por um gol de diferença no Olímpico. Nosso time não era tão fraco como o Inter atual (foi uma equipe que acabou em 3º no Brasileirão), mas nós sabíamos das limitações e da inferioridade técnica que ostentávamos no confronto direto – e jogamos de acordo. Até porque Mano Menezes era nosso treinador e o homem gosta de uma retranca que só ele.


Naquele momento, nós fomos o time para quem empatar o clássico era uma espécie de façanha. Vejam bem: uma espécie de façanha, não uma verdadeira, pois isso seria a vitória contra todas as probabilidades. Vitória que o Grêmio de 2006 não conseguiu, e que o Inter de 2018 só alcançou em um jogo em que o rival poderia perder, então não significa muito. Naquelas circunstâncias, enfim, empatar era uma razão muito maior de celebração por parte dos gremistas do que pelos colorados. Hoje, é exatamente o contrário. Nesta noite de sábado, estamos no lado avesso de um empate em clássico que não nos dá muita razão para comemorar. E se começo esse texto com um preâmbulo tão truncado e, após dois parágrafos, nada disse especificamente sobre o Gre-Nal 416 deste 12 de maio, é para que todos saibam direitinho de onde saímos para chegarmos onde estamos. Se o Inter fez o jogo que fez, é porque (infelizmente para um secador) ele finalmente se deu conta que o seu momento atual exige isso.


Não é ofensa alguma dizer que o rival jogou como time pequeno. É uma comparação, quase uma metáfora: joga-se como uma equipe pequena não por ser um clube diminuto, mas por estar tecnicamente inferiorizado em um dado momento, como os times realmente pequenos sempre estão. O Grêmio já encarou Gre-Nal desta forma. Agora, é a vez do Inter, que saiu da Arena com números que não seriam invejados nem mesmo por uma equipe do interior que, em uma tarde qualquer do Gauchão, desembarcasse no Humaitá só para dar chutões para todos os lados e tentar sair com o mesmo 0x0 que o Inter obteve. Os colorados, que não marcam gol há cinco jogos, hoje novamente abdicaram do ataque (não é só um gremista que afirma isso), viram o Grêmio somar incríveis 75% de posse de bola, e não levaram qualquer perigo à meta de Marcelo Grohe.


WESLEY SANTOS/Gazeta Press
WESLEY SANTOS/Gazeta Press

A tarde também foi de homenagens a Fábio Koff, que recebeu um minuto de aplausos antes do apito inicial


Fizeram, no entanto, um jogo corretíssimo dentro das suas limitações. E se o Grêmio precisa reclamar da arbitragem (que, sim, nos prejudicou muito, como comentarei mais abaixo), é em parte porque o Inter se defendeu tão bem que nos fez criar pouco, depositando nossas maiores esperanças em tudo o que poderia ter sido, e não foi, porque Wilton Pereira Sampaio esqueceu OS OLHOS ou o caráter em casa. A rigor, o Grêmio teve quase tantas chances reais quanto pênaltis não marcados a seu favor: um gol inacreditavelmente perdido por André logo na volta dos vestiários, um raro brilho de Luan com um chutaço que raspou o travessão de Danilo Fernandes, uma cabeçada de Geromel próxima ao gol ainda no primeiro tempo e o rebote que o próprio Geromel não conseguiu aproveitar, já na metade final, após um desvio de Madson.


Ignorando os pênaltis (como ignorá-los, não é mesmo?, mas façamos esse exercício), o Grêmio de hoje criou menos do que no 0x0 contra o Atlético Paranaense, quando massacrou os visitantes. O Inter de Odair Hellmann, vejam vocês, defendeu melhor do que o time-sensação de Fernando Diniz. É uma equipe limitadíssima, porém, e isso ficou evidente na sua falta de qualidade para executar a segunda metade de uma boa retranca: os colorados eram incapazes de puxar um contra-ataque assustador nas poucas vezes em que o Grêmio perdia a bola. Para um time que entra em campo propondo apenas isso, é uma deficiência que acaba tirando qualquer possibilidade de vencer.


O que o jogo de hoje deixou evidente, e que também já havia aparecido em partidas anteriores (penso aqui na ida contra o Brasil de Pelotas, no Monagas, no próprio Inter do Gre-Nal dos 3x0, e no Santos), é que o Grêmio tem hoje o primeiro gol como seu maior obstáculo. Parece óbvio: toda partida fica teoricamente mais simples após abrir o placar, afinal, o adversário precisa sair mais para buscar o resultado. Mas é mais do que isso: em todos os jogos citados no parêntese, o Grêmio tinha muito pouco a apresentar num vídeo de melhores momentos antes de abrir a vantagem. Muitas vezes, nossa primeira chance real foi o próprio gol, e há casos em que para chegar a isso é preciso fazer algo que não costumamos: arriscar de longe, como fez Maicon nos 5x1 sobre o Peixe. Após furar o bloqueio, aí sim, o Grêmio deu espetáculo em cada uma das partidas mencionadas.


Richard Ducker/FramePhoto/Gazeta Press
 Richard Ducker/FramePhoto/Gazeta Press

Wilton Pereira Sampaio, que vai representar (mal, ao que tudo indica) a arbitragem brasileira na Copa do Mundo, converteu-se em personagem ao sonegar três pênaltis


Quando saímos vencendo, somos uma equipe dificílima de segurar: é muito complicado buscar resultado contra este Grêmio sem correr riscos, e a maioria dos times acaba entrando na roda e, com certa frequência, até levam um BALAIO de gols. Se a vitória começa a ser construída ainda no primeiro tempo, então, é um abraço. Também não é simples montar uma retranca como a que o Inter executou hoje, pois a maioria dos adversários recentes acabou sendo vazada em algum momento. Mas, quando o defensivismo funciona, como o próprio Atlético-PR havia demonstrado, o Grêmio se torna um time pouco agudo, cheio de passes laterais, em busca de um espaço que às vezes não aparece, como hoje. Talvez você não consiga criar o bastante para vencer, já que nem Inter nem Furacão passaram perto disso, mas pode ser o suficiente para nos arrancar dois pontos na Arena.


Esse espaço que revoluciona o jogo inteiro poderia ter aparecido, e aqui entro no tema da arbitragem, se o soprador de apito tivesse dado o pênalti escandaloso em Bruno Cortez logo aos 29 minutos de partida – um lance que, convertido em gol, mudaria completamente a cara da partida, e talvez agora falássemos sobre como o Grêmio mais uma vez patrolou um adversário, pois todos os outros elementos da tarde indicaram nessa direção. E poderia ter aparecido nas duas outras vezes em que Wilton teve pênaltis talvez menos explícitos, mas ainda assim existentes, e preferiu fazer de conta que nada aconteceu.


O empate passa, também, pela arbitragem, e é um delírio querer argumentar em contrário. E repito: qualquer pênalti, ainda mais no primeiro tempo, talvez gerasse um resultado muito distante do 0x0. Isso não quer dizer, porém, que o Grêmio tenha feito uma atuação tão boa quanto os 75% de posse de bola indicam. No mundo em que os pênaltis não vieram e tivemos que tentar buscar a vitória de outra forma, a tática deles funcionou melhor que a nossa em termos de construção do resultado desejado. Hoje, foi a vez de o Inter vencer com o empate – era o maior resultado que poderia obter dentro do plano que tão claramente traçou desde o primeiro minuto.


Ao Grêmio, resta tirar lições para as próximas muitas vezes em que ainda cruzará com retrancas em 2018.