Geromel será o nono gremista a jogar uma Copa do Mundo. Relembre os outros oito

Rudy Trindade/FramePhoto/Gazeta Press
Rudy Trindade/FramePhoto/Gazeta Press

Geromel na Copa: justiça feita


O desfecho mais provável aconteceu: Pedro Geromel, o melhor da sua posição no país, acabou sendo o único dos convocáveis gremistas a efetivamente acabar na lista que buscará o Hexa em solo russo. O grande capitão do Tri nos desfalcará por até oito rodadas, considerando os jogos antes e depois da parada da Copa, e, por pouco mais de um mês, trocará o azul, o negro e o branco pelo verde e o amarelo. Será uma ausência incontornável, mas é uma questão de justiça: não existe um único cenário no futebol atual em que Geromel não estaria na Seleção Brasileira de 2018.


Assim, Geromel torna-se o nono jogador da história a defender o Brasil em uma Copa enquanto atuava pelo Grêmio. Uma lista seletíssima, e ainda mais restrita se considerarmos os campeões: apenas três, e somente um (Everaldo) como titular absoluto. A lista de gremistas que disputaram a Copa do Mundo tem algumas presenças pouco identificadas com o clube, como Luizão (que até campeão foi), e também ausências notáveis: o uruguaio Atilio Ancheta, melhor zagueiro da Copa de 1970, foi deixado de fora do Mundial de 74 após a Celeste e o Grêmio brigarem sobre quem pagaria o seu salário; outro notável ausente é Renato Portaluppi, cortado em 1986 após fugir da concentração – quando efetivamente disputou a Copa, quatro anos mais tarde, já não era jogador do Grêmio.


Superar o isolamento da Seleção Brasileira, que por muito tempo foi centrada nas equipes do sudeste, demorou um bocado de anos. A lista do Grêmio começa em 1966, com Alcindo, o Bugre Xucro. A seguir, relembro a história dos oito gremistas mundialistas que antecederam Geromel: 


1966 – Alcindo


O primeiro gremista a disputar uma Copa do Mundo foi simplesmente o maior artilheiro da história do clube. Alcindo, que defendeu o Grêmio por onze temporadas em duas passagens e marcou pelo menos 230 gols por nós (muitas fontes falam em 264, mas os amigos da Gremiopédia sugerem que esta contagem é equivocada), ajudou a romper o longo bloqueio contra jogadores que atuavam no Sul do país.


Até então, Rio de Janeiro, São Paulo e, em menor escala, Minas Gerais, monopolizavam os lugares na Seleção. Mas o Bugre tornou impossível ignorar o que acontecia em Porto Alegre: quando chegou a hora da Copa de 1966, Alcindo vivia o seu auge. Na temporada anterior, enquanto o tricolor vencia o pentacampeonato gaúcho consecutivo, o Bugre marcou incríveis 61 gols – até hoje, a maior marca artilheira de um jogador gremista em um mesmo ano.


Para azar de Alcindo, que vestiu a camisa 18, aquele foi o pior Brasil do ciclo vitorioso que conquistou os primeiros três títulos mundiais do país. Com uma equipe pouco inspirada e Pelé caçado em campo pelos adversários, a Seleção venceu só um jogo, perdeu dois, e foi eliminada ainda na fase de grupos. O Bugre foi titular em duas partidas.


Jogos disputados:
12/07/66 – Brasil 2x0 Bulgária (Goodison Park, Liverpool) – 90 minutos
15/07/66 – Brasil 1x3 Hungria (Goodison Park, Liverpool) – 90 minutos


1970 – Everaldo


ACERVO/Gazeta Press
ACERVO/Gazeta Press

Tri em 70, Everaldo (bem no meio da foto, o sexto da esquerda para a direita) é o único jogador da história a vencer uma Copa do Mundo como titular enquanto defendia um clube gaúcho


Não houve jogador do Grêmio mais importante para uma Seleção mundialista do que Everaldo. Se os demais geralmente foram à Copa como reservas, o lendário lateral-esquerdo chegou ao México como titular absoluto da maior equipe da história. Vestindo a camisa 16, Everaldo participou de cinco dos seis jogos da campanha do Tri, ausente apenas das quartas-de-final contra o Peru.


A conquista alçou o lateral a um patamar único na história do estado: primeiro jogador atuando no Rio Grande do Sul a ser campeão mundial (depois, os também gremistas Ânderson Polga e Luizão se juntariam à lista) e até hoje o único a fazê-lo como titular, Everaldo foi recebido em carro aberto em Porto Alegre e acabou homenageado com a estrela dourada presente na bandeira do Grêmio. Dois anos mais tarde, quando o técnico Zagallo optou por tirá-lo da equipe nacional, o episódio causou um ultraje tão grande em solo gaúcho que o estado desafiou a Seleção para um amistoso em desagravo. No Beira-Rio, diante do maior público da história do estado (106.554 pessoas), a Seleção Gaúcha – reforçada por estrangeiros que atuavam no Rio Grande do Sul – empatou por 3x3 com os tricampeões mundiais.


Apesar da pressão popular, e de ter recebido o Prêmio Belfort Duarte em 1972 (concedido a jogadores de defesa que passassem dez anos sem sofrer uma expulsão), Everaldo acabou mesmo fora da Copa do Mundo seguinte. Poucos meses depois, em outubro, um terrível acidente automobilístico o impediu de buscar novas glórias: Everaldo, a esposa, a filha e uma irmã do lateral acabaram falecendo enquanto viajavam de volta para Porto Alegre, desde o interior. Ele tinha 30 anos recém-feitos.


Jogos disputados:
03/06/70 – Brasil 4x1 Tchecoslováquia (Jalisco, Guadalajara) – 90 minutos
07/06/70 – Brasil 1x0 Inglaterra (Jalisco, Guadalajara) – 90 minutos
10/06/70 – Brasil 3x2 Romênia (Jalisco, Guadalajara) – 60 minutos
17/06/70 – Brasil 3x1 Uruguai (Jalisco, Guadalajara) – 90 minutos
21/06/70 – Brasil 4x1 Itália (Azteca, Cidade do México) – 90 minutos


1982 – Batista


Após uma longa carreira no Internacional, o então volante e hoje comentarista Batista chegou à Copa de 82 já tendo virado a casaca – e foi convocado como jogador do Grêmio, durante a sua breve passagem pelo Olímpico. Vestiu a 18. No Mundial em que a Seleção Brasileira teve a sua maior equipe a sair do torneio sem título, o Grêmio teve dois convocados pela primeira vez: o outro seria Paulo Isidoro, sobre quem comento mais abaixo.


A participação de Batista naquela Copa do Mundo seria curtíssima, mas muito marcante: entrou no final do que era um 3x0 sobre a Argentina, com o objetivo de segurar o resultado, e com apenas dois minutos em campo levou um coice de Maradona, que saiu expulso. Anos mais tarde, Diego diria que seu objetivo era acertar Falcão, mas se enganou – o camisa 10 argentino estava irritado com o olé aplicado pela Seleção Brasileira. Depois da expulsão de Maradona, a Argentina chegou a descontar, mas ficou por isso mesmo. O Brasil concluía ali seu último jogo encantador da Copa, antes da frustração contra a Itália. E Batista jogaria seus únicos minutos no Mundial, mas sairia com uma história para contar pelo resto da vida.


Jogo disputado:
02/07/82 – Brasil 3x1 Argentina (Sarrià, Barcelona) – 7 minutos


1982 – Paulo Isidoro


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Paulo Isidoro ganhou a Bola de Ouro em 1981: chegou à Copa de 82 como o melhor jogador do Brasileirão anterior, mas ficou no banco


Há quem diga que o Brasil não fracassaria naquela Copa se Paulo Isidoro fosse titular, sem ter perdido a vaga para Toninho Cerezo durante a preparação para o torneio. De fato, o Tiziu havia sido nome constante na equipe inicial da Seleção nos anos anteriores, e até às vésperas da Copa era ele quem começava os jogos. Não foi à toa que ele vestiu numeração de titular, ostentando o 7 às costas da camiseta auriverde.


Quando chegou a hora, porém, Telê Santana escondeu um dos heróis do primeiro Brasileirão gremista no banco, e Paulo Isidoro só entrou no final das partidas que pôde disputar. Em uma Copa na qual a Seleção disputou cinco jogos, ele entrou em campo em quatro deles – mas, sempre saindo do banco, seu total de minutos jogados mal chegou a uma partida inteira: 91, muito graças à partida contra a União Soviética, em que entrou no intervalo.


Jogos disputados:
14/06/82 – Brasil 2x1 União Soviética (Sánchez Pizjuán, Sevilha) – 45 minutos
18/06/82 – Brasil 4x1 Escócia (Benito Villamarín, Sevilha) – 10 minutos
23/06/82 – Brasil 4x0 Nova Zelândia (Benito Villamarín, Sevilha) – 15 minutos
05/07/82 – Brasil 2x3 Itália (Sarrià, Barcelona) – 21 minutos


1986 – Valdo


Com apenas 22 anos e sem ainda ter disputado sequer uma partida pela Seleção, Valdo foi um “nome novo” na segunda versão do Brasil de Telê Santana. O grande nome gremista para aquela Copa, imaginava-se, seria Renato Portaluppi – que acabou cortado às vésperas do Mundial, após fugir da concentração. Com isso, apenas Valdo viajou ao México, mas sem receber qualquer oportunidade de entrar em campo. A ele foi atribuída a camisa 21. Sua estreia em jogos pelo Brasil só ocorreria em 1987.


Jogos disputados: não entrou em campo.


1998 – Rivarola


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Na imagem de 1996, três jogadores de Copa do Mundo: Rivarola (camisa 3), o único gremista a defender uma seleção estrangeira; Luizão, ainda no Palmeiras, que seria Penta como jogador do Grêmio; e Arce (à direita), que jogaria a Copa de 98 como palmeirense


Após a notória ausência de Ancheta no Uruguai de 1974, poucos estrangeiros com qualidade de seleção estiveram no Grêmio em uma época que coincidisse com a disputa de uma Copa do Mundo por seu país – Hugo de León, por exemplo, não teve a chance de ir a um Mundial de seleções antes de 1990, porque a Celeste simplesmente não chegava lá. Foi apenas em 1998 que o Grêmio fez seu primeiro (e ainda hoje único) mundialista por uma equipe estrangeira: na Seleção Paraguaia mais cheia de “brasileiros” da história, Rivarola assumiu a camisa 3 e somou-se a Gamarra (do Corinthians), Enciso (do Inter) e ao nosso Arce, que naquela altura já estava no Palmeiras.


Foi uma Copa em que a defesa paraguaia formada por Carlos Gamarra e Celso Ayala fez fama, e Rivarola não teve chances de atuar na campanha que terminou de forma dramática, com uma eliminação para a França em função do gol de ouro.


Jogos disputados: não entrou em campo.


2002 – Ânderson Polga


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Polga encara o São Caetano em 2003, pouco antes de se transferir para Portugal: último gremista a ter disputado (e vencido) uma Copa do Mundo enquanto jogador do clube


Trinta e dois anos depois de Everaldo, o Grêmio voltaria a ter campeões do mundo que atuavam pelo clube em 2002. Dono da camisa 14, Ânderson Polga chegou a flertar com a titularidade, jogando em duas partidas inteiras da primeira fase, mas acabou preterido por Felipão após as dificuldades defensivas que o Brasil apresentou na vitória por 5x2 contra a Costa Rica – um jogo com mais sustos do que o placar final indica, em que o Brasil levou dois gols após abrir 3x0 e só encontrou a tranquilidade na metade final do segundo tempo.


Polga, um dos grandes defensores do Grêmio da virada do século e titular no 3-5-2 de Tite que nos deu o Tetra da Copa do Brasil, logo nos deixaria para defender o Sporting, em Portugal, onde fez carreira pelas dez temporadas seguintes.


Jogos disputados:
08/06/02 – Brasil 4x0 China (Jeju Stadium, Seogwipo) – 90 minutos
13/06/02 – Brasil 5x2 Costa Rica (Suwon Stadium, Suwon) – 90 minutos


2002 – Luizão


Luizão foi o jogador menos identificado com o Grêmio entre todos os que entraram em uma Copa do Mundo como jogadores oficialmente nossos. Sua passagem por aqui foi muito rápida, com ares de que só veio para essas bandas para se manter ativo após deixar o Corinthians, a fim de não perder o lugar na Seleção – vaga que conquistou por méritos, tornando-se o herói inesperado da classificação do Brasil à Copa: após sofrer muito nas eliminatórias, a equipe garantiu a vaga com um 3x0 sobre a Venezuela na rodada final, e Luizão marcou os dois primeiros gols.


Na Copa, Luizão vestiu a camisa 21 e foi um convicto reserva. Entrou duas vezes em campo, ambas substituindo Ronaldo e contra o mesmo adversário: os dois jogos diante da Turquia, na primeira rodada e nas semifinais. Imediatamente após a Copa, Luizão deixou o Grêmio para defender o Hertha Berlim.


Jogos disputados:
03/06/02 – Brasil 2x1 Turquia (Munsu Cup Stadium, Ulsan) – 17 minutos
26/06/02 – Brasil 1x0 Turquia (Saitama Stadium 2002, Saitama) – 22 minutos


2018 – Pedro Geromel


Desde que assumiu a titularidade do Grêmio, no segundo semestre de 2014, Pedro Geromel vem desempenhando de forma consistente o papel de melhor zagueiro em atividade no Brasil. Bola de Prata na posição nos últimos três anos consecutivos e eleito também o melhor zagueiro da América pela votação de El País em 2017, o capitão do Tri da América chega à Copa do Mundo vivendo o auge de sua carreira. A princípio deve começar na reserva, mas gremista nenhum tem dúvida de que tem bola para a titularidade.


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Agradeço ao João Renato Alves pela ajuda em compilar as informações desse texto.