Na Venezuela, o Grêmio foi um rascunho do que nos aguarda até a Copa do Mundo

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Cortez foi um dos melhores do Grêmio em um jogo de pouca inspiração


Existem vitórias merecidas e vitórias injustas. Vitórias fáceis e vitórias nascidas em um parto dolorido, como se fossem bigornas. Vitórias por goleadas e vitórias por gols chorados, no último lance, desviando em quinze zagueiros e três morrinhos artilheiros. Vitórias com baile incluído ou aquelas que vêm um tanto feias. Na vida, e na longa trajetória do Grêmio dentro da Libertadores, existem triunfos dos mais variados tipos. Na noite em que nos tornamos o clube brasileiro com mais vitórias na história da maior competição continental, igualando as 90 do São Paulo (e fazendo isso em menos tempo: 174 jogos contra 183 deles), a conquista do Grêmio poderia ser enquadrada como difícil e feia, mas merecida.


O fraco Monagas, que nesta noite se despediu matematicamente da sua primeira Libertadores, nunca foi um páreo real para os comandados de Renato Portaluppi. Mesmo assim, embora o Grêmio controlasse o jogo e tentasse impor seu toque de bola a despeito dos desfalques e do péssimo gramado de Maturín, o que se viu foi um time sem inspiração e sem ímpeto na maior parte do primeiro tempo. Com meio time sendo poupado e ainda perdendo, logo aos oito minutos, um Alisson que prometia ser seu principal escape ofensivo, o tricolor atacou pouco e mal – e, embora o Monagas quase nada conseguisse fazer, a primeira defesa do jogo acabaria sendo obra de Marcelo Grohe. Não foi o lance mais perigoso, porém: este ficou a cargo de Cícero, que acertou a trave em uma bela cobrança de falta (quantos batedores esse Grêmio de 2018 tem?!).


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Além de Kannemann e Geromel (ambos na foto), o Grêmio só usou outros três titulares: Grohe, Cortez e Ramiro


Na volta dos vestiários, fomos mais incisivos, pressionamos mais e, conforme o tempo passava, o Grêmio atingia os dígitos duplos de finalizações. O gol, no entanto, veio em um chute despretensioso de Ramiro, de muito longe, uma bola sem grande força e que quicou por todo o caminho, morrendo no canto direito de Alain Baroja. Se é verdade que, quando Ramiro faz gol, o Grêmio não perde, tínhamos ali uma espécie de garantia de que a noite não encerraria em derrota. Mas um eventual empate não nos bastaria: a igualdade no placar significaria ficar atrás do Cerro Porteño, com a tarefa quase impossível de ultrapassá-los na última rodada, se quiséssemos obter o primeiro lugar da chave – o Grêmio deixaria de depender de si mesmo e precisaria somar uma vitória sua contra o Defensor a (no mínimo) um improbabilíssimo empate do Monagas em solo paraguaio.


Ficar em primeiro lugar na chave é instrumental para este Grêmio quando pensamos nos mata-matas, e fazer a maior pontuação possível é ainda mais importante: vale lembrar que é a campanha feita agora que define a ordem dos mandos até a finalíssima. Ao Grêmio interessa passar entre as melhores campanhas e trazer o máximo de decisões para dentro da Arena – ao contrário do que costuma acontecer, porém, isso não se deve a uma melhor circunstância para fechar o mata-mata. Pelo contrário, o que nos interessa é a forma como ele começa: a dinastia de Portaluppi tem sido erguida, em grande medida, sobre vitórias em mata-matas construídas no jogo de ida, que é quando o adversário precisa se abrir mais – e o nosso problema é furar equipes retrancadas. Um segundo lugar garantiria retrancas poderosas em quase todos os jogos de ida dos mata-matas, já que estaríamos sempre atrás dos concorrentes. Não vencer em Maturín, enfim, poderia gerar um efeito borboleta que alteraria toda a nossa sorte vindoura.


E foi exatamente isso que (quase) aconteceu. Mesmo sendo muito melhor, o Grêmio se acomodou após fazer o gol, abdicou de buscar um gol tranquilizador e foi dando margem para que o Monagas começasse a especular algo diferente. Se há algo para criticar nesta primeira fase em que o Grêmio já se classificou, segue invicto e tem um saldo de 10 gols positivos, é justamente essa postura fora de casa: nós fomos tão melhores que os nossos adversários que, de certo modo, decidimos quando vencer e quando não valia a pena o esforço, sabendo que poderíamos buscar em casa. O resultado foi que, tendo dominado o grupo, o Grêmio passou muito perto de acabar em segundo lugar (atrás de um time no qual fez 5x0!), sendo claramente superior a todos os oponentes. Poderíamos ter vencido com certa facilidade todos os jogos fora de Porto Alegre e, no entanto, quase empatamos os três. Nesta noite, foi por um triz que não deixamos escapar dois pontos e, com eles, muito provavelmente, a liderança do quadrangular.


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Um lance de azar de Kannemann pareceu que nos custaria a vitória, mas ainda restava um minuto...


Marcelo Grohe já havia feito mais um dos seus milagres aos 35 do segundo tempo quando, minutos mais tarde, um cruzamento na nossa área encontrou um desvio infeliz de Kannemann e foi morrer no fundo das redes. Agora, é assim: ninguém faz gol no Grêmio sem ajuda do próprio Grêmio – nos últimos doze jogos com a defesa titular, só fomos vazados duas vezes, e, em ambas, a bola não teria entrado sem antes bater em Kannemann. Eram 47 do segundo tempo e restava apenas um por disputar, no tempo acrescido pelo árbitro. Então veio mais uma prova de como o Monagas não conseguiria nos segurar de modo algum, se tivéssemos insistido para valer: foi nesse exíguo minuto que o Grêmio se lançou ao ataque e conquistou um pênalti (o árbitro já havia engolido outro, mais cedo, como se estivesse apitando Gre-Nal). Para surpresa geral, JAÍLSON cobrou com maestria e garantiu a vitória. A 90ª do clube na história da Libertadores.


Conquistada naquele que foi literalmente o último lance da noite (o apito soou no instante em que a bola tocou as redes), foi uma vitória difícil, feia e merecida, como comentei lá em cima. Porque, quando há tanto em jogo como havia hoje, o resultado é mais importante que a atuação. A forma como jogamos, porém, não deve ser ignorada – principalmente por ser um rascunho, um tanto preocupante, do que o Grêmio provavelmente será neste mês que ainda resta até a parada para a Copa do Mundo. Hoje, colocamos apenas cinco titulares em campo, mas o nosso melhor time não terá muito mais do que isso. Com Geromel convocado, e Everton e Arthur com lesões que os deixarão ausentes por no mínimo três semanas, o Grêmio das próximas partidas será bem parecido com o da noite desta terça-feira – perdendo seu grande zagueiro e ganhando, em contrapartida, Maicon, Luan e algum atacante (no Brasileirão, provavelmente André). Se o problema de Alisson for sério, perdemos mais uma arma ofensiva. E até mesmo Jael tem feito uma falta gigantesca nesses jogos brigados.


Não será um Grêmio horrível, é claro, e será melhor que o time cheio de poupadas visto nesta noite – mas tampouco será a equipe ideal que nos brindou com o melhor futebol da América nesses últimos meses. Agora, será o momento de investir mais em coração do que na qualidade a que acostumamos, e de fazer resultados sem pensar no tipo de espetáculo que damos ou deixamos de dar. Há que ser um pouco mais como o velho Grêmio. Teremos que colocar o mito do elenco qualificado à prova. E, no fim das contas, depois de tanto lamentarmos a quebra de ritmo que a parada da Copa causaria, talvez a interrupção das disputas venha bem a calhar para recuperar o elenco exausto pela sequência de compromissos. Se o Grêmio já mostrou ter bola para voltar a ser campeão continental, essa enorme confiança só existe quando temos a equipe completa.