Desfalcado, o Grêmio não passa de um time comum com mais posse de bola que a média

Gabriel Machado/Photopress/Gazeta Press
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Bruno Cortez controla a bola e Júnior, do Paraná, corre atrás. O resumo do jogo: noventa minutos controlando a bola e sendo perseguidos por paranistas, mas sem ameaçar


O Grêmio fechou o primeiro tempo da partida deste domingo, contra o Paraná, na Vila Capanema, com 74% de posse de bola e nenhuma chance digna de aparecer em um compacto de melhores momentos. Que o Grêmio tenha dominado o lanterna do Brasileirão, uma equipe que havia somado um ponto em quinze possíveis antes dessa tarde, não é exatamente surpreendente ou digno de nota. Que tenha apresentado esses números sem levar qualquer perigo à meta do pior time que o campeonato atual tem exibido, aí vale a pena mencionar.


Desfalcado, o Grêmio potencializa uma tendência que até mesmo seu time mais forte apresenta, mas que a qualidade dos titulares geralmente evita que se torne um problema: quando temos dificuldade para furar uma retranca, nós nos tornamos a pior variante de time capaz de controlar a posse de bola – uma equipe que toca e toca e gira a pelota pelo campo com uma infinidade de passes laterais, mas cria quase nada na frente e não assusta. Um time com volume, capaz de viver por noventa minutos sem ser vítima de um único ataque adversário – a menos que erre um passe e os faça encaixar um contragolpe –, mas que não consegue tornar seus próprios ataques uma ameaça séria.


Com força total, sentimos um pouco essa situação no Gre-Nal da semana passada. Erros da arbitragem à parte, no mundo em que os pênaltis nunca foram marcados, o Grêmio criou menos chances do que os dedos de uma mão. Hoje, com ausências importantes e sem nem mesmo o juiz para terceirizar a nossa culpa, a atuação foi ainda mais irritante. O Grêmio tornou-se um time que sai de campo reclamando da retranca dos adversários, uma circunstância que era óbvia e esperada desde muito antes de a bola rolar, em vez de admitir que não vem tendo competência para furar essas defesas. De que adianta ter tanta posse de bola e sair de campo com quase o mesmo número de lances de perigo que o adversário?


Em vez de reclamar do defensivismo alheio, o Grêmio poderia se dar conta de que passou o primeiro tempo insistindo em jogadas pelo meio, sem procurar as opções das laterais – um caminho em que só passamos a investir muito tardiamente no segundo tempo, após as substituições, precisamente quando passamos a incomodar um pouco mais o arqueiro paranista. Ao invés de se preocupar que os oponentes atuam como times pequenos, seria de bom tom o Grêmio olhar para si mesmo e ver que, com desfalques ou não, é uma equipe que insiste até a morte em dar um jeito de entrar na área adversária trocando passes, mesmo quando passa o tempo todo batendo na parede defensiva. Se não consegue fazer isso pelo chão, passa a tentar pelo alto: o Footstats informa que o Grêmio tentou 29 cruzamentos contra o Inter e 30 contra o Paraná, contra uma média de 18,1 cruzamentos por jogo no resto do ano.


Se é para rifar a bola na área em lances que nunca têm rendido coisa alguma, por que não arriscar mais chutes de média e longa distância? Para um time que tem se notabilizado por uma quantidade tão grande de cobradores de falta, é surpreendente como haja poucos nomes nessa equipe dispostos a bater no peito e arriscar um chute de longe com a bola rolando mesmo. Pode ser que saia torto, como na maior parte das vezes sai mesmo, e com isso renda um tiro de meta e – portanto – a perda da posse de bola. Mas pelo menos existe uma chance maior de levar algum perigo aos adversários do que há nos trezentos passes laterais que parecemos trocar nesse tipo de partida, ou nas dezenas de cruzamentos para ninguém que acumulamos nos jogos complicados.


Após a feia e sofrida vitória contra o Monagas, eu escrevi aqui que o jogo da Venezuela tinha jeito de que seria uma espécie de rascunho do Grêmio que teríamos que aguentar até a parada da Copa do Mundo. Uma equipe que não seria horrível, mas que estaria muito afastada das atuações mais brilhantes que víamos até duas semanas atrás. Não teremos Everton, Arthur nem Geromel, e até as melhores opções do banco ficaram diminuídas com a lesão de Alisson, outro que não volta até depois do Mundial. Serão jogos para testar o elenco, e nem o jogo de terça nem o de hoje foram provas merecedoras de um bom conceito ao final do semestre.


Os desfalques que temos são dificílimos de contornar, é verdade, e não há como evitar uma perda de qualidade quando quem sai do time são nomes tão pesados como os três titularíssimos citados. Mas isso não significa que a equipe deva ser reduzida a uma criação tão miserável que até mesmo Jael pareça um desfalque de peso. Hoje, é exatamente isso que acontece: a ofensiva do Grêmio se tornou tão nula que até um trombador cheio de limitações como o Cruel parece mais capaz de fazer alguma coisa do que aquilo que vimos em campo.


Contra o lanterna do Brasileirão, o Grêmio controlou a bola durante o jogo quase inteiro e mesmo assim saiu de campo com apenas três chutes a gol.