E então apareceu o Rei da América

ROBERTO VINICIUS/AGAFOTO/Gazeta Press
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Com o gol, Luan isolou-se como vice-artilheiro histórico do Grêmio na Libertadores: 11 gols ao todo, superando Rodrigo Mendes (10) e ainda atrás de Jardel (15)


Quando as gerações futuras olharem para o Grêmio vencedor dos anos 10, vai ser muito difícil de convencê-las de que, mesmo nessa fase extraordinária, ainda assim havia jogos em que precisávamos ver Marcelo Oliveira tabelando com Maicosuel. E é porque uma cena dessas existiu, e não deu certo em momento algum, que todas as críticas feitas ao Grêmio neste momento precisam levar em conta os desfalques: o time que foi a campo ontem, e que tem jogado nos últimos dias, não tem Geromel, Arthur nem Everton, que já são desfalques de peso, e, na noite desta quarta-feira, ainda precisou entrar em campo sem Bruno Cortez e convivendo com a ausência de um centroavante real (André não podia jogar a Libertadores nesta fase, Jael segue lesionado).


Era um Grêmio sem metade dos titulares e é evidente que o time sente essa circunstância, que vai seguir sendo uma constante até, no mínimo, a parada para a Copa do Mundo. O Grêmio deste momento é muito menos do que o time que, até um par de semanas atrás, jogava tranquilamente o melhor futebol da América. Aquela equipe podia encarar quem viesse pela frente. Esta, tem dificuldades para furar até mesmo a retranca do lanterna do Brasileirão. É um time que nos submete a tabelas de Marcelo Oliveira com Maicosuel, que no segundo tempo vê Paulo Miranda entrar para compor zaga ao lado de Bressan e nos deixar a todos com os cabelos em pé – um arrepio que só não foi pior porque Kannemann ainda seguia presente.


A rigor, o jogo valia muito mais para nós do que para o Defensor, que só perderia a vaga na Sul-Americana em caso de vitória do Monagas sobre o Cerro, no Paraguai – hipótese que, se fosse confirmada, tornava inútil até mesmo um empate violeta em Porto Alegre, já que só a vitória passaria a interessar, uma vitória que os charruas jamais buscaram. Como o Defensor convenceu a si mesmo de que não poderia alcançar os três pontos e o negócio era mesmo se defender, o jogo virou uma inesperada mostra de catimba e enrolação de um time que, desde o início, veio para obter um resultado honroso, confiando que o Cerro Porteño faria a sua parte no jogo paralelo (algo que efetivamente se confirmou, mas com certo drama: os paraguaios abriram a contagem em 2x0, cederam o empate que não servia para o Monagas, e só venceram com um gol aos 47 do 2º tempo).


Richard Ducker/FramePhoto/Gazeta Press
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A vitória fez o Grêmio se isolar no recorde que havia empatado semana passada: agora tem 91 triunfos na história, sendo o brasileiro que mais ganhou na Libertadores (superou as 90 do São Paulo)


Mesmo assim, o Grêmio fez muito pouco. Foi mais um jogo típico desse time que anda reclamando das retrancas adversárias e não procura alternativas de furá-las: a exemplo do que havia feito contra o Paraná, o time de Renato foi para o intervalo com uma posse de bola altíssima (77%) e sem acertar nenhuma finalização. Foi a primeira vez que a Arena, antes complacente com o time, rugiu em impaciência em um jogo desse tamanho. Reflexo da sequência de partidas em que a mesma dificuldade se repete e ninguém encontra alternativas – é um parto de bigorna para esse Grêmio fazer alguma coisa diferente além da troca de passes infinita. Há momentos em que é preciso chegar na frente da área e meter uma bicuda mesmo.


Justiça seja feita: no primeiro tempo, Cícero – que teve uma atuação acima da média do time – tentou fazer isso. Seus chutes saíram tortos, sem perigo, mas foram uma tentativa de buscar um caminho distinto no meio do defensivismo rival. Tanto que arrancaram aplausos do estádio em um primeiro tempo em que nada mais foi digno das palmas. Foi um Grêmio todo torto aquele que se viu: Maicon jogou extremamente avançado, prejudicando a criação no meio de campo, as trocas de passe infrutíferas ao redor da área se repetiram, e nada mudou imediatamente após a volta dos vestiários, sendo necessário Kannemann (!) puxar ataques a dribles para inflamar o time.


Parecia que nos encaminhávamos para um papelão surreal: com a vitória parcial do Cerro Porteño, o Grêmio ia ficando em segundo lugar de uma chave em que era claramente muito melhor que seus adversários. Ficaria na segunda posição após superar o grupo invicto, levando apenas dois gols, e administrando empates em jogos que poderia ter vencido fora de casa, contra o Cerro e o próprio Defensor. Mais: ficaria atrás de um time no qual aplicou 5x0. Não fazia qualquer sentido e, no entanto, era o cenário que se desenhava até que o Rei da América resolveu aparecer. Nos últimos jogos difíceis, a impressão é que Luan havia tido mil chances como a de ontem, uma bola com algum espaço na frente da área, mas optou por um passe lateral em vez do chute. Desta vez, não – e foi premiado com o gol.


Luan não fazia uma atuação brilhante. Prendia a bola demais, até o ponto de perdê-la, e havia passado boa parte do tempo antes do gol sem apresentar a disposição de dar o chute que acabou dando. O chute que tanto desejávamos. Luan, felizmente, é o enorme jogador que é, e tem a possibilidade de desequilibrar qualquer partida, a qualquer momento. Em jogos tão complicados, podemos usar mais vezes um Luan que arrisca chutes e aniquila o goleiro como fez na noite de quarta. Mais ainda quando Luan é um dos raros jogadores de alta qualidade da espinha dorsal que ainda resta em campo, rodeado por reservas de nível questionável.


WESLEY SANTOS/Gazeta Press
WESLEY SANTOS/Gazeta Press

O gol fez a diferença para Luan ser eleito o homem do jogo, mas Kannemann mereceu menção honrosa: guerreou nos dois lados do campo e puxou o time para cima quando o marasmo reinava


Era mais importante vencer do que jogar bem. Neste momento, em que não estamos com o nosso time real, uma atuação ruim não chega a ser um indício desesperador para o futuro: só vamos ter que nos preocupar com essa má qualidade técnica se uma “tempestade perfeita” de desfalques voltar a acontecer em agosto, quando volta a Copa do Brasil e começam os mata-matas da Libertadores. Se precisarmos de um time como o visto ontem, aí a vida será bastante infeliz. Mas a esperança é que, até as copas esquentarem de novo, a formação mais ideal do Grêmio volte a aparecer em campo.


O momento é de construir a fundação para que os titulares façam o serviço quando a coisa ficar séria: e, apesar de tudo, conseguimos exatamente isso, obtendo vitórias feias e sofridas nas duas últimas rodadas da Libertadores, mas garantindo a liderança da chave e a segunda melhor campanha geral. Uma tarefa que não é tão simples quanto parece: desde 2000, quando o atual campeão da Libertadores passou a ser obrigado a jogar a fase de grupos (antes entrava direto nos mata-matas), o Grêmio se tornou apenas o segundo defensor de título a superar esta etapa invicto. O outro? O Atlético Mineiro, em 2014, que acabaria caindo nas oitavas-de-final. Agora nos resta melhorar essa estatística.