Grêmio: Everton sempre tem combustível

Stephan Eilert/Agif/Gazeta Press
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Everton foi o dono do jogo


O Grêmio desfalcado se tornou uma espécie de Dia da Marmota futebolística, uma sucessão de jogos muito parecidos nas rodadas recentes, que costumam nos irritar e não render grandes alegrias quanto ao futebol apresentado e – com mais frequência do que o recomendável – tampouco quanto aos resultados. O roteiro é mais ou menos assim: o Grêmio chega lá com a pompa construída pelo time titular, mas cheio de reservas, e continua sendo melhor que o adversário a ponto de dominar a posse de bola, mas já não dispõe da melhor qualidade para furar a retranca que inevitavelmente vem. Aí passamos o jogo inteiro maldizendo a arbitragem (que hoje, novamente, deu motivos para isso, com dois lances de pênalti bem discutíveis), o gramado, o futebol pequeno do oponente e, quando finalmente decidimos criticar nosso próprio time, também apontamos para nossa insistência em NÃO chutar fora da área.


Em alguns momentos do jogo desta noite, contra o Ceará, em Fortaleza, pareceu ser exatamente o mesmo filme que já estamos cansando de ver. Um Grêmio superior para controlar a pelota, mas não bom o bastante para levar perigo à meta de um adversário dominado. No primeiro tempo, em que pese a nosso favor a bola na trave acertada por Everton antes dos 5 minutos, já não voltaríamos a fazer coisa alguma até os 43, quando o mesmo Cebolinha criou outra grande oportunidade, em um bonito chute de longe. Entre um lance e outro, a pasmaceira habitual dos jogos recentes, vendo o Ceará ser até mais incisivo do que nós, mesmo sendo inferior.


Cícero voltou a jogar fora de posição e, ali colocado, novamente não rendeu o que já mostrou ser capaz quando está no lugar certo. Também precisamos ser aviltados pela presença de André, um atacante que a cada jogo justifica menos o esforço e o dinheiro empreendidos na sua contratação: figura nula em campo, pouco contribui para a criação ofensiva, não participa de qualquer jogada importante e, até aqui, só fez gols nos quais a única missão era colocar a bola para dentro. André ainda faz com que tenhamos saudades de Jael começando as partidas, e isso é um péssimo sinal para alguém que chegou com uma expectativa como a que rodeava o seu nome. Por outro lado, Kannemann voltou a ser o gigante defensivo e anímico que sempre é: quando a coisa aperta, não só segura as pontas atrás como puxa o time (e, se está em casa, a torcida) com uma arrancada a dribles até o outro lado do campo. Hoje, de novo, fez uma dessas para ajudar a romper o marasmo do 0x0.


Stephan Eilert/Agif/Gazeta Press
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As arrancadas de Kannemann salvando o Grêmio da pasmaceira


Felizmente, como os cearenses estavam absolutamente desesperados pela sua situação na tabela (sete rodadas, zero vitória, e a lanterna compartilhada com o Paraná), hoje tivemos mais espaços do que costumamos. Empatar não servia para o Vozão, que teve que correr mais riscos – não só se expôs mais como também teve de conviver com as substituições acertadas de Renato. Thaciano voltou a entrar muito bem em uma partida, mostrando-se uma excelente opção para corrigir uma meia-ofensiva lenta como a que tínhamos quando só Cícero jogava por ali. Thonny Anderson também cumpriu bem após entrar na partida, mostrando novamente que é um bom recurso quando utilizado em um jogo em andamento – o problema é começar com ele e, pior, exigir do homem que faça as vezes de um centroavante, como no jogo apagado contra o Defensor.


E havia Everton, como na quarta houve Luan. Mesmo desfalcados, enquanto tivermos os nomes que mais criam coisas no nosso time, sempre temos esperanças. Se hoje faltou o 7, o 11 estava de volta – e como fez falta nesses jogos em que não pudemos contar com ele. Indiferente ao desabastecimento do país, Everton teve combustível de sobra para carregar o ataque nas costas desde o início, proporcionando ao Grêmio suas melhores chances ao longo da partida, e no lance do gol deu uma arrancada daquelas que faz a alma vibrar de antecipação desde o meio de campo, porque sabe que vem algo bom dali. Uma arrancada do mesmo tipo que Pedro Rocha (saudades eternas) fazia em seus melhores dias. Everton chegou lá, bateu dois defensores, e cruzou na medida para Thonny Anderson cabecear. O Cebolinha, que um dia foi apenas um jogador de segundo tempo, a cada semana vem se provando o nome de mais destaque do Grêmio em 2018 – agora, por todos os noventa minutos.