Aquele outro gol em Medellín: quinze anos de uma longa noite escura para o Grêmio

AFP/Getty Images
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O goleiro David González celebra o gol agônico de Vázquez: o Independiente Medellín tirou o Grêmio só para cair na fase seguinte, perdendo duas vezes para o Santos


Quando a bola de William Vázquez encontrou as redes do Grêmio e a imagem da transmissão se embaçou – ainda não tenho certeza se por causa das lágrimas ou porque faltava ajustar o foco quando deram zoom na comemoração –, o sonho estava definitivamente terminado. Na noite de 29 de maio de 2003, quinze anos atrás, o Independiente Medellín fez 2x1 em cima de nós, aos 45 do 2º tempo, e nos eliminou daquela Libertadores. No mesmo local onde havíamos sido bicampeões da América oito anos mais cedo, sofríamos uma das nossas quedas mais dolorosas na competição. Era muito mais do que isso, embora ainda não soubéssemos. Era também, com algumas temporadas de atraso, o fim definitivo dos anos 90 e de tudo o que eles representavam. Há quinze anos, num dia como hoje, nós acordamos desamparados, para o primeiro dia depois da morte de um Grêmio grande, que levaria muitos anos para voltar.


Os sinais estavam por toda a parte: o Grêmio havia feito um Gauchão patético, tinha um início de Brasileirão medíocre, e só jogava um futebol decente na Copa continental. Havíamos feito 4x1 no Peñarol na fase de grupos e, nas oitavas-de-final, trituramos o então campeão Olimpia (de memória amarga por ter nos eliminado com ajuda do juiz um ano antes), vencendo no Paraguai e em Porto Alegre. Se todo o resto já ia mal no ano do centenário, a mentira que contávamos para nós mesmos era que não passava de uma questão de prioridades: no momento em que tirássemos os olhos da Libertadores, de preferência com o Tri nas mãos, tudo voltaria ao normal.


Gazeta Press
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Tite e Christian durante empate com o São Caetano pelo Brasileirão: dois bons personagens que coincidiram em um péssimo momento


E tínhamos, de fato, razões para acreditar. Hoje sabemos que o Grêmio de 2003 brigou para não ser rebaixado até a última rodada, mas o time era muito superior àquele que – dilacerado – realmente acabaria caindo um ano mais tarde. Era um Grêmio que ainda tinha Danrlei no gol, Ânderson Lima e Roger nas laterais, que via nomes como Tinga, Rodrigo Fabri e Gilberto controlando o jogo e, no ataque, tinha a explosão de Luís Mário e a promessa de infinitos gols de Christian. Meus caros, aquele era um time que ainda tinha TITE na casamata, naquele momento o treinador há mais tempo em um clube no futebol brasileiro, mentor de grandes campanhas e atuações nos dois anos anteriores. E mesmo assim naufragou.


Quando a crise interna é grande, você pode ter os melhores nomes do mundo e a coisa simplesmente não dar liga. O ano já havia começado com o Inter nos derrotando, de virada, dentro do Olímpico, em um jogo que encerrou nossa histórica série de 13 Gre-Nais sem derrota, que vinha desde 1999. Aquele jogo foi parte de um estadual encurtado em que nós, Inter, Juventude e Caxias fizemos um grupo à parte – um quadrangular no qual o Grêmio conseguiu cometer o fiasco de ser eliminado em último lugar e sem vencer qualquer jogo. Ainda não era nem mesmo metade da temporada e só a Libertadores parecia capaz de nos salvar. Naquele fim de maio em Medellín, nem isso restou.


Danrlei já havia falhado no jogo de ida, quando empatamos por 2x2 em Porto Alegre, e foi catastrófico na partida de volta, sendo até chamado de MANOS DE ALGODÓN por um narrador. O Independiente abriu o placar no Atanasio Girardot aos 27 minutos, graças a um frangaço do nosso goleiro em um lançamento de muito longe. A esperança voltou rápido, com um belo gol de falta de Ânderson Lima três minutos mais tarde, e, pelo restante do jogo, o empate não pareceu capaz de ser tirado do placar por nenhum dos times. Na época, a Copa não tinha gol qualificado, e mesmo marcando menos como visitantes estávamos levando o jogo para os pênaltis. Nem para isso houve tempo, entretanto, quando Danrlei, mal posicionado, falhou em mais um chute de longa distância e espalmou para escanteio uma bola que deveria ter encaixado. No corner, o gol. No gol, o fim – de tudo.


Correio do Povo/Reprodução
Correio do Povo/Reprodução

A capa do Correio do Povo de 31 de julho de 2003 resume uma das noites mais tristes do Grêmio: derrota de 4x0 dentro de casa e nove invasões de campo protestando o momento do time


Aquele seria também o ano das “ovelhinhas”, a temporada que viu o Grêmio sob uma das administrações mais incompetentes que já nos amaldiçoaram, e foi o momento em que todos os tabus positivos começaram a cair. Em 28 de junho, um mês depois da eliminação na Libertadores, levamos 4x1 dentro de casa do até então freguês Juventude. Uns tempos mais tarde, perderíamos para o Criciúma em Porto Alegre pela primeira vez na história. Quem tivesse alguma rusga antiga com o Grêmio a resolveu entre 2003 e 2004: passaríamos os meses seguintes acumulando derrotas e fiascos de todos os tipos. Grandes ou pequenos, poucos foram tão marcantes quanto a tristíssima noite de 30 de julho, quando o São Paulo fez 4x0 em pleno Olímpico em uma partida válida pela Copa Sul-Americana, no que então era nossa sétima partida seguida sem vencer – em protesto, NOVE torcedores invadiram o gramado ao longo do segundo tempo.


Foi um desastre. E era só o começo. Em uma espiral de caos e desespero, aquele Grêmio usou quatro treinadores diferentes ao longo do ano (Tite foi sucedido por Darío Pereyra, Nestor Simionatto e Adílson Batista) e só evitou a queda na última rodada, após uma arrancada em que fez 13 dos últimos 15 pontos disputados. Parecia que cada movimento era um erro brutal: o Independiente Medellín, que nos eliminou, por exemplo, tinha uma dupla de zaga que nos chamou a atenção. Um deles era o colombiano Luis Amaranto Perea, que depois foi campeão do mundo pelo Boca Juniors e fez carreira no Atlético de Madrid. Ele era o bom. Nós trouxemos o panamenho Felipe Baloy, que se tornaria um dos símbolos da fraqueza técnica que nos levou ao rebaixamento (curiosamente, Baloy ainda joga e, aos 37 anos, vai ser capitão do Panamá na COPA DO MUNDO este ano. As voltas que a bola dá. No Brasil, ainda defendeu o Atlético-PR antes de ir embora de vez. Atualmente joga no Municipal, da Guatemala).


Eu costumo dizer que nenhum grande clube experimentou um rebaixamento mais arrastado do que o do Grêmio, porque o nosso durou dois anos e 92 rodadas – além de tudo, aquele ainda era o Brasileirão de 24 clubes, insuportavelmente mais longo quando se é tão ruim. A fundação de desespero iniciada em 2003 foi concluída com louvor em 2004, quando seguimos em desarranjo institucional e, dessa vez, sem nem mesmo ter o bom (e desencaixado) elenco do primeiro ano. Ao fim da campanha que quase caiu, não só a maioria dos principais jogadores deixou a Azenha, como também os últimos nomes clássicos do elenco – Roger, percebendo a furada que aquilo havia se tornado, foi procurar pastagens mais verdes no Japão; Danrlei, que perdeu espaço após uma série de falhas na metade do ano e virou reserva de EDUARDO MARTINI, acabou indo para o Fluminense. Em 2004, cairíamos na lanterna, com várias perdas de mando de campo e algumas rodadas de antecedência. Também estabelecemos o recorde de mais derrotas em uma temporada na Série A (25), que em 2007 seria superado pelo América-RN (29).


DJALMA VASSÃO/Gazeta Press
DJALMA VASSÃO/Gazeta Press

Baloy, com a 3, não consegue parar Luís Fabiano durante um jogo do Brasileirão 2003. O São Paulo venceria por 3x1


O que veio depois, todo gremista sabe bem. A história do futebol gaúcho entre 2003 e 2018 é, da perspectiva tricolor, uma trajetória de corações partidos, frustrações sem fim, apequenamentos, dúvidas, derrotas nos momentos decisivos e, pouco a pouco, regressos, culminando com a redenção absoluta. Depois de sermos destruídos aos 45 do 2º tempo naquele jogo em Medellín, no mesmo Atanasio Girardot onde a memória de 1995 havia sido muito mais doce, seria necessária outra década e meia para o sonhado Tri da Libertadores acontecer. Hoje, tantos anos depois, finalmente vivemos a manhã seguinte à longa noite escura que começou naquele gol de William Vázquez.


E é por conhecermos tão bem a escuridão que sabemos valorizar o momento atual. Em algum momento, a noite volta, o futebol é desgraçado assim mesmo. Mas, agora, esperamos que o sol recém esteja se aproximando do meio-dia.