O Grêmio termina maio invicto, mas com resultados melhores que as atuações

ROBERTO VINICIUS/AGAFOTO/Gazeta Press
ROBERTO VINICIUS/AGAFOTO/Gazeta Press

Contra o Flu, André fez um golaço de bicicleta quando o jogo já estava parado por impedimento: em um ataque que fez só 4 gols nos últimos 6 jogos, ele segue devendo


O Grêmio sobreviveu à maratona do mês de maio com louvor: jogando todos os meios e finais de semana e totalizando nove partidas em 30 dias, conseguimos sair invictos. Fossem titulares ou reservas, ninguém foi superado pelos adversários, e o Grêmio encerrou o mês com seis vitórias, três empates, 17 gols feitos e apenas três sofridos. Por isso, pode parecer uma reclamação de barriga cheia (e talvez de fato seja) criticar alguma coisa desse time, mas é justamente por sabermos que ele pode ser muito melhor do que o futebol apresentado nas últimas rodadas que nos achamos no direito de cobrar mais.


Maio foi um lento declínio na qualidade técnica da equipe, especialmente no poderio ofensivo. Após abrirmos o mês aplicando 5x0 no Cerro Porteño e 5x1 no Santos, jogos que foram seguidos por uma partida em que até os reservas jogaram bem e passaram por cima do Goiás, a coisa começou a mudar no Gre-Nal em que não conseguimos sair do 0x0 e (erros grotescos da arbitragem à parte) levamos pouco perigo ao gol rival. Ali começou a se desenhar uma nova tônica, que foi o que vimos em todo o resto do mês: times que em geral jogavam para trás, formando retrancas que nunca fomos totalmente capazes de furar, e conseguindo dar um jeito de segurar um empate ou, na pior das hipóteses, perder de pouco.


Se ninguém supera este Grêmio com os titulares – na temporada inteira, a equipe principal só perdeu seu primeiro jogo do ano, contra o Cruzeiro de Porto Alegre pelo Gauchão, e um Gre-Nal que não fazia diferença alguma, pois era mata-mata e a derrota nos classificava –, os adversários descobriram a fórmula para, pelo menos, nos segurar. O fato de o Grêmio não ser ameaçado fica explícito nos números de Marcelo Grohe: nos últimos 16 jogos que disputou, nosso goleiro titular levou apenas DOIS GOLS, e ambos só entraram porque desviaram em Kannemann e impediram qualquer defesa. Por outro lado, a sequência de partidas desde o Gre-Nal demonstra a dificuldade que temos tido na outra ponta do gramado: se o Grêmio fez 17 gols em maio, quase todos foram na sequência mágica lá no iniciozinho do mês – nos seis jogos a partir do Gre-Nal, fizemos só quatro gols.


O torcedor mais atento virá com uma resposta pronta, com a qual eu concordo em parte: o Grêmio nunca mais se aproximou de ter sua equipe ideal após o próprio Gre-Nal, quando, embora não tivéssemos Ramiro, estávamos com todo o restante do time, incluindo a última vez em que o quinteto quase imbatível jogou junto. Desde aquele jogo, Arthur e Everton se lesionaram (o primeiro ainda não voltou), Geromel foi convocado, e ainda perdemos peças que ajudam a mudar o time quando entram com o jogo andando (como Alisson, machucado aos oito minutos do jogo imediatamente posterior ao Gre-Nal, contra o Monagas) ou que são fundamentais para a mecânica ofensiva do time (por absurdo que seja, Jael contribuía muito mais com trombadas, gols e assistências do que André está sendo capaz de fazer).


LUIZ MUNHOZ/Gazeta Press
LUIZ MUNHOZ/Gazeta Press

Everton foi novamente o principal nome da dianteira tricolor. E perdeu um gol inacreditável


Nessas circunstâncias, é compreensível que o Grêmio esteja rendendo bem menos do que sabemos ser capaz – assim como dá para entender porque os adversários insistem em jogar para trás, pois é óbvio que está dando certo. No Brasileirão, o Grêmio tem números pífios dentro de casa, tendo somado apenas metade dos pontos: em quatro jogos, foram três empates e só uma vitória, e nos jogos que acabamos igualados também fomos incapazes de fazer gols. Com exceção dos 5x1 no Santos, todo o resto foram empates por 0x0 com filmes parecidos: muita posse de bola, domínio o jogo inteiro, mas pouca efetividade. Ontem foi até um pouco diferente: embora tenha criado pouco, o Fluminense (pelo menos no primeiro tempo) não veio para fazer uma retranca como Atlético Paranaense, Santos e Inter, e acabou empurrado ORGANICAMENTE pela melhor qualidade do Grêmio. Mesmo assim, não vencemos, de novo. Foi diferente também pelo nosso lado: ontem até criamos chances, encerramos a partida com 15 finalizações, e o que faltou mesmo foi pontaria.


Com a maratona de jogos e os desfalques, não se pode dizer que o Grêmio decepcionou em maio: fez sua parte tanto na Copa do Brasil, em que cumpriu seu papel contra um adversário fraco, quanto na Libertadores, onde sofreu muito mais do que devia, mas, no fim das contas, conquistou a liderança da chave e uma das melhores campanhas gerais (o exemplo perfeito de resultados melhores que atuações). Ainda assim, o Brasileirão deixa a desejar. Um time com o futebol que o Grêmio joga, e com o domínio absoluto em TODAS as partidas que disputou, não pode sentar no meio da tabela com apenas 54% de aproveitamento – estando atrás, até, de times que atualmente vencem mais no entusiasmo do que na bola, como Inter e Sport, com todo o respeito.


Embora seja cada vez mais óbvio que a Série A é o último objetivo gremista no ano, um mero pano de fundo que acontece entre uma e outra noite copeira, também não precisamos fazer uma campanha tão convictamente medíocre – ainda há quatro jogos até a parada da Copa do Mundo. É um mundo de partidas que podem definir bem que tipo de briga teremos no segundo semestre: se vai ser a mesma tranquilidade do ano passado, sem pensar no título mas bem firmados na zona da Libertadores, ou se até para voltar à taça continental será preciso sofrer um pouco – pois nos alijarmos do topo da tabela significa jogar tudo nas copas, que só dão vagas se forem vencidas. E ninguém duvida que o Grêmio pode vencê-las, mas convenhamos: se fosse simples, não teríamos passado quinze anos na seca. Nas duas semanas que ainda temos de futebol, é importante o Grêmio parar de chorar pelas retrancas alheias e encontrar formas de furá-las.