Em Salvador, o Grêmio venceu usando a arma de seus adversários recentes

Walmir Cirne/Coofiav/Gazeta Press
Walmir Cirne/Coofiav/Gazeta Press

Um Grêmio não tão titular assim: Thaciano celebra o segundo gol rodeado por Pepê, Lima e Leonardo Gomes


O Grêmio está tão desfalcado que chega a ser complicado chamar esse time dos últimos jogos de titular. Mas vá lá: na intenção, pelo menos, é o nosso time titular – as ausências não são por uma preservação deliberada, mas pela imperiosa necessidade de usar nomes alternativos causada pelas lesões. É o mais titular possível, portanto, dadas as circunstâncias. Estando de acordo quanto a essa definição, podemos engatar a próxima afirmação: jogando com os “titulares”, o que exclui aquela derrota para o Botafogo, o Grêmio fez na Fonte Nova a sua pior partida no Brasileirão 2018.


E, no entanto, venceu por 2x0 fora de casa.


Neste domingo, o mesmo Grêmio que cansou de dominar jogos em inúmeras jornadas anteriores, com frequência saindo de campo sem gol e cheio de frustração apesar da atuação melhor, esse Grêmio fez uma partida pouco inspirada, com grandes dificuldades do início ao fim. Um jogo em que até perdeu na posse de bola durante a maior parte do segundo tempo, algo que havia muito tempo não acontecia. Como fez um gol cedo, desta vez o time de Renato não precisou encarar um adversário fechado. Mesmo se o 0x0 permanecesse, porém, era improvável que o desesperado Bahia não se bandeasse para o ataque de todo modo, embora talvez com um pouco menos de urgência do que acabou tendo. Foi um jogo diferente do habitual, e isso graças à postura dos dois times.


O Grêmio começou a construir a vitória logo aos dez minutos com um pênalti escandaloso sobre Ramiro, que Maicon cobrou e perdeu diante do mesmo Douglas Friedrich, que ano passado fechou o gol em um absurdo Grêmio 0x2 Avaí – e só naquele jogo, pois depois acumulou atuações questionáveis na campanha que culminou com o rebaixamento dos catarinenses. Desta vez, porém, Douglas deu o rebote nos pés do próprio Maicon, que colocou no canto oposto e nos salvou da frustração imediata.


Depois disso, a partida se tornou mais franca, ainda que com pouca qualidade, e o Bahia começou a dar sustos enormes, além de reclamar pênaltis a cada ataque pelo resto do jogo, tentando em vão uma compensação do apitador. Kannemann foi outra vez enorme e, pendurado, nos deixou uma pilha de nervos com a possibilidade de levar o terceiro amarelo e nos desfalcar contra o Palmeiras, condenando o Grêmio à entrada de Paulo Miranda contra um dos adversários mais temíveis da tabela – felizmente, em um jogo em que meio time foi presenteado com amarelos, o argentino não foi um dos cinco advertidos, e deve estar em campo no meio da semana.


Will Vieira/Raw Image/Gazeta Press
Will Vieira/Raw Image/Gazeta Press

Novamente gigante, Kannemann evitou a suspensão hoje: pendurado, argentino dá um susto na torcida a cada refrega


A vinda dos baianos para o ataque não significou, na maior parte da partida, uma facilidade para trabalharmos o jogo do jeito que gostamos. As ausências pesaram, particularmente após o intervalo, quando Ramiro – caçado em campo – teve que deixar o jogo e reduziu ainda mais o conjunto de titulares absolutos presentes em campo. Houve momentos, até, em que o Grêmio precisou jogar como o “time pequeno” que Renato tanto tem identificado nos nossos oponentes: fechado, dando chutão, aguentando a pressão, quase um Deus-nos-acuda.


Em muitos momentos, o Grêmio efetivamente pareceu com tudo aquilo que tem abominado. Com uma diferença fundamental: mesmo cheio de problemas, este Grêmio não abdica de jogar. Se precisou recuar, foi por fraqueza técnica da equipe disponível, mas não por IDEOLOGIA. E foi assim que acabou dobrando a vantagem já nos acréscimos, no terceiro contra-ataque excelente que tivemos na reta final do jogo, após dois tristes desperdícios.


Foi mais um daqueles jogos em que o resultado acabou sendo muito melhor do que a atuação. E, em um jogo que o time fechou com apenas cinco titulares absolutos em campo (sendo quatro deles principalmente defensivos – Grohe, Kannemann, Cortez e Maicon, além de Everton lá na frente), não convém pedir muito mais do que isso. Thaciano, que tem entrado bem nas partidas, hoje estragou algumas das escapadas que tivemos para matar o jogo, mas foi uma mudança para melhor em relação a André, que segue devendo. E Everton, novamente, foi o maestro da dianteira gremista.


Em contragolpes trabalhados com Everton e Lima, que não estávamos sabendo aproveitar, Thaciano seria finalmente premiado com o gol da vitória nos minutos derradeiros, após um lance que foi a cara do Grêmio na partida: aos trancos e barrancos, um vai-não-vai tremendo, com direito a Pepê perdendo gol incrível e o próprio Thaciano aproveitando um rebote manso de Douglas, quase chutando para fora no processo, mas finalmente garantindo o 2x0 que nos alçou à vice-liderança provisória.


Um time que quer chegar longe precisa vencer também quando vai mal, e é por isso que o triunfo de hoje é tão significativo quanto meter 5x1 no Santos: se um era um atestado de qualidade, o outro demonstra resiliência nos momentos difíceis que o calendário já nos oferece, e vai seguir provocando. Significa que o Brasileirão ainda é possível, a despeito da prioridade dada às copas. Com a vitória de hoje, também nos assentamos como o visitante mais indesejável da Série A, aquele que mais soma pontos longe de seus domínios. Agora, nas duas partidas seguidas que vêm pela frente dentro de casa, é preciso cumprir com o outro lado da barganha: na corrida pelo topo, de nada adianta vencer fora se os pontos lá conquistados só compensam os que desperdiçamos na Arena. Chegou a hora de voltar a vencer no Humaitá.