A incrível ‘sorte’ do Grêmio

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A estranha "sorte" de enfrentar um tetracampeão da América


Em 2017, o Grêmio venceu a Copa Libertadores da América mais longa da história. De janeiro ao fim de novembro, foi quase um ano inteiro de jogos por todos os lados do continente, para ao final só haver um. Foi um torneio de dificuldades inéditas, em que foi preciso – como poucas vezes antes – ser consistente ao longo de toda a temporada, sobrevivendo a lesões, vendas de jogadores e outras oscilações. Para comparar: em 1999, por exemplo, o Palmeiras venceu uma Libertadores que, ao todo, não chegou a durar quatro meses. Nós precisamos de onze. E superamos perdas que julgávamos fundamentais ao longo da trajetória: Douglas se lesionou para não voltar, Miller Bolaños não vingou, Maicon também se machucou e inviabilizou o fim do ano, e Pedro Rocha (saudades eternas) teve que ser vendido.


No entanto, lá fomos nós e superamos, fase a fase, quem viesse pela frente. O Grêmio campeão da América enfrentou nada menos que quatro campeões nacionais em sua trajetória, incluindo um título conquistado diante do campeão argentino, em solo argentino, repetindo uma façanha que só o Santos de Pelé havia cometido em toda a história do futebol brasileiro.


O Grêmio tirou um Botafogo que, se não tem camisa pesada no cenário internacional, havia deixado pelo caminho nada menos que 13 títulos de Libertadores. Depois, matou um Barcelona de Guayaquil que havia aniquilado os outros brasileiros que ainda restavam no torneio, que pleiteavam coisas grandes, e que estiveram entre os melhores da última Série A – Santos e Palmeiras. Eliminou diretamente dois argentinos, sendo que um deles havia tirado de campo outro par de portenhos considerados favoritos – San Lorenzo e River Plate, tirados diante de um Lanús que, já campeão nacional, reafirmou sua supremacia dentro do futebol de seu país no biênio 2016-17.


Diante de um desafio inédito, contra os melhores times da Libertadores naquele momento, o Grêmio não hesitou e venceu, venceu e venceu – saindo da disputa com o prêmio máximo. E foi acusado de ter uma sorte dos demônios. Não importava o momento, diziam: o que fazia falta nos adversários era camisa. Ontem à noite, no sorteio da Libertadores, o Grêmio foi colocado na mesma chave de uma das equipes mais místicas da história do torneio – o Estudiantes de La Plata, com quem até rusga tivemos 35 anos atrás. Estranhamente, porém, continuávamos identificados com uma sorte atípica.


Subitamente, o argumento virou: não adiantava nada a camisa pesadíssima de um clube campeão do mundo e tetra da Libertadores – o Estudiantes de 2018 é visto como fraco e muito inferior ao Grêmio atual. Se o Lanús tinha o momento e não a camisa, o Estudiantes tem a tradição e não a atualidade – e agora, numa reversão total do argumento, o que vale é o instante, tradição às favas. O Grêmio tem tanta sorte, dizem, que até caiu no lado mais fraco da chave – mesmo que, na Libertadores com mais troféus acumulados na história, nossa metade dos mata-matas reúna 23 títulos continentais, contra apenas 12 do outro lado.


É como se o Grêmio fosse um artilheiro contra o qual a localização e o tamanho do gol mudam conforme a direção do chute. Se mandamos um tiro preciso no ângulo, não é mais golaço: o que importa para mostrar a qualidade, dizem, é acertar na bandeirinha de escanteio. Se metemos a bola precisamente na marca do corner, agora o que importava era balançar as redes. Não é indecisão quanto ao argumento: é desespero na busca de encontrar um fiapo com que desmerecer a conquista alheia.


A verdade é que a “sorte” do Grêmio é ter um time tão bom, que faz qualquer adversário – tenha a camisa ou o momento ao seu lado – parecer superável.


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Em tempo: num comentário mais sério sobre o sorteio, eu estou de acordo com a leitura de que o Estudiantes da primeira fase da Libertadores ficou devendo muito à sua história. Particularmente, foi o mais fraco time argentino que eu lembro de ter visto jogar uma fase de grupos da Copa – e, se formos totalmente honestos, só passou às oitavas com uma ajuda enorme da arbitragem na última rodada, tirando o Nacional no confronto direto com um gol no fim em um pênalti inexistente. Só que nada disso importa coisa alguma: a fase de grupos, como Michel Temer, é decorativa. A Libertadores só começa para valer nos mata-matas. Em 2015, o River Plate superou os grupos com uma vitória no último jogo, fazendo míseros sete pontos, e acabou campeão. Em agosto, começa um torneio totalmente diferente. E o Estudiantes é um gigante contra o qual nunca se deve desejar um confronto direto.