Roger Machado finalmente reencontra o Grêmio: criador versus criatura?

Edu Andrade/Fatopress/Gazeta Press
Edu Andrade/Fatopress/Gazeta Press

Por mais melancólica que tenha sido a sua saída, Roger Machado permitiu ao Grêmio sonhar mais alto a partir de 2015


Para mostrar que trazia algo de diferente, Roger Machado precisou de apenas dois jogos no comando do Grêmio. Nada mais. Depois de iniciar sua passagem com um empate – jogando melhor – diante do Goiás, no Serra Dourada, a indicação de um futuro mais luminoso veio em sua primeira partida dentro da Arena: contra o Corinthians, na noite de 3 de junho de 2015, o Grêmio precisou de apenas QUATRO MINUTOS para trucidar a esquadra de Tite, futura campeã brasileira. Com um ritmo alucinante, o tricolor abriu 2x0 logo de cara e pôde administrar pelo restante do tempo, em um duelo que acabaria como um confortável triunfo por 3 a 1.


Ali, das cinzas de todos os nossos sonhos mil vezes destruídos desde a virada do século, nascia um novo Grêmio. Diferente, mais vistoso. Um time de intensidade e de toque de bola que, com altos e baixos, persiste IDEOLOGICAMENTE até o dia de hoje. Vejam bem: eu não sou daqueles que credita cegamente o sucesso do Grêmio nos últimos anos única e exclusivamente ao trabalho de Roger, como explicarei mais adiante. Mas, se existe alguma conexão entre aquela surpreendente noite em que matamos o Corinthians antes de poder contar os minutos do jogo nos dedos de uma mão inteira, e o time que acabou Tri da América alguns meses atrás, é precisamente a adoção de uma filosofia que valoriza a posse de bola e a troca de passes onde, antes, passamos anos e anos e anos investindo somente na ligação direta, na raça e na vontade para superar as adversidades.


Para entender o que aquele jogo de pouco mais de três anos atrás significou, é preciso voltar a esse tempo sombrio que, mesmo sendo tão recente, agora parece absurdamente distante: é preciso relembrar o Grêmio que ainda não havia saído do deserto. Em meados de 2015, nós ainda vivíamos uma seca feroz de títulos que valia até mesmo para o miserável Gauchão. De fato, havíamos acabado de perder mais um estadual em final direta contra o Inter e, se existia algum time gaúcho com cara de ser capaz de buscar o Tri da Libertadores, este era o Colorado de Diego Aguirre, que, em um misto de sorte e bom futebol (que aos poucos foi desaparecendo), avançou perigosamente até as semifinais do torneio, em longas noites de foguetório e delírio vermelho que nos remetiam às jornadas desafortunadas de secação de 2006 e 2010.


Aquele momento na história, que hoje sabemos ter sido o prelúdio da virada da gangorra, foi extremamente torturante porque já havia alguns anos que sentíamos que a sorte estava a ponto de mudar. E não mudava. Embora ainda ganhasse os estaduais e a maioria dos Gre-Nais, o Inter havia criado um divertido hábito de fazer Brasileirões apenas medianos, em geral acabando atrás de nós na tabela. Por outro lado, o Grêmio começava a puxar de volta: sucessivas semifinais de Copa do Brasil, o vice-campeonato brasileiro em 2013, a libertação após uma série de clássicos sem vitória quando fizemos 4x1 no Inter em 2014. A cada ano que passava, era mais plausível que, em breve, chegaria a manhã seguinte de um título do Grêmio, quando o Inter finalmente acordaria para a mediocridade que havia se tornado, e nós para uma nova era de domínio. Ao mesmo tempo em que se anunciava, porém, esse dia não chegava nunca. No início de 2015, após muito prometer, tudo pareceu implodir uma vez mais: o Grêmio voltou a jogar nada, um furioso Felipão chegou a abandonar um jogo antes mesmo de seu final, e o co-irmão teve dias em que pareceu disposto a sair do seu marasmo da década com aquela campanha continental.


Quando Roger chegou ao Grêmio, embora tentássemos construir algo diferente, ainda imperava o desânimo diante desse triste estado de coisas. Não sabíamos direito como curar nossa frustrante rotina de tentar, tentar, e sair sempre com os mesmos resultados: bons, sim, mas não o suficiente para culminar em título. Anos à frente do Inter nas tabelas, mas perdendo os clássicos, e não ganhando sequer um estadual. No momento em que Felipão saiu, pondo um fim definitivo ao último fio de esperança noventista em que ainda nos agarrávamos – nem mesmo Scolari conseguia mudar nosso destino –, o Grêmio ficou tão perdido que (hoje ninguém mais lembra) chegou a cogitar o agora ostracizado DORIVA para ocupar a casamata. Não conseguiu fechar negócio e optou por dar uma chance à cria da casa: ao Roger multicampeão como jogador, quebrador de galho nos longos anos em que se preparou como auxiliar e técnico da base do próprio Grêmio, e vindo de passagens promissoras pelo interior.


É preciso recuperar todo esse contexto para entender a importância que Roger teve nos feitos recentes – para compreender a dimensão daquela noite contra o Corinthians e dos vários jogos seguintes em que, sobretudo em 2015 (porque em 2016 a coisa já não andou tão bem), o Grêmio pareceu ser capaz de algo maior do que conseguia demonstrar até então. O grande legado de Roger nem é o futebol que jogamos hoje, que já tem muito mais de Renato do que de seu antecessor, mas o tipo de entusiasmo que ele fez ressurgir no gremismo com aquelas atuações iluminadas de boa parte de 2015, um entusiasmo que não se apagou desde então.


Será uma injustiça tremenda se alguma vaia ao seu nome for ouvida no Humaitá nesta noite – uma possibilidade que, infelizmente, até existe, sobretudo devido ao ranço que se criou após a troca de técnicos, nem tanto por culpa de Roger, mas de um colunismo esportivo que insistiu (e até hoje o faz, embora menos) em negar a Renato Portaluppi seus méritos, atribuindo tudo ao homem que o precedeu. Também ficou um certo rancor por ter se juntado ao Atlético Mineiro às vésperas da partida de volta da decisão da Copa do Brasil de 2016, algo que hoje podemos ver como um estremecimento menor na relação entre Roger e Grêmio.


No entanto, atribuir a paternidade desse Grêmio exclusivamente a Roger é um erro enorme. Chegar até aqui foi um trabalho de muitas mãos e, pelo menos, três treinadores. O próprio Felipão, apesar da passagem apagada na ressaca do 7x1, tem um papel muitas vezes subestimado: foi ele quem, antes mesmo de reassumir o clube, deu o aval por telefone para que o Grêmio contratasse Geromel; foi ele quem deu cada vez mais confiança para jogar entre os titulares a jovens como Everton e Pedro Rocha, e inclusive lançou Arthur (!) no time principal, em uma partida de Gauchão em 2015 que ninguém mais lembra – o volante passaria depois toda a gestão de Roger sem receber uma nova chance. Assumindo em um momento de dificuldades financeiras, Felipão foi obrigado pelas circunstâncias a começar a dar ao Grêmio a cara de time feito em casa que hoje nos orgulha. Roger, por sua vez, implementou uma filosofia muito distinta do que conhecíamos até ali. Mas foi Renato quem pegou tudo isso e nos elevou a outro patamar – um que não seria possível sem sua vinda.


Após os sustos que o Inter nos deu em 2015, no final das contas, os dias de Roger coincidiram com a confirmação de nossas esperanças de que a volta viria. Olhando em retrospectiva, nenhum momento simbolizou tão claramente que a gangorra havia finalmente virado quanto aquela semana fantástica em que o Inter caiu nas semifinais da Libertadores, mandou Aguirre embora, tentou o “fato novo” de Odair Hellmann (então interino), e levou 5x0 naquele Gre-Nal que ecoará pela eternidade. Não é todo dia que se tem a certeza de testemunhar a história, como já escrevi aqui, mas a tarde dos 5x0 foi uma dessas. Naquele momento, sobretudo pelo futebol que o Grêmio tinha mostrado, e pelo placar não visto havia mais de um século. Conforme os anos avançaram, tornou-se ainda mais significativo por tudo o que aquele jogo passou a representar em termos de renascimento para o gremismo. No futuro, um milhão de tricolores dirão que estiveram naquele jogo, mesmo que tenham sido “só” pouco mais de 50 mil.


Mas a saída de Roger Machado, por outro lado, veio num momento em que ele claramente já não encontrava soluções para o seu time. O sistema defensivo era uma peneira, mesmo tendo à disposição um Geromel que já era o melhor zagueiro do país desde o segundo semestre de 2014. O ataque não conseguia criar, perdido em um toque de bola infinito e nada incisivo: a pior faceta desse estilo que hoje temos, e que ainda aparece nas partidas menos inspiradas. A Roger faltou experiência para segurar o rojão da oscilação técnica e, tivesse ele permanecido, nada do que veio depois teria sido possível. Roger adquiriu o terreno, limpou o mato e empilhou os tijolos num canto do lote, mas a mansão que lá existe hoje só foi erguida mais tarde. Quando saiu, o capim já estava ficando alto de novo: a necessidade da saída fica explícita quando lembramos que, em meados de 2016, o Grêmio perdia para todo mundo com um time que apenas quatro meses mais tarde acabaria campeão do Brasil jogando um futebol que o próprio Roger jamais havia conseguido tirar da equipe – um futebol que só foi testemunhado sob Renato, que soube construir sobre o que já existia, mas fez muito mais do que costumam lhe dar crédito.


Nesta noite, o Grêmio reencontra Roger pela primeira vez, como quem revê aquela ex com quem começou a experimentar coisas novas na vida, mas sabendo que o término foi saudável e necessário: foi o que permitiu que encontrássemos o amor de nossas vidas. Foi o que abriu caminho para que os dois crescessem. Hoje, Roger Machado é um treinador muito mais maduro do que era três anos atrás – e o Grêmio é uma equipe bem mais robusta do que nos seus dias entre nós. Ao olharem um para o outro no gramado da Arena nesta noite, não deveria haver qualquer mágoa: só um mútuo agradecimento por termos nos tornado quem somos hoje.