O Gre-Nal dos 5x0 faz três anos: o dia em que o jogo virou

EDU ANDRADE/Fatopress/Gazeta Press
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Giuliano celebra o golaço que abriu o passeio


Em retrospectiva, muitos consideram aquele o dia da virada: o momento em que a gangorra começou a nos favorecer após longos anos de dor e desespero. Dali em diante, começou uma sequência de anos em que tudo pareceu sorrir ao Grêmio e nada que o Inter fizesse soava capaz de alcançar um final feliz. Mais de um ano mais tarde, viria o fim da seca e, outro ano depois, a Libertadores. Ninguém duvida que o 5x0 foi o marco simbólico em que todas as glórias conquistadas sob Renato começaram, antes mesmo de o próprio voltar para cá.


Para mim, a coisa começou a mudar antes disso, na goleada do final de 2014, quando, ainda treinados por Felipão, fizemos 4x1 no Inter. Foi nossa primeira vitória em clássico depois de nove jogos e, num momento em que o Grêmio andava tão mal que nem Gauchão vencia, ser incapaz de ganhar até mesmo os Gre-Nais era um sal a mais na ferida. Mas concordo com o contra-argumento de quem não vê aquele jogo da mesma forma: no primeiro semestre de 2015, ainda vimos o Inter ganhar um estadual em cima de nós e avançar perigosamente na Libertadores, com uma sorte digna de futuro campeão, e nos deixar com todos os fios de cabelo em pé temendo que a sorte jamais viraria.


Luiz Munhoz/Fatopress/Gazeta Press
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Luan, à época uma lenda em construção, fez dois


Antes do 5x0, então, é bem verdade que a rivalidade ainda vivia um impasse: o Inter já não era o mesmo havia um bocado de anos. Após 2010, o Inter não disputou para valer qualquer título grande (a Libertadores de 2015 foi mais uma exceção do que a regra da primeira metade da década), mas sustentava seu sentimento de superioridade graças a clássicos vencidos e troféus estaduais. Quando a equipe de Diego Aguirre fez aquela campanha assombrosa na copa continental, parecia que o Colorado começava a despertar do marasmo e nós deveríamos aceitar definitivamente nossa redução contemporânea a uma espécie Botafogo dos pampas, com uma história bonita e uma atualidade desalentadora, imersos em uma seca sem fim.


O Inter havia nos dado todas as chances de virar o jogo e nós, incapazes de aproveitar, agora víamos como eles buscavam a maior das glórias outra vez. Havia colorados pensando no tri da Libertadores desde maio, mais ou menos. Até alguns gremistas passaram a acreditar, já se vacinando para um fim que, a cada gol de D'Alessandro marcado graças a um desvio afortunado, parecia inevitável.


Só que o Inter foi subitamente eliminado em uma noite infeliz no México, mandou Aguirre embora na tentativa de criar o “fato novo” e chegou ao Gre-Nal despedaçado. O Grêmio, por sua vez, vivia um momento distinto. Ainda eram os primeiros dias de Roger Machado, um novo estilo de jogo começava a tomar conta, nossa equipe se azeitava cada vez mais (nascia ali uma base que, ainda não sabíamos, nos levaria aos sonhos realizados de 2016 e 2017), e havia uma certa esperança pelo futuro. É um pouco por essa boa fase que, para mim, o 4x1 foi talvez mais marcante que o 5x0: na segunda goleada, inclusive pela existência da primeira, havia certa fé em nossa capacidade de amassar o rival, mesmo que ninguém apostasse em uma goleada tão grande; já a primeira foi absolutamente inesperada. De todo modo, foi mesmo nos 5x0 que os astros se alinharam para a gangorra se inverter. Era uma questão de não deixarmos a chance passar. E, daquela vez, não deixamos.


Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Fernandinho passa por cima daquele que, no futuro, seria brevemente o goleiro mais caro do mundo. Era o 4x0


Depois de tantos anos fazendo uma série de campanhas melhores que o Inter no Brasileirão, mas sem taça, finalmente abraçamos a oportunidade de atropelá-los e dizer que uma nova ordem estava por nascer. O Grêmio não deu qualquer chance para o rival, dominou a partida inteira e, ao intervalo, já vencia por 2 a 0 tendo ainda errado um pênalti quando o placar estava zerado. No segundo tempo, fez outro gol logo de cara e quase entrou em um pacto da piedade, disposto a administrar a grande vitória já construída.


Mas ainda faltava tempo demais, as substituições vieram e, assim como Schürrle nos 7x1 da Copa de 2014, Fernandinho entrou ignorando o acordo-não-escrito para botar o pé no freio: endiabrado, alçou a goleada “normal” a números míticos em duas escapadas que acabariam sendo (ninguém imaginava) presságios de um gol ainda maior que faria dois anos e pouco mais tarde, para nos dar a América. No primeiro lance em que correu desabalado nas costas da defesa vermelha, ele próprio fez o gol. No segundo, atravessou na área para Réver (contra), marcar o gol que virou meme e clássico – e que, de qualquer maneira, teria sido anotado por Bobô se o zagueiro não aparecesse.


Desde lá, com uma montanha de troféus erguida no Humaitá após o Dia dos Pais de 2015, as dores dos quinze anos se amenizaram e, por parte de alguns, foram até esquecidas. O que ninguém vai deixar de lembrar é dos 5x0 que, de certa forma, inauguraram as glórias dos anos 10, colocando mais uma década de delícias em nossas vidas, após os 80 e – especialmente – os 90. Ao contrário: aquele dia só fará crescer conforme os anos se passem. Será impossível contar sobre o Grêmio tricampeão da América, o Grêmio de Grohe, de Geromel, de Luan, sem passar pelos 5x0 – em que os três estavam em campo, aliás, e o último até fez dois gols.


Luiz Munhoz/Fatopress/Gazeta Press
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Réver (contra)


Não sabemos até quando esses anos irão, e agora que o Grêmio de 2018 vive um momento difícil e o rival volta a ter esperanças, há quem pense que vivemos um momento propício para o pêndulo do futebol gaúcho viajar ao outro lado novamente. Não se sabe, enfim, o que o restante da temporada vai reservar – se o Inter implodirá ou confirmará a ascensão (comandado pelo mesmo timoneiro dos 5x0, vejam aí uma narrativa de redenção possível para o co-irmão), nem se o Grêmio prosseguirá em seu leve declínio ou vai superar as agruras recentes como um pequeno soluço em uma temporada que ainda pode terminar tão gloriosa como começou. Porque, até que a gangorra vire de verdade outra vez, a história inaugurada naqueles 5x0 ainda nos sorri – e já temos dois títulos no currículo só este ano.


* * *


A ficha daquele dia maravilhoso:



09/08/2015- Arena do Grêmio, Porto Alegre
GRÊMIO 5x0 INTERNACIONAL
Público: 46.010 presentes (42.432 pagantes)
Renda: R$ 1.745.584,00
Árbitro: Dewson Fernando Silva, auxiliado por Emerson Augusto de Carvalho e Marcelo Van Gasse.


Escalações:
Grêmio – Marcelo Grohe; Rafael Galhardo, Pedro Geromel, Erazo, Marcelo Oliveira; Edinho, Maicon, Douglas (85’ Maxi Rodríguez), Giuliano, Pedro Rocha (72’ Fernandinho), Luan (79’ Bobô). Técnico: Roger Machado.


Internacional – Alisson; Willian, Réver, Juan, Ernando; Rodrigo Dourado, Wellington, Eduardo Sasha, Anderson (46’ Alex), Valdívia (79’ Vitinho), Lisandro López (54’ Nílton). Técnico: Odair Hellmann.


Cartões: Edinho e Fernandinho (G); Alisson, Rodrigo Dourado, Eduardo Sasha e Nílton (I).


Gols: 36’ Giuliano; 43’ Luan; 48’ Luan; 76’ Fernandinho; 83’ Réver (contra).