Breve história sobre gigantismo e mídias óticas

Em algum lugar, em um certo momento no futuro, quando a internet já for universalizada e as mídias óticas como o DVD e o Blu-Ray foram descontinuadas e se tornaram uma vaga lembrança (como é hoje a FITA CASSETE), alunos inconsequentes, desesperados pelo trabalho de história do Brasil que terão de entregar no outro dia durante a manhã, concentram suas ainda jovens e carregadas forças na busca incessante sobre informações confiáveis na grande REDE. A um deles foi delegado o assunto da grande paralisação dos caminhoneiros que resultou num caos absoluto e quase colapso do país no longínquo 2018.


Mesmo na aurora da sua juventude quase sem-vergonha, este GURI já era fã de bagunça e da ANARQUIA, não demorando muito para se interessar nos relatos sobre os tempos de APOCALIPSE causados pelos motoristas de braços cruzados e decidiu ler mais. Esperto, pensou em pesquisar as datas dos acontecimentos para ver a sequência de notícias, um prato cheio para a sempre presente PROCRASTINAÇÃO, uma vez que notícias diversas apareceriam e depois de um tempo o trabalho seria deixado de lado. Foi então que, ao pesquisar sobre 27 de maio, ele achou este link sobre a vitória do Internacional sobre o Corinthians no estádio Beira-Rio e decidiu ver o conteúdo. Afinal, um jogo de futebol em meio ao PÂNICO só poderia resultar em um público pífio e um jogo modorrento. 


Ledo engano. O que aconteceu em Porto Alegre nessa data foi uma epopeia acompanhada por três dezenas de milhares de torcedores. Isto mesmo, TRINTA MIL pessoas foram à cancha colorada para acompanhar a partida entre os historicos rivais gaúchos e paulistas, mesmo após a prefeitura de Porto Alegre cortar a circulação de todos os ônibus e a grande maioria dos carros estarem em regime de RACIONAMENTO de combustível. E o público magnífico acompanhou uma grande vitória de virada do Internacional sobre o Corinthians por 2x1 - não só isso, pôde lavar a alma com uma grande atuação dos comandados de Odair Hellmann, que suplantaram os alvinegros durante toda a partida e mereceram sem quaisquer contestações a vitória sofrida e suada sobre o então campeão brasileiro.


Divulgação/Internacional
Divulgação/Internacional

Rossi comemorando o gol da vitória do Inter sobre o Corinthians




Enquanto milhares de pessoas ainda estavam entrando no estádio para acompanhar a peleja, Mateus Vital já recebia passe de Ángel Romero e, aproveitando falha de Klaus, marcava o gol de abertura do placar para o timão. Conta-se nos relatos da época que mesmo com a vitória parcial, a quase sempre barulhenta torcida do Corinthians não mostrava a mesma força de outrora e sua festa característica parecia ter sido afetada diretamente pela paralisação supracitada. Mesmo aqueles que estavam próximos à torcida alvinegra contam que a vibração foi até TÍMIDA e os cânticos eram desconexos e sem potência alguma. O resto do primeiro tempo foi de superioridade do Inter mas que não era convertida em gols: muita posse de bola no campo ofensivo mas dificuldade para quebrar as sempre próximas linhas de marcação do adversário. Ao término da primeira etapa, um misto de reações na arquibancada: ao passo que se agradavam pelo volume e pela VOLÚPIA do Inter, irritavam-se os torcedores pela falta de chances claras e a dificuldade de penetração. 


Quando apitou a volta do intervalo, a pressão se manteve, porém mais organizada: o Inter continuava com seu volume e presença no campo de ataque, mas começava a criar chances de gol. Não correu grandes riscos pois o adversário tinha uma proposta mais defensiva, mas quando era exigido o sistema defensivo correspondia com maestria: Klaus, recuperado, Rodrigo Moledo, Zeca e, principalmente, aquele que os relatos apontam como melhor em campo naquela tarde: Rodrigo Dourado, um SAQUEADOR de bolas de marca maior. Aos 19 minutos da segunda metade, Leandro Damião recebe cruzamento de Lucca e acaba com seu jejum de gols que já tendia ao INFINITO como diria algum matemático suspeito. Com o Beira-Rio em CHAMAS (não causadas por combustíveis fósseis, diga-se), o colorado aproveitou e se lançou mais ainda pra cima do Corinthians. Os ingressos de Juan Alano, Rossi e Nico López contribuíram pra continuidade dos ataques incessantes. Quando Leandro Damião teve o seu gol anulado por impedimento, as coisas pareciam se encaminhar para um empate. Porém, no apagar das luzes, mais ou menos no último MEGABYTE que cabe dentro de um, sei lá, DVD, Rossi aproveita lambança do menino Mantuan e do goleiro Walter pra marcar o gol da justa vitória vermelha em Porto Alegre, pra delírio de todos presentes no estádio. 


O menino que tinha um trabalho pra entregar ainda encontrou nas notícias algo que não queria: após o segundo gol colorado, cinco corações vermelhos não aguentaram e infartaram nas arquibancadas do Beira-Rio - um deles veio a falecer, infelizmente. Em uma partida onde a virada reverteu as expectativas de todos presentes que já aceitavam o pontinho conquistado pelo empate contra a maior pedra do sapato vermelho, a emoção foi elevada às alturas e o epicentro desse turbilhão de emoções acabou vitimando Aldo Daroit. Essa vitória, meu caro, foi pra ti e pra todos aqueles que dedicaram e dedicam a vida para viver o Sport Club Internacional. Meus sentimentos à família e que descanse em paz. 


Uma vez que já era tarde da noite, o menino leu, de relance em algum lugar, que o Inter enfrentaria o Vitória alguns dias depois, fora de casa. Leu, também, que essa partida seria um desafio tão grande quanto o Corinthians em casa pois os vermelhos ainda não tinham conseguido ter bom desempenho longe de Porto Alegre. Para finalizar, viu na seção de comentários, pedidos em comum de todos os torcedores vermelhos para que em Salvador mantenha a postura agressiva e ofensiva. Que mesmo que perdesse assim, jogasse assim. Não quis ver o resultado da partida pois já não tinha mais tempo. 


Logo após, desligou o computador e, antes de dormir, mandou uma mensagem à sua mãe: "você sabe o que é um DVD? Não tenho ideia do que seja!". A resposta, de fato, pouco importa. Em tempos de mídia digital como os dele, quem se apega à DVD com tanto apreço é medíocre e merece tudo de ruim - como, sei lá, uma virada com gol no finalzinho do jogo.