Inter: em grandes campanhas também se ganha jogando mal

Em um campeonato tão longo e disputado como o Brasileirão, nem sempre será possível jogar bem. Dito isto, a vitória de hoje do Internacional contra o Ceará ganha uma importância muito maior pelo resultado e por efeitos de tabela do que pelo desempenho propriamente dito, que ficou abaixo do que o time vinha produzindo antes da parada pra Copa do Mundo e também abaixo do segundo tempo da partida contra o Atlético-PR, na rodada anterior. É verdade que a equipe cearense, historicamente uma pedra no sapato alvirrubro, veio com uma proposta extremamente defensiva, que dificulta muito qualquer tipo de criação por parte do time da casa. Mas não justifica a quantidade alta de erros de passe, perdas de posse, apatia e baixa movimentação e intensidade que estávamos vendo na partida durante boa parte do tempo. 


No começo do jogo, a impressão que o time do Inter deu foi a de que a noite seria longa e melancolicamente tenebrosa: com o freio-de-mão puxado, o time com o tripé de meio-campistas, que foi responsável pelo equilíbrio dos jogos anteriores à Copa do Mundo não conseguia ser vertical. Tinha a bola nos pés (diga-se: muito pela proposta do Ceará), mas não conseguia fazer coisa alguma com ela e, como toda posse sem objetividade, a excessiva troca de passes entre os zagueiros e os laterais começava a irritar lenta e gradualmente os mais de 20 mil colorados presentes no estádio Beira-Rio.


Além da mecânica não funcionar como deveria, as individualidades também ficaram aquém do seu nível tradicional, especialmente o já citado meio de campo, com Edenilson e Patrick fazendo partida ruim e comprometendo com a transição de bola, extremamente burocrática e lenta. Zeca e Iago, dois fundamentais jogadores para que a bola chegue com qualidade ao ataque, também estiveram mal e o trio de ataque acabou isolado da partida, com pouca participação efetiva. O resumo da ópera era um time lento, amarrado e sem qualquer perspectiva de jogo. A única grande chance da primeira etapa veio após jogada individual de Rossi, que driblou dois defensores do Ceará e finalizou no travessão.


Aliás, fica aqui minha solidariedade aos editores dos melhores momentos desse primeiro tempo, que se esforçaram pra conseguir encontrar 45 segundos de lance sem repetir esse incessantemente. 


Divulgação/Internacional




Divulgação/Internacional

A entrada de D'Alessandro foi fundamental para a vitória colorada


Já na segunda metade, os primeiros 15 minutos foram uma reedição clara do primeiro tempo, com a diferença de que a retranca cearense já não era tão acentuada. Continuavam com duas linhas de quatro jogadores, marca registrada em times defensivos desde que o mundo é mundo, mas passavam a ter a bola em alguns momentos e até mesmo adiantar a marcação de seus jogadores, chegando até a ameaçar o gol de Danilo Fernandes em determinados momentos. 


A coisa ia indo mal até que Odair Hellmann chamou Andrés D'Alessandro e, antes de falar sobre o que aconteceu no jogo, é preciso deixar claro e público neste espaço: o argentino tem importância incalculável no time colorado. Não apenas sua contribuição técnica e tática, mas também psicológica. Sua liderança dentro e fora de campo são fundamentais em momentos como os do jogo de hoje e seu papel dentro do Inter ainda é de extrema importância, ainda que alguns torcedores colorados não enxerguem isso. Dito isso, vamos lá: o ingresso do argentino no jogo de hoje foi fundamental para que a vitória acontecesse.


A redistribuição tática do time do Inter fez com que Patrick e Edenilson crescessem no jogo e o Inter começou a ter mais verticalidade e objetividade no jogo. Outra entrada importante foi a de Leandro Damião, fundamental no lance do gol com um pivô perfeito para Nico López, que finalizou e obrigou Everson a fazer um milagre para que Pottker marcasse no rebote e sacramentasse a vitória colorada.


A partir do gol, soubemos controlar bem o jogo e não corremos grandes riscos contra um cansado time cearense, que mesmo na lanterna da competição soube ser valente e vendeu caríssimo a derrota em Porto Alegre. 


A vitória sem grande futebol não chega a preocupar: se analisarmos o universo de atuações no Campeonato Brasileiro, dá pra tratar como um ponto fora da curva a má atuação de hoje. Grandes campanhas também são construídas com vitórias em jogos ruins e é fundamental saber vencer sem jogar bem.


Nos próximos dois jogos, o Inter enfrenta o América-MG, em Belo Horizonte, e o Botafogo, em Porto Alegre. Caso esteja com a intenção de continuar no pelotão de cima da competição, é importante e quase imprescindível que conquiste os seis pontos. Para isso, é preciso retomar o desempenho atingido antes da parada para o Mundial da Rússia.


Já são 10 jogos sem perder neste Inter de Odair Hellmann, coisa que não acontecia desde a fantástica campanha de 2005 de Muricy Ramalho. No ano imediatamente após o retorno do pior pesadelo da história colorada, a jornada colorada no Brasileirão até aqui não deixa de ser surpreendente. Mas mesmo assim, não está proibido de se sonhar com vôos maiores. 


Seguimos!