São Paulo 1x2 Inter: há 12 anos, um dos maiores jogos da história do futebol gaúcho

Mauro Vieira/Diário Gaúcho
Mauro Vieira/Diário Gaúcho

O placar eletrônico do Morumbi anunciava a vitória parcial do Inter por 2x0


O dia 9 de agosto de 2006 vai ficar pra sempre guardado na memória do torcedor do Inter. Não é a data do título da Libertadores, mas da quarta-feira imediatamente anterior à conquista de fato: o jogo de ida daquela final foi o maior de toda campanha e não por acaso foi ele quem garantiu o tão sonhado caneco de Libertadores da América, sonho que nos havia sido abortado em 1980 diante do Nacional e em 1989 na semifinal contra o Olímpia em pleno estádio Beira-Rio. O triunfo colossal diante dos atuais campeões mundiais em sua própria casa foi a coroação de uma campanha brilhante no torneio continental e que culminaria em título sete dias depois. 


A minha opinião estritamente pessoal é a de que este é o maior jogo da história do Inter. Mesmo que o triunfo diante do Barcelona quatro meses mais tarde tenha sido histórico e quase inacreditável, foi este jogo que mostrou ao continente inteiro que éramos, sim, dignos de desbravarmos a América em uma jornada libertadora. O cenário era desfavorável: enfrentaríamos o clube brasileiro com o maior número de conquistas da competição, que também era o atual campeão da Libertadores e do Mundial de Clubes alguns meses antes. Era ainda o líder do Campeonato Brasileiro e tinha um elenco fortíssimo. E tudo isso dentro do Morumbi, diante mais de 70 mil vozes tricolores. Sem dúvida o Inter teria condições de enfrentá-los de igual pra igual (e o fez), mas qualquer colorado estaria mais do que satisfeito com um empate matreiro e ainda esperançoso com uma não improvável derrota. 


Gazeta Press
Gazeta Press

Time-base do São Paulo, então atual campeão da América e do Mundo


O contexto daquela final era muito diferente para os dois times: para nós colorados, as feridas do título do Campeonato Brasileiro que havia sido nos tirado à força ainda não haviam se fechado, naquela anulação extremamente bizarra de 11 jogos que fez com que o Corinthians ganhasse quatro pontos a mais, terminando o certame três pontos na nossa frente. Além disso, a seca de 14 anos sem título colocava uma dose de pressão absurdamente grande nos jogadores e na comissão técnica, comandada por Abel Braga, que ainda não havia sido bem sucedido em time nenhum. Além disso, o Inter havia perdido o Campeonato Gaúcho de 2006 em casa pro Grêmio mesmo o rival tendo um time absolutamente inferior, gerando uma certa desconfiança nos torcedores. 


Por outro lado, o São Paulo vivia naqueles tempos dias gloriosos: em 2005, havia sido campeão da Libertadores em cima do Atlético-PR e, no final do ano, campeão do Mundial de Clubes contra o Liverpool-ING. O tricolor paulista era o clube modelo por sua gestão eficiente e vencedora, e chegava na final com um time que, se não fosse melhor, no mínimo era do mesmo nível. No ano de 2006, mesmo envolvido na Libertadores, era o líder do Campeonato Brasileiro e viria a ser campeão no final do ano (com o Inter na vice-liderança, confirmando que eram de fato os dois melhores times do país naquele período). O técnico era Muricy Ramalho, que havia montado toda a base do time do Inter quando foi técnico por duas passagens entre 2003 e 2005. Embora não houvesse abismo, poderia se dizer que o São Paulo era favorito naquele confronto pelo contexto e pela tradição do clube paulista. 


Antonio Gauderio/Folhapress
Antonio Gauderio/Folhapress

Time do Inter na final, vestido totalmente de vermelho


O Inter foi ao campo do Morumbi com um uniforme um pouco diferente do tradicional: em vez dos calções e meiões brancos, o colorado entrou todo de vermelho. A cor da camisa, para os MÍSTICOS, talvez tenha influenciado na expulsão de Josué, que aos 9 minutos de partida acertou uma cotovelada em Rafael Sóbis, ainda então um mero mortal. A expulsão do volante são-paulino foi fundamental para que o Inter pudesse desempenhar seu futebol com mais tranquilidade, e começou a criar algumas chances de gol. O São Paulo, com Ricardo Oliveira ainda um menino, assustava nos contra-ataques, mas Rogério Ceni e Clemer garantiram que o placar ficasse zerado no primeiro tempo. No final da primeira etapa, aos 37 minutos, o meiocampista Fabinho deixa o braço na nuca de Souza e também leva o cartão vermelho, igualando o número de jogadores dos dois times.


Em dez contra dez, no segundo tempo o jogo ficou mais aberto e propenso para a velocidade, especialidade de Rafael Sóbis, ainda um mero humano. Quando o menino de Erechim recebeu passe do traidor Edinho, tropeçou, reequilibrou-se e fuzilou no canto esquerdo rasteiro, abrindo o placar da final e decretando o maior silêncio que o Morumbi já viu na vida, alçando o atacante de cabelos loiros à eternidade. O gol deu tranquilidade ao time de Abel, que aos 16 minutos ampliou mais uma vez com Rafael Sóbis, a esta altura já colocado no panteão dos maiores da história do clube, com sua noite de gala. Sóbis ainda teve a chance de fazer o terceiro, mas acabou chutando por cima da meta. Naquele momento, os colorados lavavam a alma: dominar o São Paulo dentro de seus domínios era uma tarefa praticamente impossível naqueles tempos, mas estava acontecendo. O gol de Edcarlos aos 32 minutos não arruinou a noite mais vermelha de todos os tempos até então: a vitória e a mão no título continental sob os pés de Rafael Sóbis, um gigante e eterno protagonista rubro. 


Descrição/Agência RBS
Descrição/Agência RBS

Rafael Sóbis, o gigante daquela noite mágica, autor de dois gols


Olhando em retrospecto, é impossível não colocar esse jogo pelo menos entre os três maiores da história do clube. Por todo o contexto que o rodeou, por tudo envolvido, por toda a dor, a amargura e o sofrimento e por toda a sensação de libertação, embora ainda houvesse a angústia de esperar por mais uma semana e o jogo da volta para enfim tirar o grito entalado na garganta por 26 anos, a mítica vitória do Inter no estádio Morumbi é uma das melhores noites da minha vida e jamais vou esquecer, mesmo ainda sendo um guri e não entendendo a dimensão da coisa. A imagem que eu tenho de meu pai em lágrimas foi suficiente para que eu entendesse: o Inter é colossal, gigante, absoluto. Aquela noite apenas serviu para reforçar essa certeza para o mundo inteiro. 


_______________________________________________________________


São Paulo 1x2 Inter (9/8/2006)


São Paulo: Rogério Ceni; Fabão, Lugano e Edcarlos (Aloísio); Souza, Mineiro, Josué, Danilo (Lenílson) e Júnior; Leandro (Richarlyson) e Ricardo Oliveira. Técnico: Muricy Ramalho.


Internacional: Clemer; Ceará (Wellington Monteiro), Bolívar, Fabiano Eller e Jorge Wagner; Edinho, Fabinho, Alex (Índio) e Tinga; Rafael Sobis (Michel) e Fernandão. Técnico: Abel Braga.


Gols: Rafael Sobis (I), aos 8min25seg e aos 16min do segundo tempo, e Edcarlos (SP), aos 30min do segundo tempo.

Cartões amarelos: Fabão e Souza (SP).
Expulsões: Josué (SP) e Fabinho (I).

Renda: R$ 3.382.655,00.
Público: 71.745 pagantes.

Arbitragem: Jorge Larrionda, auxiliado por Pablo Fandi'o e Walter Rial (trio uruguaio). Local: Morumbi, em São Paulo.