Inter, um clube especialista em perder talentos

Durante os anos 90 e com todas as mudanças que revolucionaram o futebol, a Inter alterou drasticamente seu status de clube formador para comprador. No caso da Beneamata, pesou ainda a entrada do ambicioso e inquieto Massimo Moratti em 1995. Antes referência na formação de jogadores, com muitos jogadores criados em Appiano Gentile servindo de base para seus grandes times, o clube perdeu essa característica e virou um especialista em perder talentos.


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Achou que não ia mais me ver aqui? Achou errado


Maior jogador da história do clube, Giuseppe Meazza é o exemplo mais óbvio de jogador formado no lado nerazzurro de Milão, mas a Grande Inter dos anos 60 tinha, entre outros, Giacinto Facchetti e Sandro Mazzola. A dupla jogou somente pelo clube e seguiu junta na direção por muitos anos. Quando estavam aposentando, outros surgiram, como Gabriele Oriali e Graziano Bini, depois acompanhados por Alessandro Altobelli, contratado ainda jovem. Já a década seguinte foi de Giuseppe Baresi, Giuseppe Bergomi, Riccardo Ferri e Walter Zenga, titulares da Inter dos recordes.


Embora a política de contratar jovens tenha sido mantida na Era Moratti 2, o setor juvenil interista passou a produzir cada vez menos jogadores para o time principal. E mesmo assim foram raros os exemplos de garotos que seguiram no clube por muitos anos e tiveram seu auge em Milão. Javier Zanetti, Iván Córdoba e Esteban Cambiasso, todos estrangeiros, são os exemplos mais célebres. O trio jogou no clube por mais de uma década, sendo que Zanetti ainda é - se é que um dia será superado - o jogador com mais presenças e temporadas como capitão.


Claro que o clube é maior que isso, mas certamente há um arrependimento por tanto talento perdido nos últimos 30 anos. No período que Zanetti, Córdoba e Cambiasso se consolidaram, outros com perfil parecido não tiveram o mesmo destino. Andrea Pirlo é o maior exemplo: titular do Brescia na Serie A com apenas 17 anos, o talentoso meia-atacante foi contratado no ano seguinte pela Inter. Depois de um ano como reserva na caótica temporada de 1998/99, mas ainda com bastantes presenças, foi emprestado à Reggina, onde voltou a se destacar na elite.


De volta ao clube, não teve espaço com Marcello Lippi e retornou em empréstimo para o Brescia. Na sua casa, reinventou seu jogo com Carlo Mazzone e Roberto Baggio, e em apenas dez partidas fez o suficiente para impressionar Carlo Ancelotti. Héctor Cúper, novo treinador da Inter, não teve a mesma leitura, e Pirlo acabou negociado com o Milan em 2001 aos 22 anos. Foram dez temporadas pelo Diavolo e depois mais quatro na Juventus. Nos dois rivais se consolidou como um dos maiores meio-campistas do século, conquistando seis Serie A, duas Liga dos Campeões e um Mundial de Clubes.


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Era para ser o camisa 6 da Inter por mais de uma década...


Não é recente o problema da Inter com a lateral esquerda. O último a se consolidar na posição foi Andreas Brehme, titular entre 1988 e 92. Mas cinco anos antes de Pirlo ser vendido ao Milan, o clube cometeu um erro ainda maior: vendeu Roberto Carlos para o Real Madrid quando tinha 23 anos. Contratado junto ao Palmeiras em 1995, o brasileiro foi um dos primeiros investimentos de Moratti, contudo, o treinador Roy Hodgson o escalava no meio-campo por acreditar que era muito indisciplinado taticamente.


No final da temporada, Roberto pressionou o presidente para voltar à defesa, mas Hodgson seguiu relutante e acabou negociado. Na sequência, o lateral se consolidou no Real Madrid, onde jogou por mais de uma década e ganhou três Liga dos Campeões, além de duas Copas Intercontinentais e quatro Campeonatos Espanhóis, e hoje é celebrado como um dos grandes laterais da história do futebol. O que aconteceu com Hodgson? Saiu do clube menos de um ano depois.


Considerado um dos principais zagueiros do futebol atualmente, Leonardo Bonucci ainda não tinha atraído tanta atenção quando foi negociado pela Inter junto ao Genoa em uma complexa transferência que envolveu diversos jogadores, incluindo Thiago Motta e Diego Milito, protagonistas do time que ganhou o triplete em maio de 2010. Foi destaque em uma geração que contou também com Mario Balotelli, Davide Santon e Jonathan Biabiany, teve oportunidades com Roberto Mancini, mas acabou virando moeda de troca.


Depois de grande temporada ao lado de Andrea Ranocchia no Bari, que o contratou em co-propriedade com o Genoa, se transferiu para a Juventus. Uma vez superada a instabilidade do time de Luigi Delneri, se consolidou com Antonio Conte e cresceu ao lado dos veteranos Andrea Barzagli e Giorgio Chiellini, sendo titular por sete temporadas em Turim. Após seis Serie A e três Coppa Italia, voltou para Milão, mas dessa vez no lado rossonero, como o defensor italiano mais caro da história.


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Dez anos depois do primeiro teste na Pinetina, Coutinho é o segundo jogador mais caro do futebol e a Inter não aproveitou nada


O caso mais recente, e que motivou esse texto, é Philippe Coutinho. Uma das joias da maior geração do futebol brasileiro, a turma de 1992, desde os 15 anos era monitorado pela Inter, que o contratou depois de um teste no clube. Seguiu no Vasco da Gama até a maioridade e se juntou ao time campeão italiano e europeu em 2010. Teve oportunidades com Rafa Benítez e deixou boa impressão, mas acabou lesionado em dezembro antes do Mundial de Clubes. Passou a jogar menos com Leonardo no comando, cenário que se repetiu na temporada seguinte com Gian Piero Gasperini e Claudio Ranieri.


Em janeiro de 2012 acabou emprestado ao Espanyol, onde realmente conseguiu brilhar na Europa e virou protagonista no time de Mauricio Pochettino. De volta ao clube, de imediato foi aproveitado por Andrea Stramaccioni em torneio amistoso na Indonésia ainda em maio. Apesar de não ter sido titular, jogando na sombra de Wesley Sneijder e Antonio Cassano, seguiu com espaço na temporada regular e esteve presente em todas as partidas na Liga Europa, mas novamente sofreu com lesões no final do ano.


Quando janeiro chegou, o clube estava pressionado para melhorar sua condição financeira e a proposta do Liverpool foi prontamente aceita, mesmo após o concorrente de Coutinho ter sido vendido dias antes - Sneijder partiu para o Galatasaray. Ninguém foi contratado para substituir a dupla e a equipe despencou na tabela ao acumular diversos problemas físicos no segundo semestre, terminando a temporada com a pior posição e campanha da história do clube no campeonato de 20 clubes. Cinco anos depois, o Liverpool vendeu Coutinho ao Barcelona por dez vezes mais do que pagou para a Inter, que recebeu uma modesta parcela enquanto clube formador.


Outro brasileiro que ainda não está no auge, mas segue o caminho certo e não atingirá o pico do seu potencial na Inter, é Alex Telles. Contratado por empréstimo junto ao Galatasaray a pedido de Roberto Mancini para a temporada 2015/16, o lateral-esquerdo chegou como solução para a posição e cumpriu a função com discrição, mantendo boa regularidade até estranhamente perder a posição no final do campeonato. O clube não o contratou em definitivo e Alex acabou no Porto. Um ano e meio depois, é um dos melhores da posição na Europa e disputado por grandes clubes, enquanto a Inter gastou quatro vezes mais para contratar outro - Dalbert -, que, adivinhem, não está sendo aproveitado.


Quem também saiu muito cedo é Mateo Kovacic. Contratado a peso de ouro na mesma janela em que Sneijder e Coutinho saíram, estes que ironicamente foram vendidos para resolver problemas financeiros do clube, à época era uma promessa de 18 anos do Dinamo Zagreb. O jovem croata imediatamente se destacou no terrível final de 2012/13, terminando o ano como uma das poucas notas positivas, e com a chegada de Walter Mazzarri acabou perdendo espaço no time titular, mas continuou jogando com regularidade e seguiu seu crescimento. Titular na temporada seguinte, novamente foi um dos poucos destaques em outro ano de desilusões.


O suficiente para atrair o Real Madrid, que o contratou aos 21 anos por três vezes mais que a Inter pagou dois anos e meio antes. Foi uma boa venda para os cofres do clube, que voltou a investir mal e enfraqueceu o elenco, sem também solucionar as finanças tendo em ótica o Fair Play Financeiro. Mateo ainda não é titular na Espanha e espera pacientemente seu espaço, apesar de já ter na conta duas Ligas dos Campeões e dois Mundiais de Clubes.


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Quanto talento perdido


Mais do que perder, a Inter também se especializou em estragar talentos. Três grandes produtos de Interello, Obafemi Martins, Mario Balotelli e Davide Santon saíram do clube aos 20 anos, todos muito valorizados nas vendas para o futebol inglês, e não conseguiram cumprir a expectativa. Emre Belözoglu e Pelé foram outras desilusões, que chegaram prometendo muito, e tiveram bom desempenho, mas saíram cedo e também se perderam no instável mundo do futebol.


Contudo, não apenas jovens foram desperdiçado pela Beneamata. Eles chegaram ainda novos na Pinetina, deram sua contribuição - alguns nem tanto -, mas saíram antes de atingirem o auge, consagrando outros clubes. Começamos com Dennis Bergkamp. Grande destaque no Ajax, foi contratado pela Inter com muita expectativa, e apesar do desempenho irregular, acabou protagonista na conquista da Copa Uefa de 1994. Na temporada seguinte, contudo, teve muita resistência com o treinador Ottavio Bianchi e pediu para ser negociado, sendo uma das primeiras de tantas vendas que Moratti se arrepende até hoje - na época tinha 26 anos. No Arsenal, em mais de uma década se consagrou como um dos grandes jogadores da história da Premier League, que ganhou três vezes.


Ah, o verão de 2002… Primeiro Clarence Seedorf, trocado com o Milan aos 26 anos. Depois Ronaldo, ainda com 25, vendido no último dia da janela de transferências para o Real Madrid. Sim, o auge do Fenômeno foi na Inter, eleito o melhor jogador do mundo em 1997, mas sua saída dói até hoje para os interistas. Primeiro porque se mostrou mais do que recuperado durante a Copa do Mundo, voltando a ganhar a Bola de Ouro no final do ano, e segundo que sua venda se deu tão e somente por causa do treinador Héctor Cúper. Ídolo máximo da torcida, o melhor jogador da história do clube saiu pelas portas do fundo e com apenas um título, enquanto Cúper faria outra temporada com final frustrante e acabou demitido um ano depois. Ronaldo ainda teve mais cinco anos na elite, incluindo uma passagem no Milan que até hoje os torcedores não aceitam.


Seedorf foi outro reforço entregue ao Milan duro de engolir. Após três temporadas e meia no Real Madrid, onde ganhou tudo com Fabio Capello, mudou de clube porque perdeu espaço depois da saída do treinador italiano e chegou na Inter em janeiro de 2000. O holandês nunca se consolidou em dois anos e meio pelo clube, especialmente pela rigidez tática dos treinadores Marcello Lippi, Marco Tardelli e Héctor Cúper. Se juntou a Pirlo no lado rossonero de Milão, onde jogou por dez anos e ganhou duas Serie A, duas Liga dos Campeões, uma Coppa Italia e um Mundial de Clubes.


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Falando em dor de cotovelo


Mais um que teve problemas com Cúper, Fabio Cannavaro foi contratado no auge da carreira junto ao Parma, mas nunca cumpriu a expectativa nas duas temporadas que esteve na Pinetina. No primeiro ano foi utilizado como lateral-direito pelo treinador argentino, enquanto no segundo ano tornou a ser utilizado na zaga com Alberto Zaccheroni, porém sofreu com problemas físicos e perdeu espaço no final. Cortejado por Luciano Moggi em 2004, foi trocado com a Juventus quando tinha 30 anos, e acabou 2006 como melhor jogador do mundo, lhe rendendo ainda um contrato com o Real Madrid.


Outros jogadores menos memoráveis completam nossa seleção. Se Sébastien Frey nunca cumpriu a expectativa de virar um grande goleiro, jogando como titular na Inter apenas um ano na transição entre Angelo Peruzzi e Francesco Toldo, ao menos o francês conseguiu seu espaço em clubes menores da Itália, atuando por mais de uma década como titular na Serie A entre Parma, Fiorentina e Genoa. Com 446 partidas, curiosamente é o terceiro estrangeiro com mais presenças no campeonato. Sofreu 568 gols.


Matthias Sammer foi um dos vários flops que a Inter teve nos anos 90, quando o limite de estrangeiros aumentou na Serie A - inclusive, o volante do Stuttgart só não chegou no clube um ano antes justamente por causa desse limite. O alemão ainda tinha a pressão de ser o sucessor do vitorioso trio formado por Lothar Matthäus, Jürgen Klinsmann e Andreas Brehme, campeões da Copa Uefa em 1991, que saíram no verão de 1992. Sua passagem em Milão, porém, durou apenas seis meses, e voltou para a Alemanha ainda no inverno, se consagrando pelo Borussia Dortmund campeão europeu em 1997 sobre a Juventus.


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Bons tempos em que a Inter tinha lateral


Já citamos dois laterais brasileiros, então aí vai mais um: Maxwell. Outro jovem destaque do Ajax, o capixaba foi levado para a Inter com a ajuda de Mino Raiola, que mais tarde também levaria Zlatan Ibrahimovic. Em três temporadas na Pinetina, fez parte dos três títulos da Serie A entre 2007 e 2009, mas jamais se consolidou como titular, sendo que no último ano perdeu espaço para o jovem Santon. Ao lado de Ibra, se mudou para o Barcelona e caiu para o time de José Mourinho na semifinal da Liga dos Campeões, contudo teve duas boas temporadas no clube catalão. Em janeiro de 2012 partiu para o Paris Saint-Germain, curiosamente ao lado de outro ex-interista, Thiago Motta, onde teve mais cinco temporadas como titular, se aposentando no último verão para virar dirigente no clube e como o jogador com mais títulos na história do futebol.


A Inter nos anos 2000 tinha tantos grandes meio-campistas, que se dava o luxo de ter David Pizarro como reserva. Destaque na Udinese, o chileno foi contratado em 2005 para dar mais criatividade ao setor que ainda tinha Luís Figo, Juan Sebastián Verón, Esteban Cambiasso, Dejan Stankovic e Cristiano Zanetti. Teve seu espaço, foi campeão pelo clube, mas não era protagonista, então se mudou na temporada seguinte para a Roma, onde reencontrou Luciano Spalletti. Titular por quatro anos, seguiu como um dos melhores na posição na Itália, o que repetiria mais tarde na Fiorentina em um período que a Beneamata precisava de um regista.


Lá vem mais flop. Herói da Nigéria campeã olímpica em 1996, Nwankwo Kanu foi mais uma promessa do Ajax que se mudou para Milão e não cumpriu a expectativa. Nesse caso, por um motivo muito mais grave. Logo na sua chegada foi detectado um grave problema cardíaco, mas teve seu contrato respeitado pelo clube e a recuperação bancada por Moratti. Kanu levou quase dois anos para voltar aos gramados, porém sem convencer e conquistar espaço diante da concorrência com Ronaldo e Iván Zamorano. Como Bergkamp anos antes, acabou negociado com o Arsenal, onde se tornou ídolo da torcida e participou de dois títulos da Premier League.


Robbie Keane fez o caminho inverso no verão de 2000. À época o jovem mais caro da Premier League, o irlandês foi contratado a peso de ouro pela Inter sob a indicação de Marcello Lippi. O treinador, entretanto, foi demitido em outubro depois da humilhante eliminação para o Helsingborg. O substituto Marco Tardelli, que mais tarde encontraria como assistente de Giovanni Trapattoni na seleção irlandesa, o preteria por Álvaro Recoba, queridinho de Moratti. Keane não concordava em ser apenas reserva e no inverno foi emprestado ao Leeds, que o contratou em definitivo em maio antes de vendê-lo para o Tottenham, onde se consagrou como um dos grandes atacantes do clube.


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Já veterano, enfim Quaresma recuperou respeito na Europa depois do fracasso na Inter


Por fim, Ricardo Quaresma. Contratado por indicação de Mourinho - ou seu agente Jorge Mendes -, o talentoso ponta deveria ser a solução para o 4-3-3 do treinador, uma ideia que durou poucos meses por causa do desempenho ruim do português. O esquema tático foi trocado no final do primeiro turno e Quaresma acabou emprestado ao Chelsea de Felipão. Acontece que em menos de um mês o treinador brasileiro foi demitido, e o ponta não jogou com Guus Hiddink.


De volta para Milão, chegou a fazer parte do elenco que ganhou o triplete, mas novamente sem qualquer destaque. Apesar de nunca ter confirmado a expectativa de quando foi revelado pelo Sporting ou continuado a trajetória de sucesso no Porto, quando chegou a ser considerado para a Bola de Ouro de 2007, Quaresma conseguiu recuperar a forma depois de ser vendido ao Besiktas em 2010. Na segunda passagem pelo clube turco, além de outra experiência no Porto, o ponta voltou a ter destaque pelo futebol europeu, inclusive com a seleção portuguesa, mesmo já aos 34 anos.


Assim, a nossa seleção final fica com o único goleiro disponível, Frey. Na defesa, Cannavaro segue improvisado na lateral direita como com Cúper, abrindo espaço para Sammer, o ofensivo volante que virou líbero no Dortmund, acompanhado por Bonucci e Roberto Carlos, agora sim na sua posição. Na frente, um sexteto de respeito e muita qualidade técnica, com Quaresma na direita e Coutinho na esquerda, enquanto Seedorf e Pirlo fecham o centro do meio-campo. Sem palavras para um ataque com Bergkamp e Ronaldo.


E anote aí, porque eles poderão ser os próximos talentos não aproveitados pela Inter: Jeison Murillo, Cristiano Biraghi, Marco Benassi, Geoffrey Kondogbia, Diego Laxalt e Gianluca Caprari.