Entre incompetência e desigualdade, os dilemas da Inter com o FPF

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A Divisão de Investigação do Comitê de Controle Financeiro dos Clubes concluiu que FC Internazionale Milano cumpriu parcialmente os objetivos estabelecidos para 2017/18. Como consequência, as medidas desportivas previstas, tais como restrições em transferências e limitação de jogadores inscritos na Lista A, continuarão em vigor na temporada 2018/19. O período de liquidação continuará a ser aplicado em 2018/19.


- Comunicado publicado no site da Uefa na última quarta-feira (13)


FC Internazionale Milano analisa o comunicado da Uefa de hoje: o clube atingiu os objetivos para a temporada 2016/17, mas resta em vigor o período de liquidação até junho de 2019 e continuarão as restrições para inscrição nas competições europeias de 22 jogadores, além da necessidade de manter em equilíbrio os valores dos jogadores contratados e vendidos.


- Comunicado publicado no site da Inter na última quarta-feira (13)



Não bastasse o problema de ter que juntar 40 milhões de euros até o final do mês, ontem, os interistas receberam outra notícia ruim da Uefa. Os diretores já estavam cientes, mas os torcedores confiavam que finalmente o clube estaria livre do Fair Play Financeiro na próxima temporada, restando apenas esse ano fiscal para estar de acordo com as regras determinadas pelo órgão. Ledo engano, afinal o FPF seguirá na cola por pelo menos mais um ano com regras muito difíceis de serem seguidas.


Enquanto Piero Ausilio e companhia precisam atingir o ganho de capital para manter o equilíbrio no balanço de 2017/18, o próximo desafio será inscrever os jogadores contratados desde o verão de 2017 na Liga dos Campeões, o que não será uma tarefa fácil por dois motivos em especial. O primeiro, porque segue a limitação de 22 inscritos. O segundo, porque não pode haver diferença nos valores entre jogadores contratados e vendidos desde a última lista de inscrição.


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O que é essa limitação de 22 inscritos? Os clubes estão autorizados a inscrever até 25 jogadores nas competições da Uefa, sendo 17 na Lista A e oito formados localmente. A Lista A é livre, enquanto os oito formados localmente se dividem em duas categorias: todos precisam ter tido contrato profissional por pelo menos três temporadas entre os 15 e 21 anos, sendo quatro jogadores formados em qualquer equipe do país do seu clube atual, além de outros quatro formados no próprio clube.


A Inter está limitada a registrar 16 na Lista A, quatro formados localmente e dois formados no clube. Lembrando que ainda existe a Lista B, ilimitada em número de vagas, que serve para jogadores sub-21 que tenham tido contrato profissional por pelo menos três temporadas entre os 15 e 21 anos na Itália. Tirando o limite, isso não é uma grande questão para Ausilio, já que a regra é aplicada na Serie A há três anos.


O que pega aqui é que o clube não pode simplesmente criar uma lista do zero e precisa seguir a da última temporada. Nesse caso, a da Liga Europa de 2016/17. Nessa época, aliás, pelo mesmo motivo de poder inscrever somente 22 jogadores, João Mário, Kondogbia, Jovetic e Gabriel não participaram da competição. Dos inscritos dois anos atrás, seguiram no clube Handanovic, Berni, Ranocchia, Santon, Miranda, D'Ambrosio, Brozovic, Candreva, Éder, Icardi e Perisic, além dos emprestados Nagatomo e Biabiany.


Desses, Handanovic, Miranda, Brozovic, Éder, Perisic e Nagatomo entram na Lista A, enquanto Berni, Ranocchia, D’Ambrosio, Candreva e Icardi foram formados na Itália e apenas Santon e Biabiany foram formados na Inter. Tecnicamente, restam nove vagas disponíveis, sendo dez para a Lista A, mas claro que esses 13 jogadores podem ser trocados por outros. E é justamente aqui que começa outro problema.


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Entre saídas e entradas, a conta não pode ficar negativa. Ou seja, se você contratar um jogador por € 30 milhões, ele não pode ocupar a vaga de um ou mais jogadores vendidos por € 29 milhões. Em relação à 2016/17, foram negociados Carrizo, Andreolli, Murillo, Ansaldi, Miangue, Yao, Medel, Banega, Felipe Melo e Palacio, e, segundo o Calcio e Finanza, suas saídas liberaram cerca de € 25 milhões. As vendas de Kondogbia e Jovetic não entram nessa conta, nem mesmo eventuais saídas de João Mário e Gabriel.


O que não é o bastante para registrar Skriniar (€ 23 milhões), Dalbert (€ 20 milhões), Gagliardini (€ 22 milhões), Vecino (€ 24 milhões), Valero (€ 5,5 milhões) e Martínez (€ 23 milhões), que totalizam mais de € 100 milhões. Muito menos novos contratados, como seria os casos de Cancelo e Rafinha, cujos direitos de compra não foram exercidos pelo clube, ou dos especulados Nainggolan e Malcom. Padelli, De Vrij e Asamoah, que estavam sem contrato, podem ser inscritos normalmente.


Além de jogadores sem contrato, como Srna, Badelj e potencialmente William Carvalho, Bruno Fernandes, Gelson Martins e entre outros atletas do sucateado Sporting - cujos casos ainda não foram esclarecidos -, outra saída seria contratar jogadores por empréstimo com opção de compra (que seja direito ou obrigação). Provavelmente é o que Ausilio tem buscado nas conversas com Barcelona (Rafinha), Roma (Nainggolan) e Bordeaux (Malcom), mas é algo que poucos clubes se sujeitam.


A saída mais difícil seria a venda dos jogadores inscritos em 2016. Claro, Berni, Ranocchia, Santon, Candreva, Éder, Nagatomo e Biabiany não fariam tanta falta, mas também não atraem muito interesse e muito menos vendas lucrativas. Já as transferências dos titulares Handanovic, Miranda, D’Ambrosio, Brozovic, Icardi e Perisic significariam um passo atrás no projeto e mais jogadores para serem contratados - sem ter espaço para inscrevê-los.


Tendo em vista também os € 40 milhões de ganho de capital que precisam ser levantados até o final do mês, as vendas de Di Gregorio, Radu, Carraro, Bakayoko e Pinamonti ajudariam nesse sentido. Apesar de não liberar mais vagas, porque estavam inscritos na Lista B em 2016, o valor arrecadado das suas saídas entrariam na conta. Enquanto Radu e Pinamonti estão bem avaliados e devem ser negociados em breve, os outros três não têm valor de mercado tão expressivo.


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Entre a incompetência de seguir com uma taxa de erro grande em contratações - sabendo das limitações e regras severas que deve seguir -, a Inter também sofre com a desigualdade do sistema criado pela Uefa. O Fair Play Financeiro parece uma boa ideia à primeira vista por exigir que os clubes mantenham suas contas em equilíbrio, mas abre um precedente muito preocupante ao dar brechas para clubes com grande arrecadação.


Clubes como Real Madrid, Barcelona, Bayern de Munique, Manchester United, Manchester City e Paris Saint-Germain não precisam realmente seguir as regras que clubes em reestruturação financeira como Inter, Roma e Milan estão sujeitos. E mesmo assim também têm grandes débitos ou desequilíbrio entre o que gastam e arrecadam em transferências de jogadores.


É um sistema desonesto que constrange clubes que estão se reorganizando a seguir em uma condição inferior. Em muitos casos, precisam vender seus principais jogadores e não conseguem continuar um projeto, impossibilitando-os de competir regularmente com quem tem uma situação financeira confortável. E assim gira a roda da Uefa e seu conto de fadas, idealizada na tão sonhada Liga dos Campeões.