A birra de Dybala e a fraqueza mental do jogador moderno

Acho que nem mesmo o fã de futebol mais desconectado da realidade se opõe ao fato de que Paulo Dybala é um jogador de qualidade técnica acima do comum. Pode ser um dos atletas com uma das maiores taxas de conversão de faltas na Europa. Pode ser aquele que desequilibra uma partida com um toque por cima da defesa. Só que o que se viu nos últimos jogos foi um argentino beirando a mediocridade e birrento ao ser substituído, mostrando que ele precisa de força mental para ultrapassar as adversidades.



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A lupa que vê: quando a Juventus foi atropelada em Cardiff pelo Real Madrid, elegeram Dybala como um dos protagonistas da história por se omitir de três quartos do jogo depois de levar cartão amarelo. Ele realmente atuou bem aquém das expectativas, mas pouco se falou da ótima marcação fora da bola de Casemiro - elogiado somente pelo gol de fora da área. Pule seis meses.


Getty Images
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Benevento em Turim deu muito trabalho a Dybala


O último jogo da Velha Senhora, contra o Benevento, teve uma outra tônica: em casa, com o bianconero pressionando e o adversário completamente recuado. Os técnicos que passam pelos favoritos da Serie A sempre contam que existe uma dificuldade tremenda em enfrentar equipes que lutam contra o rebaixamento. Caso o rival consiga um gol, então, tema. Com o resultado a favor durante quase uma hora, os feiticeiros se posicionaram em linhas extremamente estreitas na entrada da área. Dybala adora se infiltrar exatamente para a posição onde o Benevento tumultuava. Era uma ação simples para defender: ou alguém municiava Dybala de costas para o gol e ele se via cercado de adversários, ou o camisa 10 tabelava com Gonzalo Higuaín pra perder a posse novamente porque batia num muro amarelo.


Sem lupa, estes desempenhos do argentino não foram acasos. Nota-se uma dificuldade absurda para Dybala se desvencilhar dos percalços. A começar pelos jogos fora de casa, um problema desde que chegou ao Piemonte. Em Turim, geralmente joga o futuro candidato ao Ballon d’Or; longe, quem entra em campo geralmente é um Dinélson que ganha muitos euros.


No início da temporada, a Joya pareceu que tinha deixado outro problema para trás: o de fazer gols. Ele ainda é o goleador da Juve na temporada (13), mas marcou somente um nos últimos nove jogos. Agora, quem tem carregado a responsabilidade é Higuaín - justamente quem começou a época de forma tímida.


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No topo de tudo, ainda existe a pressão sobre os ombros do técnico Massimiliano Allegri. Em 12 rodadas, os 31 pontos conquistados igualam as campanhas de 2012-13, 2013-14 e 2014-15. E o time seria líder com dois pontos de vantagem em relação ao Napoli caso Dybala não tivesse falhado os pênaltis contra Atalanta e Lazio…


Não serei leviano em dizer que essas penalidades tiveram relação direta na queda de desempenho de Dybala, entretanto, é curioso que ele começou a apresentar um futebol mais pobre depois daquelas partidas. O caso de insatisfação, aliás, também aconteceu após os jogos citados: contra o Sporting, em Portugal, ele ficou bravo ao ser substituído.


As críticas na Itália martelam quase sempre os mesmos jogadores: Juan Cuadrado, irregular com brilhos; Alex Sandro, que basicamente teve o talento roubado pelos alienígenas de Space Jam; e Higuaín, que se torna um engodo obeso quando não marca. Tenho um pé atrás com o colombiano, acho Giorgio Chiellini superestimado e me incomodo com o tratamento de rei para Dybala. Uma desculpa qualquer serve para imunizá-lo.



A cobrança por gols em todos os jogos existe porque 1) sabemos que ele é capaz de decidir dessa forma e 2) o intuito do esporte é fazer gols, oras. Mas Dybala precisa compreender - e pôr em prática - a necessidade de ser influente mesmo em dias ruins. Por enquanto, ele é ótimo ou péssimo. Quando as coisas vão do jeito dele, bom (as assistências em uma partida sem gols da Joya contra a Udinese); quando complica, ferrou (Olympiakos em Turim?). O equilíbrio, ele está em falta.


Os casos de grandes jogadores que sucubem ao psicológico são inúmeros. Sozinha, qualidade não significa muito para um atleta de alto desempenho - e o aspecto mental precisa ser tratado diariamente. Para o público, Allegri tem dado força ao rapaz que completa 24 anos nas próximas semanas. Apesar das performances instáveis, o argentino segue intocável.