Juventus não pode se espelhar no 'futebol bonito' do Napoli

Creio que um dos maiores problemas do futebol seja acreditar cegamente que existam algumas táticas milagrosas, vencedoras absolutas. Geralmente Pep Guardiola está envolvido nisso, pois as equipes dele tendem a ter um futebol vistoso e que empilha títulos – ainda mais se pegarmos a virada da década, na qual se via um Barcelona com pontas e um falso 9 como solução pétrea ou Santo Graal. Para a Juventus, por exemplo, se espelhar no Napoli que parece encantar nortistas e sulistas é um erro.



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Usamos números para falar sobre tática, mas eles são reducionistas. Dizer  que a equipe jogou no 4-4-2 não mostra todas as propostas e singularidades daquele posicionamento. O 4-4-2 do West Bromwich numa manhã de novembro pode ser diferente do mesmo esquema do Flamengo numa tarde ensolarada de fevereiro. Falamos em números porque é mais simples e conveniente para apresentar uma ideia básica.


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Estilos frente a frente


Há não muito tempo, o famoso 4-2-3-1 varreu o Brasil depois que Tite fez o Corinthians jogar bola desta forma. Na Itália, equipes começaram a copiar a formação com três zagueiros que Antonio Conte reprogramou para atuar naquela Juventus – aliás, a temporada inglesa foi iniciada com mais da metade da liga com variações deste esquema depois que o Chelsea sagrou-se campeão.


Seja o que esquema que for, táticas são temporais e específicas. É um conjunto de jogadores durante um período que, naquela circunstância, evolui e busca o ápice. Em nível nacional, foi o que aconteceu com o bianconero em 2015-16, talvez a melhor temporada de Massimiliano Allegri na Juve. O Napoli tem crescido numa proposta pensada para aquele universo: os atletas são certos para como Maurizio Sarri enxerga o futebol e, mais precisamente, como ele tem de ser jogado naquele ambiente.


Prefiro não me ater aos adjetivos bonito e feio. “Futebol pobre” também é simplório demais – pois geralmente ele é usado de forma pejorativa para times que atuam defensivamente. “Efetivo” é até melhor, mas ele tem relação com resultado. O futebol é cínico e, por isso, há espaço para o romance e as tensões, vulgo técnica x físico e resultado x estética, parafraseando Jonathan Wilson.


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Juventus marcou três vezes no último jogo da Serie A


Daniel Alves falou algumas vezes porque deixou a Juventus, mesmo que sempre pareça que há algo novo. A última, à emissora Sky Italia, declarou que o futebol italiano precisa resgatar o passado, em referência ao protagonismo do campeonato na Europa, que o futebol na Bota tem de ser reinventado. Para ele, todos precisam tomar o Napoli como exemplo.


Atualmente, a Juventus tem o terceiro melhor ataque do continente (40 gols, atrás de Paris Saint-Germain e Manchester City). São cinco a mais que o líder do campeonato, apesar de chutar menos e, por consequência, criar menos chances por partida. A Velha Senhora, portanto, consegue jogar de forma ainda mais ofensiva? Com os jogadores que tem, sim. Ela pode ser ofensiva como os partenopei? Com os jogadores que tem, não.


A tática do Napoli é boa para o Napoli; a ideia do Napoli pode ser boa para o resto, contudo, está bem longe de ser uma certeza – independente do resultado entre os rivais nesta sexta-feira (1º). Permita-se desfrutar que o jogo tem vários certos, em vez de somente um.