Juve: vender Marchisio seria cuspir no romantismo que falta ao futebol

Quando Francesco Totti se aposentou, as lágrimas, a tristeza e a euforia foram sucedidas pela romântica frase: “que falta faz esse tipo de jogador no futebol”. Aconteceu o mesmo com Javier Zanetti, Pavel Nedved e Paolo Maldini. Uma possível venda de Claudio Marchisio é exatamente aquilo que tentam querer que o esporte seja, mas que rejeitam quando a oportunidade bate à porta.



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A concorrência no meio de campo da Juventus é alta. Está cada vez mais difícil de Marchisio retomar uma vaga no time titular porque, ao que tudo indica, uma ou duas vagas estão abertas – independente do formato da equipe, Miralem Pjanic joga. O futebol do italiano não está em alta até porque o corpo não tem permitido qualquer sequência. Não é de hoje que as lesões obrigam Marchisio a interromper qualquer desempenho. Aconteceu em 2008, 2009, 2010, 2012, 2013, 2015, 2016....


Getty Images
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Marchisio é, mais uma vez, envolvido em especulações sobre a saída dele de Turim


O italiano é, de certa forma, um Sergio Busquets, só que cavalheiro. É, geralmente, aquele que não aparece nas estatísticas com números de saltar os olhos, entretanto, a presença dele na equipe fortalece todo o conjunto. A diferença – lógico, sem contar a fragilidade física – é o estilo de jogo com uma quantidade menor de abusos (provocações, flops e revidações grosseiras).


Mas como mensurar a importância de uma figura que personifica a Juventus? A vida profissional de Marchisio está inteiramente ligada ao clube desde 1993, quando, aos sete anos, integrou a base. De tantos outros que tentaram, ele é o exemplo do torcedor que cumpriu o sonho de atuar pelo time de coração. Ele é o rapaz que conseguiu sair das arquibancadas para vestir a camisa que idolatrava. Domenico Criscito e Sebastian Giovinco, da mesma classe, também alcançaram; somente Marchisio ficou.


O apelido Principino diz muito sobre o ser juventino. No primeiro ano com o time principal, o meio-campista chegava aos treinamentos com um blazer elegante e sapatos mocassim. A alcunha nasceu assim, e ele gosta dela. Mesmo que nunca tenha falado sobre isso, era a forma que o ídolo, artilheiro e antigo presidente Giampiero Boniperti queria que o seu time se mostrasse: elegância e serenidade dentro e fora de campo. O stilo Juve, assim, está em Marchisio.


Vender um ídolo, como Leonardo Bonucci, ou um grande jogador, em Paul Pogba ou Paulo Dybala (futuramente?), não tem o mesmo impacto que perder uma bandeira. Negociá-lo não significa necessariamente em perda desportiva, mas de identidade – e identidade não se compra.


E bandeiras não são um peso. Ainda mais para uma equipe que não têm tantas turbulências em comparação aos outros grandes clubes da península. Raúl, Iker Casillas, Frank Lampard e o próprio Del Piero foram negociados nos anos finais das carreiras, mas é certo só por que o vizinho fez?


Del Piero, aliás, é um caso à parte. Incluo aqui, também, os de Totti e Paolo Cannavaro. As diretorias que estão comandando Juventus, Roma e Napoli não souberam respeitar estes caras: Agnelli despachou Ale como se ele fosse mais um, os americanos escantearam o ídolo romano e os partenopei largaram o zagueiro.


Acredito que não sou um romântico do futebol, mas entendo que os bandeiras, escassos há quase 40 anos, são aquela pequena parcela de romanticismo que falta ao esporte. Reclamam que o dinheiro move montanhas no desporto, porém, quando se vê de cara com o “futebol raiz”, preferem negá-lo.