Como a Juventus pode mudar uma cultura italiana de não acreditar nos jovens?

A derrota para o Real Madrid ressoou em Turim e outros centros com concentrações de torcedores da Juventus. O primeiro a rodar seria, obviamente, Massimiliano Allegri. O técnico, “incompetente e fraco”, estaria com os dias contados. Depois seriam os jogadores que fazem hora extra no elenco, de Stephan Lichtsteiner a Gonzalo Higuaín. No último fim de semana, o anúncio: o treinador fica.



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A bicicleta de Cristiano Ronaldo espalhou cacos no Piemonte – as ações da Juve despencaram ao pior nível em oito meses, por exemplo. Na manhã seguinte ao confronto da Liga dos Campeões, os noticiários diziam que Allegri já tinha avisado aos jogadores que esta seria a última temporada com eles. Algo difícil de engolir em razão das disputas da Serie A e Coppa Italia, caso seja levado em consideração que a competição continental virou sonho em 2018.


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Dybala e Bentancur podem ser os jovens que liderarão a Juventus num futuro próximo


O panorama de novidades foi modificado no sábado (7), com novas informações: Allegri teria discutido com alguns jogadores, sim – algo natural para um técnico que geralmente esquenta a cabeça no banco de reservas –, mas não se reuniu com a diretoria para assinar a demissão e tampouco falou sobre esta questão com os atletas. Antes de enfrentar o Benevento, o diretor Giuseppe Marotta deu certeza que o treinador permanecerá na Juve, em entrevista à RAI.


Algo que chamou a atenção em meio às notícias desmentidas pelo cartola foi uma suposta pedida de Allegri: ele ficaria no cargo somente se o clube permitisse reformulação e rejuvenescimento do plantel.


Meninos, não


A Itália tenta passar por mudanças. Perder a vaga na Copa do Mundo foi apenas um de tantos problemas que a FIGC procura solucionar – ou criar medidas paliativas. Se existe uma discussão sobre jovens jogadores nos clubes do Belpaese, isto é transposto, em parcela significativa, para a seleção. Em um mercado mais restrito que os companheiros de continente (muito por conta da retomada econômica de uma liga que sofreu duros golpes na última década), os clubes têm de contribuir com força de trabalho.


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Um dos passeios preferidos de Allegri quando está em férias é treinar a molecada. Nas coletivas, não precisa procurar tanto para achar algum discurso no qual ele comenta sobre “empoderar os jovens”. Na última rodada do Italiano, o último substituto escolhido para entrar no jogo foi Sami Khedira. Rodrigo Bentancur, titular ante o Real, permaneceu no banco durante os 90 minutos. Esse é apenas um exemplo entre teoria x prática do treinador: ele só escala algum jovem quando realmente não existe outra opção.


Em maior ou menor escala, essa não é uma singularidade de Allegri. Essa é a cultura italiana. As categorias de base de Atalanta, Inter, Genoa e Roma são frutíferas; a própria Dea, Sassuolo e Cagliari costumam dar muitos minutos para atletas jovens. Mas são minoria.


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Del Favero, goleiro da base, ainda não estreou como profissional. Ele segue atrás de Buffon, Szczesny e Pinsoglio na hierarquia do time


Fiz um estudo rápido sobre jogadores sub-23 na atual temporada. A Serie A deu 17,8% dos minutos disponíveis a estes atletas. O valor é menor em relação a Bundesliga (25,3%) e Ligue 1 (22,1%), porém, superior a La Liga (15,2%) e Premier League (11,3%). Algo que salta aos olhos é como as ligas têm os introduzido em campo: a concentração de jogadores com 23 anos é a maior do grupo. A A curva da Itália é ascendente: quanto mais velho, mais chances – confirmando, pelo menos para 2017-18, uma premissa da Bota. Na Alemanha, a faixa entre 18-20 é mais populosa, enquanto a França lidera entre 21 e 22 anos.


Os dados corroboram e explicam análises do Observatório do Futebol. Na primeira, entre 2009 e 2015, o índice de jogadores que eram formados e permaneciam nos times no Sul da Europa (correspondendo a Itália, Espanha e Portugal) caiu de 16,7% para 14%. Nenhuma equipe italiana estava entre as 20 que somava a maior quantidade de minutos para jogadores sub-22 – contando somente as cinco grandes ligas, só Inter (14º) e Atalanta (18º) estavam na lista. No segundo, dentro do mesmo período, constatou-se que, apesar da variação da média de minutos dos sub-22, a quantidade de tempo em campo de jovens estrangeiros aumentou de 19% para quase 26% em seis anos.


Udineses, Lazios e Juventus


Sergej Milinkovic-Savic é uma das grandes histórias do campeonato e tem tudo para ser uma das principais movimentações do mercado pós-Mundial. A Lazio achou ele e Jordan Lukaku vieram em temporadas consecutivas do futebol belga. O zagueiro Wallace e o meia Bruno Jordão são ex-Braga.


A Udinese tem uma rede de olheiros invejável. Nos últimos 10 anos, pegou Alexis Sánchez no Cobreloa; lucrou com o ex-Estrela Vermelha Dusan Basta; fechou com Juan Cuadrado e Mehdi Benatia depois do fim do contratos com o Independiente de Medellín e Clermont, respectivamente; buscou Luis Muriel no Deportivo Cali; e comprou o desconhecido Piotr Zielinski do Zaglebie Lubin e Allan para vendê-los ao Napoli. Para o futuro próximo, ainda pode capitalizar em cima das promessas Jakub Jankto, Andrija Balic, Antonín Barák, Ali Adnan e Silvan Widmer. Com exceção do primeiro, com um ano de passagem no vivaio friulano, todos eles são gringos.


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Historicamente, as épocas gloriosas da Juventus que perduraram por mais de uma década foram empurradas por jovens. Sob comando de Giovanni Trapattoni, no fim dos anos 70, Antonio Cabrini, Gaetano Scirea, Sergio Brio e Roberto Bettega tinham 20 anos quando estrearam pela Senhora, firmando uma equipe de pouca idade que levantaria o troféu europeu em 1985. Com Marcello Lippi, a partir de 1994, os times pertenciam aos jovens.


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E pensar que a dupla Del Piero-Inzaghi foi desfeita, sobretudo, pelo atrito dentro de campo...


Tudo bem que os experientes Gianluca Vialli, Jurgen Köhler, Didier Deschamps, Ciro Ferrara, Pietro Wierchowod e Massimo Carrera estavam nos grupos, mas a maioria dos atletas tinha menos de 25 anos: Angelo Peruzzi, Igor Tudor, Mark Iuliano, Moreno Torricelli, Alessio Tacchinardi, Zinedine Zidane, Edgar Davids, David Trézéguet… Eles já jogavam mais de 30 partidas cada por temporada. Vale lembrar que Lippi também foi o responsável por criar uma base para Alessandro Del Piero, com 19 anos, liderar o time – permitindo a dispensa de Roberto Baggio e vendendo Filippo Inzaghi. Com Allegri, os sub-23 são fáceis de contar porque foram poucos.


A Juventus, especificamente, está num hiato de gerações. Os senadores mantém as posições, enquanto os novos contratados ou já tem idade de pico de carreira, ou são jovens que se digladiam com os mais velhos por uma vaga. Mudar a cultura italiana passa diretamente pelas pretensões bianconeras, que, historicamente, alinham tendências no país – nos últimos seis anos, identifica-se dentro de campo táticas com três zagueiros (referente a como Antonio Conte costumava pensar o jogo) e, fora, a construção do estádio (arenas próprias de Roma, Cagliari e Empoli começam a ser construídas esse ano, e Fiorentina também almeja uma nova casa).