Dybala, Salah e os ensinamentos que a Juve prefere não aprender

Os jogos do Liverpool são muito divertidos. A empolgação do “futebol heavy metal” é deliciosa. Talvez não seja em todos os momentos – vide a temporada passada dos Reds e dos domínios adversários em momentos decisivos do Borussia Dortmund com o mesmo Jurgen Klopp. A pancada que eles deram na Roma, na última terça-feira (24), foi impressionante e a dúvida que surgiu em mim foi: existe uma diferença tão absurda entre Liverpool e Juventus?



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Creio que a resposta para essa pergunta tenha pílulas de Isco, Cristiano Ronaldo, Real Madrid e, obviamente, como os treinadores pensam o jogo. Não podemos dissociar os técnicos com os atletas que eles têm em mãos. Contudo, particularmente, o maior volume do problema (ou da solução) consiste em amplificar as qualidades do que e de quem possui.


Para começar, repito o que escrevi em outras oportunidades: não existe um “jeito certo” de jogar e futebol exala momento. Mohamed Salah, por exemplo, é um jogador que sempre aumentou a quantidade de gols por temporada. Nesta, a evolução é assustadora porque foge à normalidade – ele mostrava um campo de melhora enquanto jogador da Roma, mas não a ponto de justificar o dobro de comemorações.


Getty Images
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Cada vez mais longe da área, cada vez mais sem confiança...


O tipo de jogo que Klopp pensa ser o correto para o Liverpool justifica e compreende Salah como um ponta que invade a área para balançar a rede mais de 40 vezes no ano. O jogador tem driblado mais, desarmado mais e corrido da forma certa. Para não chamar de ideal, é a forma encontrada pelo treinador que tem dado resultados e divertido o público que torce ou não para o clube inglês.


O Real Madrid já não é tão assim. Eu – deixando claro como ponto de vista – não me empolgo com os espanhois. De qualquer forma, dois jogadores chamam a atenção. O primeiro é Cristiano Ronaldo. O El Confidencial fez recentemente uma reportagem com alguns pedidos de Zinédine Zidane ao português. Resumo: o técnico deseja que o atacante dose os esforços para que esteja descansado para melhor aproveitar os momentos oportunos. Ao invés de dar um pique de 40 metros para recuperar uma bola, ele precisa guardar fôlego para um tiro necessário da ponta para a área e finalizar a jogada. O outro é Isco, capaz de mudar ao atuar na melhor posição para isso – como um criador de jogadas.


Dybala é muito mais um Cristiano ou Salah que um Isco. O argentino tem potencial para ser um goleador ao invés de um construtor para Gonzalo Higuaín ou qualquer outro atacante. Teoricamente, a ideia de Massimiliano Allegri em aproveitar a visão da Joya é boa: partindo de trás, correndo em direção ao gol e usando os companheiros para abrir espaços. Como Messi. Aí reside uma diferença brutal: Lionel. Porque ambos tentam influenciar uma mesma região do campo, mas Dybala não consegue abrir buracos como Messi.


Contra o Napoli, na última rodada da Serie A, Dybala atuou somente 45 minutos. Ele saiu de campo com 16 toques na bola; nenhum na área. Na média, o argentino tem cada vez coberto uma área maior do gramado: em 2015-16, ele permanecia geralmente no terço final; em 2016-17, buscar a bola se tornou comum; atualmente, a Joya precisa atuar da zona de Miralem Pjanic até a marca do pênalti. Depender do camisa 10 para chutar de fora da área ou utilizá-lo como um box-to-box é delegar ao melhor finalizador da equipe uma função inacreditável. É ter o bom e preferir o regular.


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...Bem diferente destes dois


Existem falhas. O Real havia mostrado certos caminhos em Turim e admitiu as fraquezas na segunda perna, no Santiago Bernabéu. Quando Klopp tirou Salah e a Roma substituiu Juan Jesus, o Liverpool tomou dois gols na sequência. Manchester City, West Bromwich… Os Reds teve falhas expostas ao longo da temporada, mas continua correndo de cabeça erguida - geralmente numa velocidade absurda. Mas as duas equipes são formadas para que as qualidades sejam sobrepostas às fraquezas.


Se havia a brincadeira de que o Liverpool precisava marcar quatro gols por jogo porque sofria três, eles marcam os quatro e ganhavam. Sim, isso também pode ser um problema, mas a ideia é buscar encobrir os atos falhos com o que você tem de melhor. A Juventus até fez isso em 2015. Ter o trio de zaga no ápice com Gianluigi Buffon pegando tudo permitia que o ataque fosse levado por Carlos Tévez e um dos meias. No mata-mata, então, perfeito: se o empate avançasse, o rival podia atacar até o dia seguinte. Até dar ruim na final contra o Barcelona…


Salah tem sido cada vez mais colocado para expandir sua influência nas proximidades da área adversária. Ronaldo e Ciro Immobile, artilheiro da Serie A, também – mesmo que do lado oposto ao egípcio, correndo para o centro a partir do corredor esquerdo. Quando um atacante marca, a confiança sobe. Quando faz muitos gols, ele se aproxima do inabalável. Na cara do goleiro, o jogador do Liverpool tem sido um Romário de 1993, um Ronaldo de 1997 ou o próprio Messi de 2015: é um toque por cima e acabou. Delírio.


Não significa que a Juventus precisa necessariamente de um Salah, Isco, Ronaldo ou Messi (caso aconteça, porém, não reclamo). O coletivo é tão importante quanto o individual. A simbiose é permanente. Mas é extremamente complicado atingir o potencial máximo de um time se o goleador precisa fazer de tudo menos gols.