Juventus, a heptacampeã consecutiva e imperfeita

Por um momento achei que não daria – e quase não deu mesmo. O gol de Kalidou Koulibaly, em Turim, era para ter sido o prenúncio do fim da dinastia. Não foi. Ótimo para a Juventus, que mais uma vez entregou e se mostrou forte demais para uma competição longa. Mesmo que, para o campeonato, a ideia seja que o sucesso dominante enfraqueça a Serie A.



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Juventus


As imagens dos últimos dias foram belíssimas. Têm as fotos dos cinco atletas que participaram das campanhas do hepta (Gianluigi Buffon, Andrea Barzagli, Giorgio Chiellini, Stephan Lichtsteiner e Claudio Marchisio); as comemorações daqueles que nunca haviam vencido um campeonato nacional (Wojciech Szczesny, Benedikt Höwedes e – talvez o mais feliz de todos – Federico Bernardeschi); Paulo Dybala e Juan Cuadrado caçoando Massimiliano Allegri…


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Torcida foi à Piazza San Carlo para comemorar mais um título


Mas acho que o retrato que chamou minha atenção é o que mostra uma impressão colada no quadro branco dentro do vestiário. No papel, a frase: “o trabalho duro vence o talento quando o talento não trabalha duro”. Parece até brincadeira, uma vez que a Juventus é o clube com a maior quantidade de recursos para comprar talento no Belpaese.


O discurso é, também, clichê, mas e daí? Por mais difícil que o campeonato tenha sido, o trabalho duro foi recompensado. No momento de decisão, a derrota para o Napoli importou muito: era preciso mais trabalho. A virada épica bianconera contra a Inter e vitória florentina ante o Napoli praticamente selou a competição mais acirrada desta hegemonia. Já tinha acontecido em março, quando a liderança tomou outro caminho: a Juve conseguiu uma vitória contra a Lazio com um gol chorado de Paulo Dybala enquanto o rival tropeçou em casa para a Roma.


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Você consegue dizer qual foi o time titular da Juventus na temporada? Pense um pouco.


Por mais que Massimiliano Allegri seja cobrado pelo “futebol feio”, o treinador entregou quase tudo o que pode. A saúde financeira do clube auxilia, sim, mas ninguém se mantém tanto tempo no topo – e durante os últimos anos vimos Leicester, Borussia Dortmund, Atlético de Madrid, Lille, Marseille e Monaco batendo orçamentos maiores – e com reformulações constantes.


A Senhora, se não muda muito, tem a troca de jogadores importantes. Para essa temporada, aliás, as várias lesões acarretou na resposta da pergunta acima: é difícil escalar esse time. Contra a Roma, foi a 36ª equipe diferente que Allegri escalou em 37 rodadas. No total, 24 atletas foram utilizados em todas as competições, sendo seis com mais de 40 partidas. Essa é até uma das explicações para possíveis ausências de bianconeros em seleções do campeonato – vale prezar pelo detentor do título ou por quem atuou com mais consistência?



Ainda assim, o time perseverou. Sem pressa e com objetividade. Douglas Costa, por exemplo, demorou para entrar na equipe, mas foi um dos principais jogadores da Serie A – apesar de atuar em alta somente na segunda metade do ano, com atuações decisivas contra Bologna, Benevento e Sampdoria. Mattia de Sciglio voltou a brigar com as lesões, mas o revezamento com Lichtsteiner, Cuadrado, Barzagli e até Höwedes ajudou o italiano, mostrando que, se saudável, tem motivo para ser titular. O mesmo serve para Bernardeschi e Mehdi Benatia.


As intensas mudanças, seja de formato tático ou de jogador, porém, afetaram o conjunto de forma objetiva. A Juventus vai entrar para jogar contra o Verona com uma defesa vazada 23 vezes. O primeiro título da hegemonia piemontesa foi conquistado após uma temporada nacional com 20 tentos sofridos, contudo, o time atual tem a possibilidade de bater o recorde de clean sheets. Depende dos próximos 90 minutos em Turim.


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O Napoli já garantiu a melhor campanha da história do clube ao atingir 88 pontos. Uma vitória no San Paolo contra o Crotone fará do partenopei o primeiro time vice-campeão com mais de 90. Talvez se o presidente Aurelio de Laurentiis tivesse desembolsado algumas verdinhas no mercado de inverno o clube dele teria fôlego para destronar a Senhora. Talvez.


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Aos 30 anos, Höwedes comemora o primeiro título de campeonato nacional da carreira


Só que essa corrida napolitana – bem como os vices da Roma em 2014 e temporada passada – mostraram que a evolução continua. Outrossim, de forma continental existe chance de melhora: as eliminações italianas das Ligas dos Campeões e Europa ou decisão no último lance, no Santiago Bernabéu, ou arbitragens desastrosas, nas partidas de Roma e Milan.


“Se eles não me mandarem embora, voltarei para o próximo ano”, declarou Allegri, que segue especulado ora no Arsenal, ora no Chelsea. Em caso da permanência, o caminho continua sendo o mesmo: o das vitórias. De uma equipe sem milagres, mas com muitas imperfeições.