Cristiano Ronaldo: o grande golpe da Juventus?

Fim de jogo. O Real Madrid vence a terceira Liga dos Campeões seguida e o torcedor merengue descobre que Cristiano Ronaldo, aos 33 anos, não deseja permanecer. “Não é bem assim”. Os lados tentam empurrar a sujeira para debaixo do tapete, e a Copa começa. Para Portugal, o Mundial termina antes.



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O interesse da Juventus no craque luso é antigo. Os italianos quase o contrataram antes de assinar com o Manchester United – Marcelo Salas não ficou contente com o acordo oferecido pelo Sporting. As manchetes dos jornais espanhois, portugueses e italianos desta semana, contudo, soam como brincadeira até que o diretor do Marca, Juan Ignacio Gallardo (que também é próximo a Florentino Pérez, presidente do Real), diz que o bianconero oferece um salário maior ao atacante e que os clubes têm um acerto.


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GOAT?


A relação entre pós-temporada e Copa do Mundo é importante para entender o contexto. O noticiário informa que o vice-presidente juventino, Giuseppe Marotta, trabalha incessantemente para buscar transações durante a competição. Foi assim com o lateral João Cancelo, recém-contratado, e o goleiro Mattia Perin. Os desempenhos no torneio, aliás, também são importantes – mas entro nesse aspecto mais abaixo.


As informações dão conta que a compra seria realizada por 100 milhões de euros e que Ronaldo teria um salário líquido de € 30 milhões por ano, cinco a mais que o honorário atual. O português tem uma cláusula de rescisão firmada em € 1 bilhão, mas que não seria acionada devido à vontade do atleta em deixar Madri. Ainda que seja apenas 10% do valor máximo, esta venda é gigantesca em qualquer termo: nenhum outro jogador com mais de 30 anos foi negociado por mais de € 40 milhões.


De fato, o valor da transferência é o de menor preocupação para este investimento. Há dois anos, a Juventus gastou praticamente o mesmo para tirar Gonzalo Higuaín do Napoli. O salário até 2022, vencimento do possível vínculo, é o que mais pega. Quem mais recebe em Turim são o camisa 9 e Paulo Dybala (€ 7,5 mi). O teto é baixo.


O não-muito-confiável Tuttosport escreveu que somente três clubes podem bancar uma contratação desse tamanho: Manchester United, Paris Saint-Germain e Juventus. O primeiro é o time mais rico do mundo de acordo com o levantamento mais recente da Forbes, o PSG tem todo aquele aporte externo e a Juve…


Contam que a ideia da diretoria é receber um investimento externo para auxiliar nas contribuições ao jogador. A captação do dinheiro poderia ser via Chrysler, uma das empresas que está sob o guarda-chuva da Exor. O detalhe é que isso não é muito simples. O presidente da Juventus, Andrea Agnelli, teria de convencer o restante da empresa da qual faz parte que a operação é vantajosa. Além disso, o fair play financeiro limita a quantidade de dinheiro que o dono pode injetar no orçamento – não por menos o Milan está em problemas depois de brincar de Football Manager editado na última temporada.


Em janeiro último, Marotta falou à Gazzetta dello Sport que a ideia de ter Ronaldo seduzia demais a Juve, porém, que era um sonho e que “na realidade, era impossível para nós ou qualquer outro time italiano, pois os custos estariam fora dos parâmetros e representa um risco comercial muito alto”. Sem apoio da própria Exor, o sonho continuaria? É possível.


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Jornais chegaram a dizer que a ovação dos torcedores bianconeros depois da bicicleta foi primordial para a decisão de Ronaldo


Os € 30 mi de honorários estão dentro do orçamento bianconero de € 68,4 mi por ano. Com o vencimento do contrato em quatro anos, a operação Cristiano Ronaldo custaria por volta de € 95 mi por temporada. Além de Perin e Cancelo, a Juventus trouxe Emre Can e Andrea Favilli, retornou com Leonardo Spinazzola e Mattia Caldara, e definiu a compra de Douglas Costa. Juntando Ronaldo à turma, o balanço negativo no orçamento de transferências sobe de € 32 mi para € 126 mi. Isso significa que a venda de um dos principais jogadores para equilibrar as finanças pode ser feita – Dybala é tratado como inegociável e teve uma proposta do Atlético de Madrid rejeitada, mas seria o principal candidato a fazer as malas se Ronaldo sinalizar OK.


Como estamos no campo da suposição, vamos além: precisa realmente fazer caixa com vendas? O Calcio e Finanza se baseia nas declarações de Nasser Al-Khelaïfi, dono do PSG: o retorno comercial do clube aumentou entre 20 a 40% depois das chegadas de Neymar e Kylian Mbappé, no último ano. Tratando a metade como média, a Juve precisaria aumentar a receita comercial em € 6 mi. O contrato com a fornecedora Adidas é de longa duração e foi fechado há pouco; como Ronaldo é Nike, não faz tanto sentido a rival aumentar a verba.


Ainda há o dinheiro da Liga dos Campeões – projetam quase € 75 mi em caso de vitória da Juventus em 2018-19, por exemplo – e a venda de ingressos. Os tíquetes são parte importante da equação. O clube é criticado pelo valor do carnê anual, que subiu 30% (média) em relação ao ano passado. Desde 2012, ficou 88% mais caro – e o estádio continua lotando…


Para Marotta, valeria muito mais a pena custear os milhares de euros em Ronaldo que em Sergej Milinkovic-Savic, de Copa debilitada e que a Lazio faz questão de lucrar (muito). Para a Juventus, a operação é algo de outro mundo: um golpe caríssimo, arriscado e que lhe dá ainda mais oportunidades de trazer retorno dentro e fora de campo.


Isso, claro, se for verdade. Parece improvável e soa improvável. Ainda mais se lembrarmos que o atacante abriu contato com interessados no último biênio para cavar uma renovação com os merengues.