Cristiano Ronaldo, o velho, é tudo o que a Juve sempre sonhou

Os acontecimentos reverberam de uma forma incontrolável. Aquela bicicleta que destruiu parte do Allianz Stadium, nas quartas de final da última Liga dos Campeões, aterrorizou o elenco da Juventus e colocou a incredulidade nos semblantes dos torcedores. A ovação de um adversário que acabou com o seu time é a demonstração máxima de grandeza deste; um ode a uma impotência devastadora e bela. A resposta quem deu foi Cristiano Ronaldo: no dia, batidas no peito como forma de agradecimento; nesta terça-feira (10), a assinatura de um contrato que o leva diretamente da Grécia, onde passa férias, ao Piemonte sem escalas em Madri.



Curta o Gazzebra no Facebook. Siga Murillo Moret no Twitter.



Pois uma das razões ventiladas para o acordo sair do campo teórico foi o respeito demonstrado pelos bianconeros naquela situação do jogo de ida. Aos madrilenhos, o gesto foi algo que eles mesmos perpetuaram na década passada, com os aplausos enaltecendo Ronaldinho e Alessandro Del Piero, no Santiago Bernabéu. O caminhão de dinheiro – o valor anual do investimento é estimado em 96 milhões de euros – ajudou? Certamente. Mas aquece o coração imaginar que os aplausos tenham mexido com o atacante em um momento que o Real Madrid segue um caminho de renovação.


Getty Images
Getty Images

A procura por camisas foi tanta que a loja online só voltou a funcionar na tarde desta quarta-feira


Encerrar o ciclo na Espanha foi uma opção dele. Recusar a China foi uma opção dele. Aceitar a Juventus, aos 33 anos, é o presente e futuro dele.


O ex-atacante da Juve, Paolo Rossi, declarou que o português só tem a idade avançada, uma vez que o corpo é de um atleta de 27 anos. Certezas desde 2007 são que ele cuida do corpo e que entrega o que promete, reinventando sua forma de jogar. A novidade é a fuga à normalidade que essa transação traz ao mundo da bola.


ESPN FC | Cristiano Ronaldo é o grande golpe da Juventus?


Vamos pegar o universo pós-2010. Os clubes ricos ficam cada vez mais ricos. Entrar em disputas equivalentes ao grupinho seleto dos abonados da Uefa é difícil. A polarização de interesses se concentra nos milionários e nos que têm jogadores extra-classe (no mesmo período, Real e Barcelona se encaixam em ambos). Equipes endinheirados-mas-nem-tanto, como a própria Juventus, às vezes se contentam em ser trampolins. Assim, a contratação de um superastro em alta, fazendo o caminho inverso, é colossal. Algo que não acontecia na Itália desde 1997, quando a Inter levou Ronaldo para Milão.


O campeonato e o dominó


Espera-se que o acordo pelo novo atacante produza um efeito dominó endêmico. É uma projeção otimista: a Serie A aproveita e surfa ao lado do reforço juventino, com novos acordos comerciais, oportunidades de marketing, aumento do público pagante e visibilidade para uma competição que continua crescendo muito por conta da Juve. O presidente da Apex Marketing Group afirmou à Bloomberg que o valor de exposição da Jeep na mídia pode triplicar em caso de final europeia logo no primeiro ano de Ronaldo.



O potencial de Ronaldo é algo que já agradou a prefeita de Turim, Chiara Appendino, uma das pessoas públicas que congratulou o luso pela escolha de carreira, mas o montante da transferência fez com que o sindicato da Fiat da sede em Melfi agendasse uma greve. A união desaprova que os trabalhadores façam “sacrifícios econômicos enormes enquanto a companhia gasta milhões de euros em um jogador” e mais: “eles [a Fiat] dizem às famílias para apertarem cada vez mais o cinto e eles decidem investir tanto dinheiro num jogador. Acham isso justo? É normal uma pessoa ganhar milhões, enquanto milhares de famílias a meio do mês já não têm quase dinheiro?”. A notificação está no site da Unione Sindacale di Base


Então a Velha Senhora vai nadar de braçada para o octa consecutivo? É provável - como já era sem o português. Só que isso não é um ponto negativo para as próximas quatro edições do Italiano. Lembremos que o Napoli fez a Juventus suar até as rodadas finais, conquistando um novo recorde de pontos do clube, para conquistar o título e, há pouco, a Roma foi vice também com a maior pontuação da história giallorossa. Dito isso, o bianconero não tem a obrigação de nivelar o campeonato: a regra é continuar crescendo e os outros que a sigam. Há seis anos, o clube passou de um campeão interno com Alessandro Matri, Fabio Quagliarella e Emanuele Giaccherini para um candidato europeu com Ronaldo, Paulo Dybala e Douglas Costa. Uma evolução com méritos.


Trivela | Cristiano Ronaldo é ótimo para a Juventus. Mas o que significa para a Serie A como um todo?


E há o clube. Quem fica, quem sai, como será escalado. Estamos no meio de julho e as perguntas são várias para mais de 45 dias de mercado aberto. Porque se Gonzalo Higuaín for negociado, Ronaldo jogará pelo meio? Mas e se não for? Português pelo lado e Mario Mandzukic no banco? E Paulo Dybala entra onde nisso tudo? Juan Cuadrado e Federico Bernardeschi? Marko Pjaca acabará emprestado? As dúvidas se sobrepõem às respostas definitivas - e nem levo em consideração, neste primeiro momento, como será o desempenho desse time bastante reestruturado (mais uma vez) em campo.


Entre todos, acredito que Massimiliano Allegri está rindo à toa. Mais que eu e você. Para quem rejeitou o Real no mês passado, receber o melhor jogador do mundo é um presidente considerável. E ele apenas teve de dizer “sim”.