Douglas Costa, o anti-futebol e as suposições a um cuspe de distância

Uma cusparada na cara é o ato mais vil que um jogador pode acometer o companheiro de profissão. Entre provocações e marcações ríspidas, cuspir no seu adversário é desprezível. É esquecer completamente sobre compromissos básicos do esporte. É falhar em regra moral.



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Douglas Costa pediria música no Fantástico do Mundo Invertido: deu cotovelada e cabeçada em Federico Di Francesco antes da fatídica cuspidela. Era para ter sido expulso pelo segundo ato, mas contou com a complacência de Daniele Chiffi. Para o árbitro, o cartão amarelo estava de bom tamanho. Aí veio o término do episódio, o auxiliar de vídeo confirmou e o brasileiro foi para o banho mais cedo.


Getty Images
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A cotovelada


O técnico Massimiliano Allegri disse em entrevista coletiva que acredita que Costa estava nervoso por uma falta não marcada no lance anterior – que não justifica metade das respostas do camisa 11 em campo. Ele e Di Francesco se estranharam em um ataque da Juventus, já nos acréscimos. O brasileiro deu um carrinho no atacante do Sassuolo na jogada seguinte, na qual saiu o cruzamento para Khouma Babacar.



“Nós tivemos chance de marcar um terceiro gol, mas começamos a jogar individualmente, querendo driblar todo mundo. Isso inflama o adversário, que reage mal e proporciona situações como essas” (Massimiliano Allegri)



Não demorou para brotar associações livres nas redes sociais. Em 2016, Di Francesco foi acusado de fazer o saluto romano para comemorar um gol do Lanciano sobre o Modena (no YouTube, aos 40s). Enquanto o clube optou por responder sem responder, ele publicou uma carta dizendo que as ideologias atribuídas a ele não condiziam com o que pensava e que tudo se tratava de um mal-entendido. A Ucei (sociedade judaica italiana) acatou e “desejou maior cautela” ao jogador no futuro.


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Tratar a cusparada como uma retribuição a "algo-racista-que-Di-Francesco-disse-com-certeza" – Blaise Matuidi ouviu cânticos preconceituosos na temporada passada das torcidas de Verona e Cagliari e usou o Facebook para pedir tolerância – é brincar com suposições. As evidências são as ações de Costa no gramado e o relato em rede social que faz nenhuma referência a um possível crime.


Agora o brasileiro aguarda o posicionamento da Liga na próxima terça-feira (18) sobre a suspensão e uma possível multa – que pode chegar a 100 mil euros. Nos últimos casos similares, os envolvidos pegaram gancho de três jogos (Aleandro Rosi e Ezequiel Lavezzi, em 2011, e Paul Pogba por cuspir em Salvatore Aronica, em 2013). Por parte da Juventus, uma punição é certa. E essa punição afeta o próprio time, que entregava responsabilidade e recebia o desempenho à altura do meia neste início de época. Inclusive foi assim contra o Sassuolo, iniciando um contra-ataque que terminou no segundo gol de Cristiano Ronaldo e deixando o português em condições de fazer uma tripletta (acabou errando).


O camisa 7, ao menos, foi a boa notícia. Os gols na tarde de domingo sugerem um alívio na afobação que ele e os companheiros demonstravam nos últimos cinco jogos. Como se a bola precisasse passar sempre por Ronaldo. Como se Ronaldo precisasse driblar o time inteiro para fazer gol. Por exemplo, Sami Khedira teve duas oportunidades de finalização no primeiro tempo, mas preferiu passar (errado) para o português, marcado em ambas.


Para a Liga dos Campeões, as dúvidas aparecem em todos os setores. Leonardo Bonucci voltou a falhar em um gol – lance parecido com os que terminaram em tentos para Chievo e Parma –, Khedira segue uma nulidade e Paulo Dybala tenta se reencontrar nesse estilo mutante da Juve.