Dybala, a preguiça e o futebol retranqueiro da Juventus

Paulo Dybala tem conseguido o que nem Leonardo Bonucci consegue: polarizar ainda mais as opiniões sobre o futebol dele. O argentino é craque ou pereba. É igualmente imprescindível e descartável. Falta-lhe lucidez na mesma quantidade que nunca foi tão completo enquanto jogador da Juventus, rumo ao ápice - pelo menos teoricamente - da carreira.



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O meia, sim, retrocedeu em números individuais e objetivos: no ano passado marcou 26 gols na temporada e, nesta, soma somente sete. Por outro lado, o camisa 10 jamais foi tão competitivo desde que chegou do Palermo em 2015.


Getty Images
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Dybala amadureceu e se tornou um jogador mais completo nessa temporada


Dybala é um secunda punta, um meia com faro apurado de gol que atua com outro dos seus ou com alguém mais fixo. Massimiliano Allegri tentou usá-lo pelo lado nas últimas temporadas, mas algo faltava ao jogador que simplesmente não rendia quando aberto - ainda que fosse natural, para ele, correr para o centro em diagonal.


A chegada de Cristiano Ronaldo mudou esse aspecto porque Dybala se viu numa situação incômoda. A adaptação foi a resposta única para a permanência no time - auxiliada pela indisciplina de Douglas Costa e pelas lesões de Federico Bernardeschi e, no começo da temporada, de Mattia de Sciglio - em prol do português e de Mario Mandzukic.


Costumo e gosto de falar sobre influência no jogo porque sintetiza o trabalho individual para o coletivo. É o uso da habilidade pessoal para engrandecer o time inteiro. Dybala, assim, alterou sua postura. Tornou-se mais parte do todo que somente um indivíduo. Perdeu, portanto, certas responsabilidades ofensivas, permanecendo mais longe do gol, para, agora, se tornar mais representativo para esta equipe que o artilheiro do último ano.


Enquanto aguarda o retorno da parada de inverno, o bianconero está na 12ª posição entre os principais assistentes da Serie A: são 2,2 passes-chave por jogo, mas é uma evolução se comparado com os 1,6 da temporada passada. Em relação à defesa, os adversários estão driblando-o com menor eficiência. Um número que chama a atenção foi o aumento considerável das bolas longas – o dobro –, o artifício usado justamente para assistir Ronaldo no primeiro gol contra a Sampdoria.



Pjanic


As bolas longas são muito importantes para o que a atual Juve imprime como estilo. Ter dois laterais de disposição ofensiva intensa em João Cancelo e Alex Sandro possibilita a virada de jogo rápida para pegar a defesa desprevenida, e o gol mostrado acima volta a ser um exemplo bom sobre o caso. E Miralem Pjanic exige entendimento. 


Assim como Dybala, o bósnio tem abusado dos lançamentos nessa temporada. Entre os três meio-campistas, jogando atrás, o camisa 5 tem virado muito o jogo. O detalhe notável é que o alvo costuma ser Sandro, mas em posição recuada. Desperdício? Estamos falando, pois, de um armador que atuava bem perto da área rival e costumava “aparecer mais” pela Roma há três anos.


Ao escalar Mandzukic e Ronaldo entre os titulares, o time retirou parte da responsabilidade de armação da faixa central – e podemos rastrear esse raciocínio desde Andrea Pirlo atuando como regista e Bonucci construindo o ataque quando o volante estava marcado. Com os laterais em posição avançada, a Juventus, também, tem cruzado bastante. Aproveita-se, assim, da estatura do croata contra zagueiros (ou laterais) mais baixos: atropelando Ricardo Rodríguez, no primeiro gol contra o Milan, ou aproveitando do vacilo do Napoli, quando empatou o jogo. Outra possibilidade aberta pela ausência de Gonzalo Higuaín.


Allegri


Os treinos fechados da Juventus impossibilita saber o que se passa na cabeça do treinador. Quais foram os testes que ele já pensou? Clamar pela escalação de Bernardeschi é gritar contra a parede: o desempenho diário pode estar abaixo do esperado e, mais importante, ele não mostrou porque deveria ser depois que se recuperou da lesão. São neles, os jogos, onde podemos buscar indícios do que é proposto.


Allegri deu liberdade para os meias se movimentarem bastante durante os seis primeiros compromissos da temporada nacional. Nos últimos seis, o panorama foi diferente: restrição dos espaços e rigidez para quem fosse escalado. Retranca? O treinador optou por um estilo cauteloso durante a fase mais difícil da temporada, com jogo atrás de outro, sobretudo pelo meio de campo combalido e entregue ao departamento médico - o declínio técnico-físico de Pjanic foi nítido durante esse período.


De fato não há como equiparar a responsabilidade do bianconero e seus principais rivais, pelo menos na península. É quem mais recebe e mais gasta. A Juventus trabalha em rotação financeira superior aos concorrentes mais próximos, e os desafios não estão em pé de igualdade. O clube é favorito para o scudetto e ponto final.




Allegri não vai colocar Dybala mais próximo à área agora, aproveitando a pontaria daquela canhota, porque o argentino finalmente tem sido o jogador que o técnico tanto queria: um armador acima da média com mais responsabilidades. Se Mandzukic cair de rendimento, quem sabe? Utilizar dois meias somente para liberar quatro “atacantes” também, no momento, soa fora de cogitação porque Pjanic, Rodrigo Bentancur e Blaise Matuidi têm dado conta do recado apesar da ausência na área rival - tudo bem que a cautela dos últimos meses explica isso.

O treinador, por fim, entrega o que lhe cabe com licença poética à ideologia do clube: vitórias, pois são a única coisa que interessa. Como as derrotas também são naturais, Allegri, acima de tudo, dedica-se a trabalhar em um time internacionalmente competitivo. Entre motivações e estilo, a Juventus condiz com as ideias de jogo do treinador nos piores momentos - substituindo Alvaro Morata em Munique e cedendo os gols na prorrogação - e melhores - encaixotando Real Madrid no Santiago Bernabéu e Barcelona em Turim.


Custa a acreditar que um time rico deva ceder a posse para o adversário. O anti-futebol não é se resguardar à defesa e buscar o contra-ataque, mas sim decretar que somente um estilo de jogo, o seu preferido, está correto. O plano único, o Santo Graal do esporte, inexiste com Dybala fazendo gol ou não.