Allegri largando as redes sociais diz muito mais sobre nós que dele

As redes sociais aproximam. A distância de um relacionamento é reduzida para um tuíte, uma nova foto no Instagram. É o sentimento de estar, de pertencer, de conhecer tudo e todos, desde o clube do coração até o primo do terceiro goleiro. Soma-se a isso a síndrome FoMO, o medo de estar perdendo algo, e o celular vive em mãos.



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Allegri tinha seus canais apesar de não ser fã das ferramentas. Instagram estava ativo e sempre usava o Twitter após os jogos. Uma mensagem de motivação após um resultado ingrato ali, uma congratulação depois de uma vitória acolá. O técnico estava online. Estava, no passado. Saiu como entrou: de supetão, sem delongas.


Quando não está nervoso, o treinador fala mais de 10 palavras como resposta nas entrevistas. Antes do jogo contra o Napoli, no último domingo (3), disse: “mídias sociais são uma ferramenta válida, mas não para todos. Você vê muitos problemas e insultos, e pessoas se escondendo atrás dos teclados”.


Getty Images
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Not Allegri


Talvez esse seja o ponto. A crítica é inerente à posição dele. O técnico está numa função que a cobrança existe por todos os lados. Nos últimos dias, li que Allegri não sabe lidar com a pressão, que é fraco e que deveria se acostumar. Do jeito que a internet mostra, nem parece que ele mesmo é o principal crítico do próprio trabalho. Mais que isso, as redes mostram uma abordagem diferente da realidade do estádio: o apoio é mútuo, e as críticas ficam resguardadas, há quase um ano, ao aumento dos preços dos ingressos — levando, inclusive, à greve na Curva.


A toxicidade do ambiente virtual se torna real a cada agressão recebida pelos inúmeros motivos — se é que existe motivo para isso. Na vitória ou na derrota, os xingamentos que não eram ouvidos no Allianz podiam ser lidos nos perfis de Allegri. Os abusos eram constantes para com um treinador que não teve tranquilidade online desde o momento que foi anunciado como sucessor de Conte.


Neymar mantém a página com comentários abertos somente para amigos. Enquanto personalidade pública, a vida está sujeita a análise 24 horas por dia, sete dias por semana. Allegri optou por um caminho diferente e, justamente, durante outro momento conturbado de sua história em bianconero. A pesada derrota no Wanda Metropolitano abriu novas discussões e especulações sobre a saída do treinador.


Nesta semana, as principais publicações italianas falaram sobre Zidane, o favorito da diretoria, Conte, Deschamps e até mesmo Guardiola — descartado pelo salário. A ideia nem é discutir sobre os candidatos, mas, sim, identificar a frequência desse papo às vésperas da decisão por um lugar nas quartas de final da Liga dos Campeões. A atual Juventus mostra quase um fim de ciclo no qual o técnico não consegue fazer com que os principais jogadores se destaquem simultaneamente.


As críticas sobre o trabalho de Allegri são, particularmente, indevidas. Porque uma coisa é discutir subjetividade de jogo bonito ou feio; outra é a entrega de resultados. Os 16 pontos de vantagem para o Napoli na Serie A, igualando o próprio recorde a essa altura da competição, postulam a Juve como campeã italiana novamente. Caso o treinador saia ao fim da época, ele deixa o time como o 3º maior vencedor da história do clube: 11 títulos com menos jogos que Trapattoni e Lippi. Olhando ainda mais longe, ele foi o responsável por fazer a Juventus ser temida no continente pela primeira vez desde 2005.


O que aconteceu com Allegri seria um ótimo caso para entender nossas próprias atitudes nos ambientes virtuais. Não vai acontecer e, como ele disse, “o problema não é o futebol; é a sociedade”. Ouvir e ler bosta o dia inteiro uma hora cansa.