Juventus é a verdadeira culpada pelo Calciopoli?

Dizer que a Juventus é a única culpada pelo Calciopoli é muito raso. Lazio, Fiorentina, Milan também estavam entre os punidos no escândalo de manipulação de resultados de 2006, mas nem todos os envolvidos foram investigados. A Inter não conquistava títulos desde 1989. Massimo Moratti, presidente do clube, investia pesado na equipe, que não conseguia ir além da segunda colocação. Os nerazzurri saíram ilesos da encrenca e tiveram anos vitoriosos durante metade da última década. Coincidência.


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Cannavaro e Del Piero comemoram o título que não valeu


No dia 10 de agosto de 2004, a Juventus empatou em 2 a 2 com o Djurgardens, em casa, na última fase preliminar da Liga dos Campeões. O alemão Herbert Fandel, árbitro do jogo, anulou um gol de Fabrizio Miccoli contra o time sueco. No dia seguinte ao confronto, Luciano Moggi, então diretor-geral da Juve, pegou o telefone e ligou para Pierluigi Pairetto, presidente da Associação de Árbitros da Itália e membro da Comissão de Árbitros da Uefa.



Pairetto: Olá!
Moggi: Gigi? Onde você está?
Pairetti: Saímos.
Moggi: Que porra de árbitro é esse que você nos enviou?
Pairetti: Oh!, Fandel é um dos melhores.
Moggi: Eu sei, mas o gol de Miccoli foi legal.
Pairetto: Não foi.
Moggi: Foi legal, foi legal!
Pairetto: Não. E foi exatamente na frente dele [do árbitro].
Moggi: Do que você está falando? Não foi na frente dele... Durante toda a partida ele bagunçou as coisas!
Pairetto: Mas ele é um dos melhores...
Moggi: Quero que ele se foda. E para Estocolmo [na partida de volta], conto com você!
Pairetto: Que porra é essa... Certamente terá de ser uma decisão apropriada.
Moggi: Vamos vencer, você sabe...
Pairetto: Mas eles são ruins.
Moggi: Sim, mas com outro árbitro assim, dificultam as coisas, não? Entende?



A conversa foi uma das tantas gravadas ilegalmente pela Telecom Italia (TIM) e publicadas no jornal Gazzetta dello Sport. Moggi já estava sendo investigado pelo Ministério Público de Turim por repreender o corpo de árbitros que não favoreceu a Juventus na derrota de 2 a 1 para o Messina, em novembro de 2004, ainda no vestiário do estádio. As gravações com declarações envolvendo dirigentes e jogadores foram enviadas aos Ministérios Públicos de Turim, Roma e Nápoles, mas, naquele ano de 2004, ninguém foi punido por conta de falta de provas. Nenhuma ação, portanto, foi tomada.


Massimo Moratti assumiu a presidência da Inter em 1995 e investiu um caminhão de dinheiro durante anos sem que isso representasse retorno em títulos. À época, os nerazzurri não conquistavam um troféu desde a Serie A de 1989. Quando o Ministério Público engavetou as declarações, o frenesi da mídia veio à tona quando as transcrições bombásticas foram divulgadas pela Gazzetta dello Sport. Carlo Buora, então vice-presidente da Inter, era o dono da publicação. Coincidência.


Não só a Juventus foi investigada pelo escândalo de apostas. O Milan, grande rival da Inter, estava no meio. Adriano Galliani foi forçado a deixar a cadeira da presidência da Federação Italiana. O substituto do empresário foi Guido Rossi, torcedor nerazzurro, maior acionista e ex-diretor da Inter, e amigo de Moratti. Coincidência – conflito de interesses?


Em suma, Juventus, Fiorentina e Lazio perderam a vaga em competições europeias em 2006-07. Além disso, a Juve foi rebaixada à Serie B e Fiorentina, Reggina, Milan e Lazio começaram a primeira divisão de 2006 com penalidade de 15, 11, oito e três pontos, respectivamente. Rossi, após o veredito final, deixou o cargo na FIGC e assumiu a presidência da Tim – que também tinha Buora nas cabeças. Coincidência.


Casualidade também que a Tim, Gazzetta dello Sport e Inter fossem dirigidas pelas mesmas pessoas (ou por contatos muito próximos). Foi exatamente a tríade que pavimentou o caminho para o clube de Milão conquistar a Itália na segunda metade da década de 2000.


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Rivalidade fora do tribunal: torcedor da Juventus protesta durante julgamento do Calciopoli em Nápoles, em 2010


O jornalista Frank Tigani, do WhoScored e Football Italia, afirma que nem Milan, nem Juventus reclamaram com veemência sobre a decisão da Federação Italiana. A Juve, aliás, é gerida pela maior corporação da Itália. Por que a Fiat não se mexeu? Uma razão, para ele, é que a Tim era a patrocinadora-mor da Ferrari, que pertence à Fiat. Os bianconeri também não apelaram à decisão para não adiar o início da temporada. Além disso, a Fifa ameaçou banir a Itália de todas as competições – incluindo a seleção principal - se a Federação não chegasse a um consenso. Mais uma: era interesse da liga que a principal patrocinadora do campeonato, que fabricou as evidências telefônicas, não fosse investigada.


Moggi foi acusado de interferir na arbitragem da Serie A, da Liga dos Campeões e de torneios de juniores; informar à comissão técnica da Squadra Azzurra para convocar jogadores agenciados pela empresa do filho dele; enviar dinheiro para um banco no Vaticano; ordenar a falsificação de exames antidoping dos atletas da Juventus; e instruir produtores de TV para modificar conteúdo a favor do clube. Os irmãos Della Valle, da Fiorentina, foram flagrados conversando com o ex-diretor da Juve; Galliani foi investigado por conflito de interesse; Claudio Lotito, então mandatário da Lazio, foi acusado de interferir em resultados de partidas.


Avançando um pouco no tempo: o “Calciopoli 2” surgiu em 2010 porque descobriram que Moggi usou chips suíços para fazer ligações telefônicas. Dessa forma, a Tim não teria como invadir a privacidade do ex-dirigente e as provas de anos anteriores não seriam legítimas. Attilio Auricchio, ex-policial responsável por guardar as evidências, afirmou que não sabia onde as fitas estavam; ele perdeu as provas. Naquele ano, também, os advogados de Moggi conseguiram gravações que a empresa de telecomunicações simplesmente não mandou ao tribunal - uma fita que continha a conversa de Moratti, o chefe de arbitragem da FIGC, Paolo Bergamo, e a secretária da Associação de Árbitros da Itália, Maria Grazia Fazi. Eles comentavam sobre o jantar do dia anterior, quando a Inter venceu o Livorno com decisões discutíveis da arbitragem – o Livorno lutava por vaga na Copa da Uefa.


A Inter nunca foi investigada por violar direitos constitucionais; reestruturar o tribunal para justificar um rebaixamento; e corroborar nas gravações telefônicas ilegais da Tim. Em 2005, o ex-jogador Christian Vieri não teve o contrato renovado com o clube de Milão. Ele, tempo depois, processou o Presidente Moratti e a empresa de telefonia por gravações ilegais. Fora isso, o ex-atacante jurou que os jogadores nerazzurri sabiam do plano do mandatário e foram obrigados a assinar um documento que indicava que eles ficariam quietos sobre o assunto.


A Juventus chegou a recorrer do título perdido de 2006 novamente em há dois anos (nunca se soube por que o troféu foi repassado para Inter, uma vez que as ligações não eram daquela temporada). Ele ainda corre no Ministério Público de Roma. O declínio do calcio se deu exatamente em 2006. Os astros começaram a deixar o sul da Europa e encontraram ligas mais estáveis na Espanha, Alemanha ou Inglaterra. O escândalo de manipulação de resultados enterrou o futebol italiano e TODOS os culpados devem pagar. 


Dificilmente irão.