O que a Juventus pode ensinar aos clubes brasileiros

Ao ligar a TV durante a final da Copa do Brasil entre Atético-MG e Cruzeiro, era impossível não notar os buracos na arquibancada exatamente na frente das câmeras. A administradora do Mineirão, Minas Arena, pediu R$ 490 para sócios e R$ 700 para outros torcedores por um bilhete no setor com capacidade para seis mil assentos. A renda da partida foi de R$ 7.855.510, terceira maior arrecadação da história do futebol brasileiro, mas o valor poderia ter sido de quase R$ 12 milhões, caso 20 mil lugares (ingressos não vendidos) fossem comercializados pelo preço médio.


Surge a ideia na cabeça do turista apaixonado de futebol, em Turim: “Por que não assistir a um jogo da Juventus?”. Faltam duas semanas para acabar o ano, mas quem não é sócio ou tem o pacote de ingressos para a temporada só vai achar tíquete disponível para a partida contra a Inter, em 6 de janeiro, na Serie A. O sistema de ingressos para a época não foi introduzido em todas as agremiações da primeira divisão – Milan, Inter, Napoli e Roma oferecem o serviço; o Palermo, por exemplo, não. Visitante que não se programa com antecedência corre o risco de precisar comprar bilhetes (nominais ou não) com cambistas. Até os que têm uma agenda a ser seguida à risca podem ter complicações, pois alguns jogos necessitam de documentos – e até carteirinha do clube – para adquirir o ingresso.


Getty Images
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Times de Juventus e Cagliari perfilados para jogo na Serie A; Arena lotada mais uma vez


Os dois andares das tribunas norte e sul do Juventus Stadium são os mais baratos (30 euros) para o confronto diante os nerazzurri. A arquibancada do leste superior custa 60, enquanto a inferior está disponível por 65. O setor mais caro é o inferior central – a 90 euros. A Senhora fez promoção para a Coppa Italia, contra o Verona, também em janeiro, com ingressos a 10 euros – membros pagam 5.


Os ingressos para a temporada nos setores mais baratos, norte e sul, custam 440 (inteiro). As tribunas laterais saem por 520 a 710; as centrais custam de 830 a 1400. O setor família sai, no mínimo, por 975, pois a negociação só é feita a partir da compra de dois assentos. Os valores são ligeiramente menores em caso de renovação do cartão da época.


Esse pacote dá o direito ao consumidor de comparecer aos 19 jogos da Serie A em 2014-15, acesso ao serviço secundário de bilhetes da Juventus, gratuidade para se tornar sócio do clube, preços reduzidos para visitar o museu ou fazer tour na Arena e prioridade para comprar ingressos de jogos da Juve em competições europeias (este último somente para quem adquirir cadeiras em setores específicos do estádio). Isso significa que, na média, o sócio-torcedor consegue assistir todos os jogos em casa da Juve por 23 euros.


Adquirir os ingressos da temporada não é vantajoso somente para o torcedor. A Arena, primeiro estádio privatizado da Itália, nasceu exatamente com a ideia de ficar lotada em todos os jogos. A construção de 122 milhões de euros assinada pelos arquitetos Fabrizio Giugiaro e Paolo Panifarina tem apenas 41 mil lugares. Apenas porque a direção bianconera não queria que o time jogasse em um novo Delle Alpi, um monstro de 69 mil lugares e com uma pista de atletismo que deixava a torcida ainda mais longe do campo. A Juventus é o time com maior quantidade de fãs no país. Só que os torcedores estão bem espalhados pela Bota. Um exemplo: a Vecchia Signora tem uma maioridade absurda de tifosi nas regiões centrais de Abruzzo e Marche, nas sulistas Puglia e Molise e na Sicília; tudo bem longe do Piemonte.


Desta forma, o projeto, segundo o engenheiro-chefe Francesco Ossola, era levar os estádios ingleses e La Bombonera para Turim. Era a forma que a Juventus teria de aproximar os fãs do gramado e criar uma atmosfera propícia para atazanar o time visitante. Todas as 28 mil assinaturas para a temporada 2014-15 foram vendidas, proporcionando um lucro de 20,8 milhões de euros (incluindo assentos premium e serviços adicionais). O valor arrecadado é 5% maior em comparação à última época.


Agora é possível notar a diferença gritante de não somente o Mineirão, mas a grande parte dos estádios do Brasil – sobretudo as luxuosas e gigantescas arenas construídas para a Copa do Mundo. O estádio da Juve não é extravagante, traz lucro para o clube e ainda motiva o time em campo, devido a lotação em todos os jogos da temporada. Tudo junto e sem extorquir o bolso do torcedor. É tão difícil assim?