Calciopoli foi a mentira da década

Não tenho bola de cristal para sacramentar o título europeu da Juventus nesta temporada apesar do avanço à semifinal da Liga dos Campeões. A situação na Itália, ao contrário da continental, é bem mais tranquila. Afinal, existe concorrente para tirar o scudetto de Turim? Talvez você não se lembre, mas há um mês, a equipe tinha se classificado às quartas da Liga, derrotado o Genoa pela Serie A e conquistado a importante vitória mais insignificante da história recente.


O julgamento de nove anos foi prescrito naquele 23 de março sem acusações dos principais suspeitos no esquema de manipulação de resultados, os ex-diretores bianconeros Antonio Giraudo e Luciano Moggi. Os chefões da Fiorentina, Andrea e Diego Della Valle, também ficaram livres de uma pena final, bem como os árbitros Antonio Dattilo e Paolo Bertini.


ESPN FC: Juventus é a verdadeira culpada pelo Calciopoli?


O presidente da Lazio, Claudio Lotito, foi outro liberado para fazer o que bem entendesse - difícil seria ver o braço direito do presidente da Federação Italiana (FIGC), Carlo Tavecchio, sendo punido por algo. Lembrando que o mandatário laziale foi o responsável pelo discurso bastante agressivo contra o acesso de equipes pequenas em conversa com o presidente da Serie B, Andrea Abodi; FIGC apenas arquivou o caso. Perante à Justiça, somente o árbitro Massimo de Santis foi suspenso por dez meses após a Corte de Cassação rejeitar o pedido de apelação.


No âmbito esportivo, pouco muda - para não dizer que nada muda. Nem Giraudo, nem Moggi estão livres para trabalhar no futebol, pois eles seguem banidos de exercer qualquer função relacionada ao esporte. Não é possível, para a lei, declarar que a dupla cometeu os crimes pelos quais foi acusada, todavia não se pode dizer que eles são inocentes. O julgamento simplesmente caducou.


Aos que questionam se a Juventus foi beneficiada com esta decisão, digo: o resultado do caso de forma nenhuma favorece o clube. A situação permanece a mesma, pelo menos por enquanto. Não condenar Giraudo e Moggi não muda a situação dos jogadores, dirigentes, árbitros e, novamente, clubes foram investigados durante quase uma década.


Os juízes não chegaram a um consenso se a temporada de 2006 foi arranjada e, por isso, a Velha Senhora tem o direito de pedir uma quantia pelos danos causados pelo rebaixamento forçado. Requisitar 443 milhões de euros à federação é bastante coisa - o Supremo Tribunal deve iniciar as conversas sobre esta indenização em três meses. Mas tem aquilo: a pedida é alta para as partes entrarem em um acordo mútuo - o qual Tavecchio não está disposto a pagar. O chefão falou que "crimes foram cometidos", entretanto, "nada pode ser feito porque era muito tarde para acusar" os ex-dirigentes bianconeros. Além disso, no amistoso da Squadra Azzurra contra a Inglaterra, no fim de março, a FIGC cobriu o símbolo dos 32 títulos da Juventus, na entrada da Arena. De acordo com a entidade, que não considera as conquistas do biênio 2005-07, o modus operandi é realizado apenas para deixar um "visual limpo".


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Supostas ligações ilegais contribuíram para afastar Luciano Moggi do futebol para sempre


Moggi vai levar para o túmulo a verdade, seja ela qual for. Na biografia dele, "Il Pallone Lo Porto Io" ("Sou eu quem levo a bola", em tradução livre), o ex-diretor se declara inocente. Depois que o caso expirou, ele disse ao jornal Gazzetta dello Sport que o julgamento "foi uma piada que durou nove anos". O profissional banido afirmou que o Calciopoli era uma arma sem munição, pois "não existiram evidências".


No princípio, Moggi e Giraudo foram acusados de 1) trancar árbitros nos vestiários; 2) controlar o processo de seleção da arbitragem; 3) influenciar o comando de arbitragem; 4) suborno; 5) oferecer presentes generosos a pessoas influentes; 6) controlar agências de jogadores; 7) fraudar contas; 8) criar uma rede indetectável de comunicação; 9) contatar árbitros diretamente; 10) manipular resultados de jogos; 11) tentar manipular resultados de jogos; entre outros.


Retrocedendo até 2006, o tribunal desportivo baniu a dupla por cinco anos e, em questão de três semanas, a Juventus foi excluída do campeonato europeu e da Serie A devido à pressão exercida pela Uefa e Fifa. O curioso da sentença divulgada pela FIGC é que o documento mostrava claramente que nenhuma violação ao Artigo 6 (sobre manipular resultados) foi encontrada nas ligações interceptadas. Nem Moggi, muito menos Giraudo pediram por árbitros específicos nem ordenou favores ao corpo de arbitragem. Aliás, a federação aprova a relação próxima, benéfica e sadia entre clubes e os designadores da AIA (Associação de Arbitragem Italiana).


Nos cinco anos seguintes, Moggi conseguiu três vitórias em quatro julgamentos. Nestes, o tribunal cível não avançou nas acusações da rede secreta de ligações utilizando cartões SIM estrangeiros, fraudes em contas e o controle de jogadores - um consórcio que ditava onde cada atleta iria jogar, que, especulavam, envolvia funcionários da Juve, como o meio-campista Manuele Blasi e o armador Viktor Boudianski.


Para Moggi, atualmente, o sistema judiciário esportivo o puniu somente por uma razão: trancar o árbitro Gianluca Paparesta em um banheiro, no estádio Oreste Granillo, em 2004. "O promotor do caso disse na corte que não fiz isso, mas fui banido do futebol porque o tranquei no banheiro. Eu poderia ter o ameaçado, mas Paparesta nunca me acusou. A verdade é que ele estava com medo do que tinha feito, já que nos fez perder o jogo contra a Reggina com um erro", declarou.


Os dois títulos excluídos da legalidade colocam a Juventus como a maior perdedora desta história. O lado político parece ter pesado nas decisões equivocadas do julgamento prematuro, uma vez que o episódio mostra um claro vencedor. O presidente do Genoa, Enrico Preziosi, foi suspenso por cinco anos por confessar a manipulação da Serie B de 2003-04. Ele poderia ser expulso do futebol. As vendas de Thiago Motta e Diego Milito, proibidas, foram realizadas normalmente. A FIGC, em outro exemplo, nunca realizou as sanções previstas no caso do diretor nerazzurri Gabriele Oriali no famoso caso do passaporte falso de Alvaro Recoba, que fez o uruguaio se passar por europeu para não ocupar vaga de extracomunitário.


De Madri, Carlo Ancelotti falou que Moggi foi parte de um sistema que não era tão claro naquele período. O ex-técnico da Juve acredita que a página do Calciopoli foi fechada e o sistema está trabalhando em outras dificuldades. Quem dera. A única certeza é que o sistema - tribunal esportivo e FIGC, sobretudo - está perdido. Em nove anos, a corte condenou sem provas e investigações prévias somente para provar um ponto pré-construído.


O resultado do 23 de março retoma a questão, entretanto, da integridade da federação, que toma decisões com este tipo de evidências.


Colaborou Antonio Corsa