A Juve de cá, o título na Lapa e o Vô Ary

- Onde eu bato, Moret?


- Velho, você sabe muito bem onde vai bater.


O Fabio nem tocou a bola colocada na marca do pênalti. A cobrança foi perfeita, no ângulo. Um pouquinho pra cima e o travessão traria o desespero momentâneo. Mas não houve.


Eu desabei. E chorei pra cacete. Algumas pessoas pularam em cima de mim. Acho que o Gabriel Pedreschi, sorteado na Aracajuve, mas que não pode jogar, e o amigo Pedro Cuenca. Não sei mesmo. Enquanto isso, os companheiros de time festejavam. Só soube quando vi ao vídeo da cobrança derradeira.


Flickr/Julio Cesar Soares
Flickr/Julio Cesar Soares

A Copa, que nem campeonato é, importou demais


Estreamos oito horas antes. Na fase de grupos, conseguimos uma vitória complicada contra o Perdizenit, goleamos o Cambuciktas (7 a 0 foi pouco) e viramos ante o fortíssimo Batchê Borisov para avançar na primeira colocação.


A ideia da Copa Trifon Ivanov não é jogar futebol, diga-se. Ali só tem peladeiro de fim de semana ou menos que isso. A Copa foi o método encontrado para reunir centenas de colegas e amigos e curtir um dia com churrasco, cerveja, corneta e uma bola.


Nosso jogo encaixou bem contra Kashimaçari e Chimas Guadalajara. Entretanto, somente no primeiro vencemos com facilidade. A partida final contra o Crystal Palace dos Bandeirantes foi foda porque a equipe era absurdamente forte - sobretudo com a presença de Leandro Iamin, companheiro de ESPN FC.


As palavras do Fabio antes do jogo foram extremamente motivadoras, pouco antes da bola rolar. Ele contou a todos sobre a história do avô Ary, o "velho guerreiro" torcedor do São Paulo. O placar de 2 a 2 ao fim de 20 minutos foi icônico. Jogamos como nunca, tiramos força de sei lá qual lugar e Obede honrou com a promessa de chegar aos 10 gols no torneio ao marcar duas vezes na final. 


Acaba o jogo. Reunião antes dos pênaltis. A ideia era a mesma das cobranças ante o Chimas. 


- Bate Obede, bato eu... e bate você, Fabio. A terceira é sua.


Caso fosse necessário, Thiago ou Noedyr garantiram na sequência. Tudo levava a crer que não precisaria de uma quarta batida.


Quando a bola atravessou a linha do gol, na precisão absurda do Fabio, nada mais importava. Não fosse os acontecidos do último mês com ele, minha comemoração certamente seria diferente. Correndo, escalando a grade, subindo no gol ou tirando a camisa. 


O êxtase, embora não caracterizado pelo sorriso, veio em forma de choro. As lágrimas aliviaram o tanto que a gente correu naquele sábado. Quando levantei do gramado, só queria abraçar o Fabio. A única coisa que consegui falar foi "eu te disse".


Flickr/Julio Cesar Soares
Flickr/Julio Cesar Soares

É isso aí


De ser o time azarão do Grupo C a levantar o troféu Ivanov.


Nunca tinha chegado tão perto de ser campeão. O máximo havia sido na Trifon I, com o esquadrão da União Agrícola Palmarense, garfado na semifinal. Nos outros torneios, capitaneando Higienapoli e Gamba Osasco, nada aconteceu.


Entre outros troféus, queria exatamente esse. Nunca vou saber como é ser campeão em campo com a Juventus, mas como é bom ser campeão com a outra Juve. Minha e deles.


Nenhum roteiro seria melhor que este. Obrigado, Obede, Thiago, Caio, Caetano, Jair, Noedyr, Gabriel e Fabio.


E Ary.