Juventus ou Boca: o que você faria se fosse Tévez?

A decisão da Coppa Italia desta temporada foi como deveria ter sido: sem briga, sem confusão e com título da Juve na prorrogação. A final de 2013-14 foi turbulenta, ultrajante e triste. Não pelo título partenopei, mas sim pela briga entre torcedores de Napoli e Fiorentina do lado de fora do estádio, em Roma. Quatro pessoas foram baleadas; entre elas estava Ciro Esposito.


O estado do torcedor napolitano era gravíssimo desde antes da bola rolar. Ele morreu 50 dias depois, causando comoção nacional. A mãe de Esposito, Antonella​ ​Leardi, liderou um grupo de protestos e pediu o fim da violência no futebol.


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Homenagem a Ciro Esposito em amistoso de pré-temporada do Napoli, com Marek Hamsík, Antonella Leardi e Aurelio De Laurentiis


Abril foi um mês ótimo. A Juventus conseguiu excelentes resultados na Liga dos Campeões contra o Monaco e se aproximou ainda mais do título italiano após​ ​vencer Fiorentina e Lazio na Serie A​​. Ao mesmo tempo, abril foi um mês horrível. No reencontro de Roma e Napoli, torcedores da capital fizeram de Esposito e a mãe dele motivos de chacota.


Os napolitanos levaram uma faixa ao Olímpico para homenagear o fã que perdeu a vida. Na ​C​urva Sud, arquibancada dos ultrà romanos, outra faixa, esta do time da casa, que mencionava o livro recém-lançado por Antonella. "Que triste. Ganhando desde o funeral com livros e entrevistas".


Duas semanas depois do episódio, o Cagliari sofreu co​​m um ataque de torcedores exaltados e imbecis. Eles, que tinham protestado no Sant'Elia contra os resultados negativos da equipe, invadiram o centro de treinamento do clube e agrediram alguns jogadores, de acordo com a imprensa italiana. Dirigentes da equipe, que também teriam sido agredidos, afirmaram que ocorreu apenas uma "conversa acalorada" entre as partes. O técnico Zdenek Zeman foi demitido na rodada seguinte, depois de mais uma derrota.


Não-oficialmente, tende-se a culpar toda a torcida pelos atos de violência. O estereótipo, claro, é uma inverdade. Na investigação sobre os baleados em Roma, a polícia confirmou que o ataque aos napolitanos partiu de uma minoria que se aproveitou da situação. O que acontece na Itália é a ineficácia governamental ante os atos.


O jornalista argentino Gustavo Grabia, escreveu em "La Doce" que as torcidas organizadas da Argentina têm poderes políticos e econômicos imensos. Elas são capazes de criar uma rede de estrutura de delitos. O chefão da organizada do San Lorenzo já foi visto ao lado de Cristina Kirchner! Na Itália, quem manda são os ultrà. Genny 'a Carogna, líder de uma organizada do Napoli, conversou com o meia Marek Hamsík antes da final da Coppa contra a Fiorentina. Foi ele quem permitiu que a final fosse realizada. A complacência é tão grande que a segurança permitiu a invasão da torcida dos vencedores ao fim da partida, e Carniça, nascido Gennaro De Tommaso, carregou a taça.


Em 2007, 250 torcedores sicilianos brigaram antes do clássico entre Catania e Palermo. A guerrilha urbana, na qual morreu o inspetor Filippo Raciti pelas mãos do ultrà Antonio Speziale, fez com que a Federação cancelasse o amistoso da Itália que aconteceria três dias depois. No mesmo ano, o DJ Gabriele Sandri foi morto por um policial que tentava dispersar os baderneiros de Juventus e Lazio. As torcidas se encontraram na região de Arezzo. Os times sequer se enfrentariam aquela rodada - a Lazio jogaria contra o Milan, em Milão, enquanto a Juve duelaria contra o Parma. Sandri era um torcedor comum, sem qualquer filiação às organizadas.


Fiquei horrorizado com o episódio do spray de pimenta em Bombonera. As investigações continuam, com o torcedor Adrián Napolitano no topo da lista de acusações. Tévez tem o desejo de encerrar a carreira no Boca Juniors - agora, são 16 meses para a Juventus discutir o futuro do argentino. É justificável que ele retorne à terra natal em um futuro próximo. O panorama não vai mudar até lá. Não vai mudar em cinco ou dez anos. São episódios assim que você nota como o ser humano consegue realizar ações horríveis contra seus próximos para manter status, dinheiro.


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Gennaro De Tommaso conversa com funcionários da Federação Italiana na final da Coppa Italia 2013-14


O que Tévez tem apresentado nas últimas duas temporadas certamente rende um contrato de mais dois anos com a Velha Senhora a partir do vencimento, ou seja, até 2018. Se fosse o argentino, ficaria. Ainda tem lenha para queimar nesta casa de veraneio no Piemonte, onde os vizinhos o adotaram como parte da comunidade.


Perguntei a alguns colegas o que eles fariam se fossem Tévez:


Bruno Bonsanti, repórter da Trivela



Eu lembro que Tévez reclamou que Manchester era uma cidade "pequena e molhada", mas o seu desejo não era perseguir o glamour, as celebridades e noites de festa. O objetivo era se sentir confortável e em casa. Encontrou um pouco disso em Turim, mais do que na Inglaterra.


De qualquer forma, em qualquer lugar, a saudade da Argentina sempre bateu forte no coração dele, mesmo na época de Corinthians. Vira e mexe, ele pegava um avião para visitar as suas origens, e acho que uma oportunidade de voltar para o Boca, se conseguir haver um meio termo na questão salarial, não seria descartada sem muita ponderação. As cenas de La Bombonera nas oitavas de final contra o River Plate assustam qualquer um, e talvez sirva como um lembrete para Tévez, mas, no fundo, qual a novidade? O poder de La Doce e das outras barra bravas já era gigantesco quando ele defendia o azul e o amarelo de Buenos Aires e não acredito que o impediria de fazer isso novamente.



Allan Amarelo, do República de La Boca (ESPN FC)



Campeão e ídolo. Estas duas palavras sintetizam as passagens de Tévez por cada um dos seis clubes em que envergou mantos. Se bem no West Ham não levantou nenhuma taça, salvar o modesto time de Londres do rebaixamento foi uma proeza e tanto. Boca, Corinthians, Manchester United e City. De alguma maneira, Tévez foi um vencedor em cada um deles, mas demorou anos para voltar a ser feliz.


O Apache é daquele tipo de jogador à moda antiga. Que se doa mais pelo amor ao jogo que pelo objetivo. Tévez é feliz em Turim. É feliz na Juve. Mas assim como jogadores à moda antiga, só existe um lugar no qual ele pertence: a República de La Boca. Em alguns meses ou na próxima temporada, a única coisa certa é que ele voltará a vestir as cores de Riquelme e Maradona. Não apenas para ser feliz, mas para finalmente se sentir em casa.



Dassler Marques, repórter do UOL



Se fosse Tévez, cumpriria o contrato com a Juventus para depois voltar ao Boca Juniors nos braços do povo, na Itália e na Argentina. Mas Carlitos usa pouco a cabeça em alguns momentos e sempre escuta o coração. É possível que, no momento em que o clube está acuado, ele se sinta mais forte para voltar ao Forte Apache e à Bombonera. Pois Tévez se sente mais um dos fãs do Boca e somente isso.



Vinicius Alexandre, do Blog Nou (ESPN FC)



Nem em sonho eu faria essa troca. O Tévez está no melhor momento da carreira, comandou a Juve até a final da Liga dos Campeões e muita gente o considera como um dos candidatos à Bola de Ouro por tudo o que ele fez até aqui. Que ele vai voltar ao Boca algum dia é inevitável, e acho justo que ele faça isso. É o clube de coração dele, encerrar a carreira lá deve ser um grande sonho pra ele. Mas fazer isso na fase que ele vive seria um grandeerro.


Ele ainda pode render dois ou três anos em alto nível na Juventus. E fazendo isso ele praticamente garante que não vai ficar de fora de mais uma Copa, torneio que deve ser um grande objetivo pra ele. No Boca Jrs. Tévez estaria jogando em um campeonato mais fraco do que os seus concorrentes pela vaga na seleção, e considerando a competição enorme no ataque da seleção argentina e que só cresce com jogadores como Vietto e Dybala, isso seria uma duro golpe nas suas chances de disputar a Copa na Rússia.


Trocar a Juve pelo Boca agora seria um péssimo negócio. Por maior que seja a paixão dele pelo clube argentino, é loucura trocar uma finalista da Liga dos Campeões pela realidade do futebol sulamericano atualmente.



Nelson Oliveira, editor do Quattro Tratti



Dizem que um amor supera qualquer barreira. O que seria um futebol desorganizado, com violência nas arquibancadas e um bando de barra bravas narcotraficantes e milicianos? Tévez é Fuerte Apache, cresceu no mais cruel dos mundos, sabe se virar. Já passou até por sequestro do pai. Voltar ao que lhe moveu para buscar uma vida melhor, ao que lhe perseguiu na infância e adolescência é estímulo para se reinventar. Mas pode ser cedo demais. Cedo demais para quem ainda pode ganhar mais, jogar mais, ficar ainda mais decisivo. E retribuir tudo isso ao Boca da melhor forma, daqui a algum tempo.


Afinal, quem ama também pode esperar. Se eu fosse Tévez, diria assim para o Boca Juniors e seus torcedores: "Nesse(s) último(s) ano(s) de intercâmbio, o relacionamento é aberto. Podem se divertir com Osvaldos da vida. Eles são bonitinhos, entretém um pouco, mas eles só ocupam temporariamente o espaço que eu deixei. São transas para manter algo aí dentro funcionando. Esquentando seu corpo para a minha volta. Afinal, vocês sabem que um verdadeiro amor não se esquece e sabem como um verdadeiro amor arrebata. Eu volto, mas não agora".



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Pogba e Tévez comemoram o título da Coppa Italia desta temporada


Javier Freitas, do Manchester Connection (ESPN FC)



Eu, sendo o Tévez, ficaria mais uma temporada na Europa. O cara tem 31 anos mas tá jogando como se tivesse 27. Talvez seja o melhor Tevez desde a época do Corinthians. Dá pra queimar mais um ou dois anos na Europa antes de voltar pra Argentina tranquilamente.



Fernando Faro, repórter do "Estado de S. Paulo"



Carlitos talvez concorra com Hazard ao título de melhor jogador (humano) de futebol da temporada. Fez chover com a Juventus e é um dos responsáveis por levar a Velha Senhora de volta ao protagonismo europeu e ainda parece ter mais um ou dois anos de alto nível na Europa, mas parece disposto mesmo a voltar para onde tudo começou e enfrentar todos os imensos problemas do futebol sul-americano apenas para estar perto da família e jogar bola no "quintal de casa".


Conquistar o mundo definitivamente não parece ser uma ambição para Tévez, que sempre gravitou em alguns dos principais clubes do mundo, conquistou a torcida pelo seu jeito raçudo, mas nunca hesitou em partir para novas empreitadas. Deixar Turim para encarar La Boca, portanto, passa longe de ser um absurdo quando observada de perto a carreira do argentino.


Se o futebol europeu perde um expoente, talvez Carlitos possa ser o embrião de uma geração de atletas que voltem aos seus clubes de coração não apenas em fim de carreira para cumprir velhas promessas, mas que sejam aportes técnicos e táticos de qualidade. O são-paulino sentiu um pouco disso com Kaká (já em declínio técnico, mas que deu frutos em sua passagem meteórica no Morumbi), mas quem sabe Tévez não possa ser o exemplo para quem tope abrir mão de milhões de euros para ajudar a desenvolver o futebol regional.



Gustavo Magnusson, do Canto Colchonero (ESPN FC)



Se eu fosse Carlitos Tévez, voltaria, sim, para o Boca Juniors mesmo depois daquela situação lamentável na Bombonera. Condeno totalmente o ocorrido, mas creio que o amor de Tévez pelos xeneizes transcende os limites da racionalidade. O Boca foi eliminado, sua torcida atirou spray de pimenta nos jogadores rivais e seu país tem um futebol cada vez mais usado por políticos, cada vez mais dominado por barra bravas e cada vez mais fraco tecnicamente. No entanto, o amor fala mais alto. Tévez faz sucesso na Europa, está em uma final de Champions League, ganha milhões, tem grande visibilidade e tem bastante lenha pra queimar ainda na Juventus. Mas seu desejo é voltar para o Boca, voltar para casa, lugar onde mais se sente bem para viver e jogar bola, mesmo depois de toda aquela selvageria e independentemente de como estiver o Boca.



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Tévez na última partida dele pelo Boca Juniors, em 2004


Marco Tucci, repórter do Diário de S. Paulo



Se eu fosse o Tévez, com certeza voltaria para o Boca Juniors.


Apesar do lamentável episódio no estádio La Bombonera, durante o clássico entre Boca e River, a Argentina é a casa de Carlitos e como diz o ditado "o bom filho à casa torna".


Ele é amado pela torcida da Juventus, mas já fez o bastante pelo clube europeu, conquistou títulos importantes e ganhou muito dinheiro. Se ele é ídolo na Itália, é quase um Deus na Argentina. Ele voltará para o bem do futebol sul-americano, que carece de grandes jogadores.



Benny Gesmundo, do Blog do Cruzeirense (ESPN FC)



Quando Tévez respondeu aos repórteres que vencer a Champions League seria tão fácil quanto ir ao Boca, muitos entenderam, ou quiseram entender errado. Nem mesmo a explicação, que veio logo em seguida, conseguiu abafar a "polêmica". No fundo, Tévez apenas quis dizer que sair da Juventus naquele momento seria tão dificil quanto vencer o maior torneio europeu. Mas nada disso adiantava mais. Suas palavras incautas já ecoavam pelo mundo, sugerindo uma nova novela a ser explorada e que agradaria aquela grande parcela de público que adora histórias românticas. A possível volta de Tevez ao Boca seria o resgate de um sonho de infância, a volta às origens, um conto que se bem explorado, venderia cliques!


Mas Tévez não é Adriano. Ele sabe que sua volta, por mais que a saudade bata forte, pode cobrar um preço salgado demais. Boca não tem grana para bancar seu retorno e ainda amarga uma situação delicada junto à Conmebol por conta das confusões no superclásico. E a proximidade com os antigos amigos de bairro podem tirar sua concentração, a exemplo de certos imperadores.


Tévez ainda tem muito cartucho a queimar na Europa. Há mercado para ele. E mais importante: há uma decisão de Champions para enfrentar! Neste momento seria arriscado demais perder tudo por um conto de fada.



E você? O que faria?