Maldito seja Pirlo e essa saudade que vamos sentir

Por Thiago Bonapace *


Um presente ao futebol.


Com esta frase podemos descrever o que foi ver tão de perto, com ainda mais afeto, Andrea Pirlo palestrando com os pés sobre a Arte chamada futebol pelos campos italianos e europeus com a camisa da Juventus. Confesso que no início fui cético, ora… Pirlo deixando o Milan e vindo para esta Juventus em construção? O que ele quer? Eu não havia percebido a fome que este calado líder ainda tinha.


Não teve erro. Começou da melhor forma possível: assistências precisas já no primeiro jogo oficial da temporada e no Juventus Stadium diante do Parma. As coisas foram crescendo de maneira colossal. As assistências e passes certeiros eram tão flagrantes e evidentes que o mais fervoroso ateu diria "Deus existe", como disse uma vez Buffon sobre o então companheiro não apenas de seleção mas de clube. O resultado foi o scudetto e festa em Turim, com direito a bebedeira intensa que rendeu risadas aos torcedores - como eu -, pois o tão sereno craque estava DE RESSACA.


Getty Images
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"Obrigado" de um lado e "de nada" do outro


A segunda temporada veio e com o adeus de Del Piero, Pirlo (de barba) comandou o time em muitos momentos, com atuações que atraíram os olhares europeus na volta da Juve à Liga dos Campeões e vitórias marcantes, como os 3 a 0 sobre o Chelsea.


Pirlo conseguiu de novo e seguiu com a sua nota favorita: as faltas. E foram muitas, além de mais um título da Serie A e a vinda para a Copa das Confederações, onde fez das suas no Maracanã e recebeu aplausos nossos. Mortais que viram a orquestra de um homem só, o Maestro.


Outro ano veio e Andrea se viu ao lado de um novo craque, Tévez. Pogba e Marchisio cresceram e Vidal se firmou como um top player na função, mas Pirlo era intocável. Conte não era doido de mudar e nem a gente de pedir, seja do estádio, do sofá ou de qualquer lugar. Pirlo estava lá e aquele toque perfeito, também.


#PirloIsNotImpressed era a campanha, mas a gente estava. Uma parábola perfeita contra o ponteiro do relógio e seu movimento, contra o Napoli. Meu Deus, que gol... Ele, o IMPARÁVEL, seguia encantando. A certeza de muitos era a perplexidade de outros. "Este é o melhor Pirlo, e no fim da carreira…".


O que mais me marcou foi justamente o gol daquela temporada, noutro jogo: em Gênova, no Marassi, estádio cheio de rivais e faltando um quarto de hora para o fim, com placar inalterado. Em lance bobo, pênalti de Vidal a favor do Genoa; Buffon defende e jogo segue. A torcida acredita. Falta. Era ele, o momento dele. Vai, Pirlo. Silenciosamente sabíamos que era gol.



Os genoveses vaiaram quando deveriam aplaudir a mais uma sinfonia daquele definido pelo narrador de rádio RAI, Francesco Repice, como Von Karajan, em referência ao maestro austríaco de grande destaque no pós-guerra, com 27 anos a frente da orquestra filarmônica de Berlim.


Gol de Pirlo e festa juventina com direito a recordes ao final de uma extraordinária temporada e 102 pontos na A. E quanto ao último ano, desculpe, mas só consigo me lembrar do tento contra o Torino aos 94 minutos de jogo. Não tenho como descrevê-lo, tanto que virou um adjetivo, um elogio dos mais belos que se pode dar a uma dama: "Tão bela, quanto um gol de Pirlo aos 94’”.


Talvez em seu subconsciente, Pirlo tenha dito à Senhora o quão bela ela era e, por ela, venceria o quarto scudetto. A temporada foi memorável com um doloroso até breve, mas a certeza daquilo que distingue também os gênios é saber o momento de parar - como Pavel Nedved, que de uma semana para a outra não era mais o mesmo e deixou-nos orfãos também do seu talento.


Como fez Andrea Pirlo, dos maiores que a Bota produziu, que criou a falta cobrada chamada de Maledetta, a Maldita.


Maldita, Andrea, é a saudade que sentiremos. Obrigado e nós estaremos para sempre impressionados com o que fizestes por nós.



* Thiago Bonapace é formado em Letras e fanático pela Juventus.