Vi, Vidal e Venci, mas agora segue o jogo


“Eu não ouço o chamado da Espanha e minha família está contente em Turim. Já repeti inúmeras vezes: sou feliz aqui” (março de 2014)


“As pessoas em Turim são bastante amigáveis e apaixonadas. Aqui é bem latino e se assemelha ao Chile. Eles me dizem ‘oi’ quando me encontram na rua. Ficaria em Turim o resto da minha vida por minha família e pelas pessoas que amo” (maio de 2015)


“A Juve provou que é um grande time. Quero jogar outra final de Champions com essa camisa no próximo ano” (junho de 2015)



Vidal foi íntegro desde o primeiro momento que pisou em Turim, quando escolheu a Juventus em vez do Bayern de Munique. Foram quatro anos de muitas alegrias com e para o chileno de Santiago: 7 títulos, 48 gols, 171 partidas e 2.540 horas destinadas ao uniforme preto e branco. Ele foi um dos responsáveis pela retomada da equipe dentro de campo, combalida após retornar da segunda divisão.


Getty Images
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Vidal ainda é um dos melhores do mundo na posição. Sorte do Bayern?


A temporada 2014-15 do todo-campista ainda foi aquém das anteriores, sobretudo 2013-14. A importância europeia de Vidal, com partidas exuberantes nas oitavas (Borussia Dortmund) e semifinais (Real Madrid), se sobrepôs às atuações na Serie A. O campeonato nacional bianconero foi protagonizado por Tévez, Bonucci, Marchisio e Buffon. O sul-americano não é o mesmo desde a lesão no joelho antes da Copa do Mundo de 2014, mas segue como um dos melhores de sua posição. São poucos os meio-campistas que têm as condições técnicas e atléticas similares às de Vidal. Ele é incansável, tem excelentes atributos ofensivos e é tão eficiente quanto como marcador.


A Juventus perde com a saída do chileno, porém, tem total capacidade de se adaptar ao momento. Khedira, assim, praticamente recebe a posição de titular que até outrora era disputada com Marchisio ou um terceiro atacante. O alemão é completamente capaz de fazer uma função semelhante - mesmo atabalhoado, o volante sabe finalizar; vide o gol contra a Grécia, na Euro 2012.


De liderança e comprometimento, a Juventus pode ficar tranquila com Khedira.



“Ele se tornou um verdadeiro líder no Real Madrid. Os fãs querem que os jogadores atuem como Messi, mas existe apenas um Messi. Khedira é aquele tipo de jogador que se sacrifica para o time. Atletas como ele são raros atualmente” (Franz Beckenbauer)



A transferência de Vidal ao Bayern de Munique não pode ser resumida em uma palavra. Ao trocar o Bayer pela Juventus, o presidente-executivo bávaro criticou a atitude do chileno. Para ele, o meio-campista não tinha as características necessárias para atuar na Allianz Arena; que Vidal não era um “homem de caráter”. O astro chileno, futuramente comandado por Josep Guardiola, ainda terá de se adaptar ao jogo cadenciado - o oposto do que viveu no Piemonte e presencia na seleção chilena de Sampaoli.


A venda, contudo, não foi feita em excelente hora, pois o diretor bianconero Giuseppe Marotta conseguiu um valor bastante parecido ao oferecido pelo Arsenal na última temporada - ou metade do proposto pelo Manchester United há 12 meses. Em príncipio, Vidal foi negociado por 37 milhões de euros (mais bônus de 3 milhões de euros). Existe uma diferença entre o valor que o atleta vale para o clube que está e quanto o outro está disposto a pagar. Imagino que a Juventus tenha pensado que a negociação precisava ser realizada de qualquer forma pelo atleta de 28 anos, com joelho baleado e que chamava encrenca extra-campo.


Divulgação/Juventus
Divulgação/Juventus

Espero que Khedira esteja preparado para ser muito feliz nesse estádio


Em outubro de 2014, Vidal foi multado após ficar na gandaia antes da partida contra a Roma. O técnico Massimiliano Allegri deu um chá de banco ao meio-campista na vitória por 3 a 2. Recentemente, ele esteve envolvido no famoso acidente automobilístico no Chile sob o efeito de álcool, que destruiu a Ferrari dele ao retornar à concentração da equipe durante disputa da Copa América.


Só não dá para precisar se Vidal cavou uma situação para sair da Juventus. As declarações confirmam que não; algumas ações, sim - mesmo que indiretamente. As motivações podem ser distintas, entretanto, as saídas de Pirlo e Vidal mostram que o quinto título consecutivo importa muito mais para os torcedores que para os jogadores.


O chileno tinha contrato até junho de 2017. A saída ao Bayern de Munique reforça o cofre da Juventus com uma economia de 10,5 milhões de euros em salário. No fim das contas, a Signora vai lucrar, no mínimo, 21,5 milhões de euros, pois pagou pouco mais de um terço do oferecido pelos bávaros ao Leverkusen, ainda em 2011.


O acréscimo financeiro será utilizado, com parcimônia, para reforçar a equipe, sim. As ideias são muitas, porém. Há quem diga que Alex Sandro, do Porto, seja uma das contratações vitais para substituir Evra no futuro e retornar Asamoah à posição de origem (meio de campo). Cuadrado, do Chelsea, só será especulado novamente caso Allegri admita a possibilidade de atuar no 4-3-3. Acho bem difícil.


É simples e natural que Marotta e seu escudeiro, Fabio Paratici, revertam a grana em um meio-campista cerebral. Oscar, Draxler e De Bruyne seriam as primeiras opções; Özil e Isco, logo atrás. A vantagem do jogador do Schalke 04, que tem contrato até 2018, é o preço - algo entre 15 e 20 milhões de euros. Dizem que a Juventus ofereceu 25 milhões de euros e Isla para contar com Felipe Anderson, da Lazio. O brasileiro estaria em uma posição melhor na minha lista por já estar adaptado ao campeonato em relação a Götze, possivelmente o pior entre os especulados - inclusive por ser mais atacante que trequartista.


A venda de Vidal também confirma que a Juventus está confiante na manutenção de Pogba até sabe se lá quando. E mais: é uma forma indireta de dizer ao jovem francês que ele é o novo protagonista. Além disso, mostra que tanto a direção como a comissão técnica estão satisfeitas com os potenciais dos reservas Sturaro e Pereyra.


De qualquer forma, os torcedores têm de estar muito gratos a Vidal pelo o que ele fez em terrenos italianos. Outros tão maiores passaram por lugares parecidos e também, um dia, saíram, como Michel Platini, Roberto Baggio, Gaetano Scirea, Antonio Cabrini e Alessandro Del Piero.


Getty Images
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Final da Liga dos Campeões foi o fim da parceria entre Vidal e Pirlo


Ninguém é maior que o clube. Aceita que dói menos. Agora segue o jogo.