Um indonésio para ser herdeiro de Buffon

A Juventus estava em preparação para enfrentar a forte Lazio no Olímpico no fim de semana. Na quarta-feira anterior, a goleada por 6 a 1 em Paris contra o PSG, em jogo válido pela Supercopa da Europa, animou ainda mais aqueles jogadores que, meses depois, seriam campeões na Itália. Do outro lado do mundo, Emil Audero Mulyadi foi um entre tantos os indonésios que nasceram naquele dia 18 de janeiro. Nenhum outro, todavia, seria contratado para atuar com a camisa bianconera.


Emil viveu apenas um ano na terra natal. A mãe, italiana, levou o filho de Mataram, capital da província de Nusa Tenggara Barat, ao Piemonte. Audero iniciou a carreira no futebol em um clube local de Cumiana, exatamente onde foi observado por Marco Roccati na temporada 2008-09. O péssimo ex-goleiro, à época, trabalhava como coordenador da posição na base da Juventus.


Divulgação/Juventus
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Audero segue alternando os treinos com os profissionais e jogos na equipe primavera


Tenho para mim que é difícil nascer goleiro. Ninguém em sã consciência quer ficar tomando bolada. É cruzamento na área e cotovelada na costela enquanto está no ar para interver na jogada. É dividida com atacante carniceiro; é uma falha que compromete um jogo ou um campeonato inteiro. Audero, pois bem, era ponta. O acaso o colocou no gol ainda em Cumiana e, por ventura, ele gostou de atuar entre as traves. Pode ser que a afinidade com a função tenha a ver com Buffon, pois a Copa do Mundo de 2006, para Audero, foi essencial no ajuste à posição.


Teve muito chão entre os primeiros treinamentos em Turim até se sentar no banco de reservas do Santiago Bernabéu durante a semifinal da Liga dos Campeões de 2015.


Como titular da equipe, conseguiu o prêmio de melhor goleiro na 31ª edição do Torneio Internacional Pier Giorgio Tappari, em Lucento, mesmo com a derrota nos pênaltis para a Atalanta na final de 2010-11. Meses depois, Audero voltou a conquistar o mesmo troféu individual noutra competição internacional, esta disputada na comuna de Cairo Montenotte. A diferença foi que a Juventus, desta vez, sagrou-se campeã.


O goleiro gosta de falar sobre a “longa jornada” nas poucas entrevistas que concedeu durante oito anos de clube. “Quando fui chamado para integrar a equipe Giovanissimi nazionali (sub-15) e recebi minha primeira convocação para atuar pela Itália, eu comecei a entender que chegaria ao topo se trabalhasse até o meu limite”, declarou ao site oficial da Juve.


O time treinado por Claudio Gabetta chegou à fase final pelo scudetto em Chianciano. As boas atuações, lembradas indiretamente por Audero, renderam vagas nos dois amistosos da Squadra Azzurra Sub-15 contra a Bélgica. Ele ainda foi chamado para a sub-16 para substituir Nicholas Lentini, do Torino, que se machucou às vésperas da partida contra a Escócia.


Getty Images
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Goleiro participa de amistoso internacional sub-17 entre Itália e Hungria


Quando comandado por Fabio Grosso na equipe primavera (a partir de 2013-14), Audero era como um líder em campo. Dos atributos destacam a comunicação com os outros jogadores, ótimo posicionamento e envergadura - contemplada pelos quase 2 m de altura aos 19 anos. Essa liderança, contudo, foi conquistada ao longo da temporada. Audero chegou ao time primavera para substituir Laurentiu Branescu, romeno que eu jurava que teria chances reais na equipe de cima.


O ítalo-indonésio jogou a Uefa Youth League ao lado dos melhores prospectos da Juve nos últimos anos, como Anastasios Donis (atualmente emprestado ao Lugano), Vykintas Slivka (Den Bosch) e Younes Bnou-Marzuk (Westerlo) e principalmente Filippo Romagna. Na competição, ele sofreu 14 gols em nove partidas. Nos torneios nacionais, contudo, o jovem grandalhão foi o reserva imediato de Gianmarco Vannucchi, dois anos mais velho. A saída dele e de Leonardo Citti, nascido em 95, abriram caminho para a titularidade indiscutível no ano seguinte no Campeonato Italiano, Copa e Europeu.


Os treinamentos com o time de cima auxiliam Audero desde 2012, quando o técnico Antonio Conte o convidou para aprender com os profissionais. As movimentações em campo, métodos de exercícios e jeitos de atacar a bola para fazer uma defesa foram aprimoradas ao lado de Rubinho e Storari. “Talvez atrás de todas essas coisas que são naturais para mim, tem muita cópia de Buffon”, disse o fã-jogador que esteve com o elenco italiano durante o Mundial Sub-17 nos Emirados Árabes Unidos, no ano seguinte.


Audero já conseguiu um feito inédito, uma vez que é o primeiro atleta nascido na Indonésia a atuar pela Juventus. O segundo, tão grandioso quanto, seria agarrar a posição de terceiro goleiro do time principal. Ele seria - mas Rubinho, no último momento, renovou o contrato para mais um ano.


Divulgação/Juventus
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Audero defendeu essa, mas não salvou o pênalti de Wohlgemuth no último minuto. Resultado: Copenhagen 2-2 Juventus, na Uefa Youth League 2013-14


Desde agosto de 2001, quando Buffon foi contratado junto ao Parma, somente sete goleiros entraram em campo com o uniforme bianconero. Em ordem descrescente de presenças, Storari, Alex Manninger, Antonio Chimenti, Christian Abbiati, Fabian Carini, Antonio Mirante e Rubinho participaram das partidas nestes 14 anos - destes, apenas Mirante foi formado no vivaio da Juve.


Nas últimas cinco temporadas, as categorias de base formaram Carlo Pinsoglio, Marco Constantino, Timothy Nocchi e os citados Branescu e Citti. Nenhum teve uma chance tão boa quanto Audero. Definitivamente este rapaz não vai deixar escapar a oportunidade de ser o herdeiro de Buffon.