O clássico da demissão de Allegri

O título é somente uma referência extrema. Uma forma de encarar as derrotas da Juventus no campeonato nacional como se fosse no Brasil, a terra do futebol que troca treinador como se fosse mais uma peça de roupa, fedida, após um longo dia de trabalho quando nem mais o desodorante dá conta. Falando em extremismo, o que dizer do São Paulo, que só não dispensou Doriva após a eliminação contra o Santos para não piorar ainda mais a situação do clube?


Não precisa de muito para ser demitido por essas bandas. Não está de acordo com as diretrizes? Rua. O time joga bonito, mas perde? Vaza. Que se foda o planejamento… Calma… Qual planejamento?


O número de técnicos demitidos na elite do futebol italiano tem diminuído. Em 2013-14, 25 treinadores pegaram o boné antes do fim do vínculo previamente acordado, encabeçados por quatro mudanças de Catania e Livorno. No ano passado, o número caiu drasticamente para 12, sendo que quatro foram do Cagliari. Nesta temporada, os rebaixáveis Carpi e Bologna já fizeram suas vítimas com as demissões de Fabrizio Castori e Delio Rossi, respectivamente.


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Pura aflição no semblante allegriano


Dito isso, Allegri está com um pé fora de Vinovo? Talvez. Há quem diga que os resultados no clássico contra o Torino, Borussia Monchengladbach e Empoli, que precedem às datas internacionais, decidirão o futuro dele em bianconero.


A derrota para o Sassuolo foi mais que um acaso. A Juventus atuou bem contra a Atalanta e simplesmente esqueceu de jogar bola no primeiro tempo no Mapei Stadium. Tudo foi potencializado pela arbitragem desastrosa de Gervasoni. Nas faltas para a Juve, a barreira ficava entre um e dois metros à frente do limite. O oposto foi realizado nas infrações para o Sassuolo, como pode ser visto no gol de Sansone - e que cobrança bonita, diga-se. (Em tempo: esse espaço além do recomendado também foi visto em outro golaço sofrido pela equipe, de Pjanic, ante a Roma).


Um lance bastante discutível de Peluso em Sturaro logo no minuto inicial dentro da área neroverde, o cartão amarelo de Chiellini, a não expulsão de Berardi por antijogo e a completa omissão quando Astori agrediu Dybala com uma cotovelada a poucos metros da fuça de Gervasoni. A arbitragem foi extremamente falha na Emília-Romanha até uma postagem que não passou desapercebida no Instagram da irmã de Gervasoni. Daí passou a ser malandra.


Convenhamos que não é uma atitude normal que uma romanista próxima ao árbitro escreva #juvemerda #grandissimoGerva #amoredellacasa #godimento na foto da expulsão de Chiello. A Associação de Árbitros da Itália ainda se escondeu atrás de um suposto ataque hacker, o novo “foi meu primo”, para justificar a ação dela.


Só que a Juventus não vai reclamar da arbitragem. Está enraizado na cultura bianconera não reclamar de terceiros para justificar os próprios erros.



“Uma marcação errada da arbitragem não pode se tornar álibi. Isso é a natureza dos perdedores. Na Juventus, não temos uma mentalidade de perdedores. Temos de começar a protestar menos contra os árbitros e ser mais humildes consigo mesmo” (Gianluigi Buffon)



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Conte-me mais sobre esse cartão vermelho, Gervasoni


Tenho minhas próprias birras contra Evra dentro de campo, principalmente porque vejo que ele está bem distante daquele que destruía pela esquerda do Manchester United. O francês tem pouco mais de um ano, mas já compreendeu o que é usar a camisa listrada ao indicar que existem jogadores no elenco que não estão conscientes da situação do clube e não são responsáveis. Esta foi a razão, segundo o lateral-esquerdo, de antecipar a concentração para o clássico.



“O clube acha que é importante que alguns atletas entendam a importância da camisa da Juventus. Estamos jogando fora a chance de vencer mais um campeonato. A mensagem para meus companheiros é clara: temos de respeitar essa camisa” (Patrice Evra)



A atitude de Evra mostra que ele está entre os jogadores mais preocupados do atual elenco. Compreende, também, a força do experiente francês dentro do vestiário. O medo de Evra para a partida contra o Torino era exatamente enfrentar Bruno Peres nas mesmas condições do último clássico, quando foi criticado após o lindíssimo gol do brasileiro. Não deu.


Allegri não tem culpa dos cruzamentos errados de Alex Sandro, dos domínios bizarros de Mandzukic, das 14 lesões musculares até novembro, da falta de um lateral-direito na ausência de Lichtsteiner porque Cáceres fica brincando de bate-bate com a Ferrari e das decisões equivocadas de Pogba - chuta, passa ou dribla?


O técnico somente lamenta o departamento médico sempre com presentes porque os atletas não estavam acostumados a retornar de férias mais cedo e treinar no verão em Vinovo. Segundo o ex-atacante Marco Tardelli, a escolha foi errada, uma vez que os jogadores costumavam se preparar no clima mais gelado das montanhas.


Se a equipe vitoriosa aliava competência e sorte, a última deixou o Piemonte em 2015-16. As lesões, as bolas na trave e os gols sofridos nas primeiras finalizações dos adversários têm complicado a Juventus na Serie A - Udinese, Frosinone, Chievo e Sassuolo mandam saudações.


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Essa cena tem se tornado cada vez mais rara


Por outro lado, o treinador tem culpa, sim, nas questões que tangem o pré-jogo. O time jogou muito bem contra a Atalanta no 4-3-1-2. Três dias depois, mudou novamente o esquema para três zagueiros, descansou Khedira exatamente quando não tinha Marchisio, vítima do zagueiro Resfriado, e viu o time fazer um dos piores primeiros tempos da temporada. As melhores apresentações da equipe na temporada foram realizadas com o alemão em campo. 


Durante as partidas, a tática juventina é mutável. Completamente normal, afinal. O que não é natural é a completa bagunça e falta de metodologia para formar uma equipe consistente durante 90 e tantos minutos. Seja no 4-3-3, 4-4-2, 5-4-1, WM ou o raio que o parta; não existe mais a maturidade do elenco tetracampeão italiano. Falta agressividade e atenção; sobra posses cedidas, individualismo e vontade de achar um novo Tevez.


Em quatro meses, Maurizio Sarri e Paulo Sousa deram novas caras respectivamente a Napoli e Fiorentina - mesmo que a Viola tenha caído de desempenho nas duas últimas rodadas. Na Alemanha, Thomas Tuchel mantém o Borussia Dortmund desesperadamente na cola do Bayern de Munique, líder.


A Juventus começou a compreender somente agora que a concorrência nacional subiu, pelo menos, três degraus. Acima de todos, Rudi Garcia continua com um trabalho super positivo com a Roma. 


O próximo degrau da Juve é unicamente a 11ª colocação. E com Allegri, queiram ou não.