A vice Juventus: a supremacia holandesa em 1973

Bater na trave na última temporada foi apenas mais um dia comum na Juventus. Não existe outro time com seis vices da Liga dos Campeões além da Velha Senhora. O clube italiano é o maior perdedor de finais da principal competição europeia - acompanhado de perto por Bayern de Munique e Benfica, vale frisar.


Na última temporada, Morata tentou dar uma sobrevida, mas não deu para os bianconeros. A derrota para o Barcelona marcou o fim da primeira era vencedora após Calciopoli, com as saídas dos três pilares da reconstrução dentro de campo: Andrea Pirlo, Arturo Vidal e Carlos Tévez.


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Falta grandeza? Os 33 títulos nacionais acabam com essa questão infundada.


Falta sorte? Apenas se você acreditar que essa força e a oposta atuam lado a lado em um campo de futebol.


Falta maturidade? Competência, quiçá?


A ideia desta série de artigos é mostrar por que ou como a Juventus saiu derrotada nos seis confrontos derradeiros do grande campeonato do Velho Continente.


A começar por Belgrado...


Ajax 1 x 0 Juventus


Não tinha como outra equipe vencer a primeira final no Leste Europeu, em 1972-73. O Ajax era franco-favorito para o título e o conquistou de forma soberana no Marakana. Os holandeses, atuais bicampeões da Europa, decidiriam o caneco contra um time extremamente defensivo.


Cor Mulder
Cor Mulder

Único momento no Marakana em que a Juventus se igualou ao Ajax


A Juventus estreava em finais continentais com o ídolo Giampiero Boniperti na presidência do clube. O scudetto em 1972 fez com que o time tirasse dois jogadores importantes do Napoli: Dino Zoff e Altafini. O último tinha sido contratado para atuar ao lado de Pietro Anastasi, transferência recorde de 650 milhões de liras (335 mil euros) junto a Varese em 1968. Os dois atacantes, além de Roberto Bettega, estavam em excelente forma para a decisão.


Chegar ao jogo derradeiro, porém, elevou a confiança do então campeão nacional, que passou raspando pelo Magdeburg, na segunda fase, e eliminou o Újpesti Dózsa, na Hungria, pelo gol fora de casa. Ante o Derby County de Brian Clough, a Juventus só não caiu no péssimo gramado do Baseball Ground pelos erros da equipe inglesa: Alan Hinton perdeu pênalti, Colin Todd errou gol feito e John O’Hare parou em Zoff.


Um fato bastante interessante da segunda partida da semifinal foi que Dezso Solti, que trabalhou como agente para a Inter na década de 1960, viajou para Portugal a pedido da Juventus para oferecer 5 mil dólares e um carro ao árbitro Francisco Marques Lobo. O português rejeitou a investida, contou à Uefa e nunca mais apitou uma partida do campeonato (!). Nenhuma sanção foi imposta à Juventus porque, de acordo com as investigações da entidade, o clube não tinha qualquer ligação com Solti. O húngaro famoso por manipular resultados de jogos foi banido do futebol.


Cor Mulder
Cor Mulder

Das poucas vezes que o goleiro Stuy foi incomodado durante 90 minutos


O técnico Cestmír Vycpálek montou uma programação para os dias que antecederam a final. A Juventus chegou à Iugoslávia antes do rival para fazer a preparação completa. A família Agnelli, que investia o clube, acreditava que o tcheco tinha a competência necessária para levar aqueles atletas ao título europeu. Ainda mais porque os selecionáveis da Itália - Zoff, Franco Causio e Fabio Capello - também vinham de boas apresentações.


Do outro lado, os jogadores do Ajax apareceram em Belgrado com as esposas ou namoradas. Tensão não fazia parte do vocabulário do elenco, que dominou todas as ações dentro de campo a partir do minuto 4 do primeiro tempo. Segundos mais tarde, Johnny Rep, o único jogador dos Godenzonen que debutava em finais, venceu Gianpietro Marchetti no alto e escorou o cruzamento de Horst Blankenburg.


O quarto-zagueiro foi um dos principais problemas para a equipe de Vycpálek. O futebol total dos holandeses permitia a incursão de Blankenburg ao ataque como elemento surpresa. De resto, durante os outros 85 minutos, o panorama permaneceu igual: posse de bola holandesa e sofrimento bianconero. Principalmente pela agilidade, mobilidade e inteligência de Johan Cruyff, que estava em todos os lugares e criando para basicamente todos os companheiros.


Ajax 1972-73 vs Juventus 1972-73 - UEFA Champions League - Football tactics and formations


Cestmír Vycpálek ainda deu liberdade ofensiva para Causio, Anastasi e Altafini, mas a Juventus não ofereceu perigo em contra-ataques ao gol defendido por Heinz Stuy. A vitória não foi mais ampla porque Bernardus Hulshoff parou no travessão e Gerardus Mühren perdeu a chance em assistência linda de Cruyff.


Os bianconeros, então, assistiram dentro de campo ao ápice do Grande Ajax. A partida não foi um primor, mas mostrou a supremacia do único clube que bateria de frente com o Real Madrid da década anterior pelo título de melhor equipe do mundo.