As outras promessas da Juve e por que elas podem falhar

No meio do ano, Andrea Agnelli, Giuseppe Marotta e Fabio Paratici completam seis anos de Juventus. Naquela primeira temporada da nova diretoria, eles disseram que o plano bianconero era tornar as categorias de base novamente frutíferas para o time principal. Dos milhões investidos em meia década, nenhum jogador formado pelo clube conseguiu subir e permanecer entre os profissionais.


Não foram poucos os que tentaram: os zagueiros Vittorio Ferrero e Alberto Masi, o volante Manuel Giandonato, os trequartistas Filippo Boniperti e Leonardo Spinazzola, o meia Fausto Rossi e o atacante Davide Lanzafame. Os casos mais emblemáticos - e opostos - são os de Luca Marrone, volante formado em Vinovo, mas que não se garantiu em Turim, e Frederik Sorensen e a nova leva de jovens que preenchem o elenco de 2016. O dinamarquês, juntamente com Paul Pogba, Stefano Sturaro, Alvaro Morata e Paulo Dybala, foram instruídos por outros clubes.


Logicamente ainda existe a esperança que os bons prospectos alcancem uma vaga na equipe principal. No grupo primavera (sub-19), treinado pelo ex-lateral Fabio Grosso, quatro atletas se sobressaem ao restante: Emil Audero, Filippo Romagna, Luca Clemenza e Andrea Favilli. Por participarem apenas das partidas dos juvenis, nenhum desses atletas integram lista das melhores promessas europeias. Romagna e Clemenza, contudo, deveriam.


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Clemenza é um dos poucos ótimos trequartistas que seguem em formação no Belpaese


Romagna, volante transformado em zagueiro, capitaneia a equipe sub-19 de Grosso. O ex-zagueiro e lateral Gianluca Pessotto convenceu o jovem e Alessandro, o pai dele, a recusarem a proposta da Inter. Diz o garoto que ele se apaixonou por Turim e pela estrutura do centro de treinamento para os moleques. No ano seguinte, o treinador Marco Baroni colocou Romagna para atuar na equipe primavera apesar dele ter três anos a menos que o limite máximo da categoria. A razão? O técnico adorava como o defensor conseguia ler o jogo de forma rápida - e correta -, e se antecipar às ações rivais.


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Clemenza, por sua vez, é uma figura ímpar no futebol italiano. É cada vez mais difícil encontrar um trequartista - um armador decente, então… Luca é o atleta fora da caixinha, de técnica extremamente refinada e um pé esquerdo 99% anjo e 1% vagabundo. Em 2015-16, o atleta soma 11 gols em 21 partidas. Entre os amigos de primavera, ele só perde para Andrea Favilli. Aos 19 anos, o atacante titular - e também da Squadra Azzurra - é enaltecido pela capacidade física e faro de gol. O jovem conseguiu a primeira convocação para a equipe titular exatamente neste fim de semana, contra o Chievo, cinco dias após marcar um golaço no clássico contra o Torino Primavera.


É possível destacar da mesma equipe Pol Mikel Lirola, lateral-direito espanhol. O ex-capitão da base do Espanyol é outro titular indiscutível com Grosso por conta das características defensivas e físicas. O zagueiro Blanco Moreno tem cinco meses para impressionar Massimiliano Allegri e comissão técnica, pois ele atingirá a data limite da camada. O italiano pode ser conhecido como um dos atletas promissores da franquia Fifa (2015 e 2016); em campo, ele ainda se mostra meio atabalhoado - ao todo, soma quatro amarelos em 19 partidas.


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Líder no sub-17, Romagna ainda não conseguiu a faixa de capitão da Squadra Azzurra Sub-19, mas é titular na seleção


Enquanto o argentino Guido Vadalà têm certas complicações para se firmar na rotação do primavera, um atacante mais novo tem feito a festa pelos Allievi Nazionale (sub-17). Moise Kean, um grandalhão de 1,82 m que completa 16 anos em fevereiro, impressiona na equipe montada pelo técnico Felice Tufano. As comparações realizadas pela imprensa italiana fazem sentido. Kean tem muito de Balotelli em si: eles têm movimentos parecidos, incrível capacidade de finalização (são 15 gols em 14 partidas) e um ego inflado potencializado pelo mesmo agente, Mino Raiola.


No mesmo grupo de Kean, o pilar defensivo se chama Edoardo Bianchi. Desde 2013 na Juventus, o jovem dominou a zaga completamente mesmo sem a presença do regular companheiro Gianmaria Zanandrea, lesionado no início da época. Guardadas as devidas proporções, Bianchi é o Romagna do sub-17. Entre os selecionáveis de Tufano, o que veste a camisa bianconera por mais tempo é Giuseppe Sapone. Com seis anos de casa, o regista dita o ritmo da equipe e é bastante visado para representar o Primavera na próxima temporada - sobretudo pela falta de um jogador com características semelhantes no elenco comandado por Grosso.


Descendo mais uma categoria, os Giovanissimi Nazionali (sub-15) têm dois jogadores bastante promissores. Apesar do instinto goleador do guineano Ibrahima Diallo, os destaques são o meio-campista Giuseppe Leone e o trequartista Nicolò Fagioli, este último contratado junto a Cremonese em agosto último.


Falta de competitividade ajuda na queda de potencial


Trazendo ao tangível, sabemos como a formação dos jogadores no Brasil é aquém do desejável. No âmbito social, clubes não ajudam a estruturar cidadãos; no futebol, a transição dos atletas aos profissionais é horrenda - pelos dirigentes que falham ao coordenar o processo entre categorias e pelos treinadores sem coragem. O Fluminense entende que a formação do jogador acontece até os 20 anos; o Atlético-PR, até os 23. Na Itália, a idade pode ser ainda mais alta.


Os técnicos do Belpaese até são mais atrevidos que os brasileiros. O que acontece é a falta de competitividade do atual Campionato Primavera. O formato deste torneio não ajuda com que o atleta produza o máximo dele a cada partida. A maioria das equipes do torneio nacional, além da Coppa Italia, produzem jogadores que não chegarão à Serie B no pico das respectivas carreiras. Não à toa as principais competições do ano são a tradicional Viareggio, que conta com equipes internacionais, e a Liga Jovem da UEFA.


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Toda a felicidade do neto do lendário Giampiero Boniperti ao assinar com o Parma


Agnelli, Marotta e Paratici queriam que a Juventus tivesse uma base parecida com a do Barcelona, mas como isso é possível se os espanhóis tem o time B em um campeonato profissional? A Federação Italiana aprovou a reforma das competições juvenis em julho de 2015. O novo calendário dos jovens entra em vigor somente em 2016-17 com mudança nas categorias allievi e giovanissimi: haverá um campeonato nacional de primeira e segunda divisão, além da criação de um torneio sub-16.


A premissa da FIGC é iniciar a melhora do Primavera a partir das categorias que dão acesso pessoal à última etapa de evolução antes de chegar aos profissionais. Para a Juventus, em específico, é a oportunidade para não acontecer um novo Luca Marrone, que aos 25 anos ainda custa a conseguir espaço por onde atua (Sassuolo, Carpi ou Verona).


Devido aos problemas apresentados, as principais bases da Itália (Juventus, Inter, Genoa, Empoli e Sampdoria) emprestam jovens atletas aos clubes da segunda ou terceira divisão. É o caso de Mattia Vitale, promissor meio-campista nascido em 1997, que estreou pelo time A bianconero na última temporada, mas voltou ao Primavera e foi repassado ao Virtus Lanciano. Vajebah Sakor e Anastasios Donis têm um ano a mais que o ex-companheiro emprestado e seguem com dificuldades para jogar entre os adultos no Westerlo, da Bélgica, e Lugano, da Suíça, respectivamente.


De longe, sigo na torcida por Romagna e, sobretudo, Clemenza. Qualidade existe. E paciência? Ah, e tem Rolando Mandragora também