Quem esperava equilíbrio se decepcionou: o City foi engolido pelo Liverpool

O filme não é exatamente novo: o City mostrou mais uma vez sua pior versão na temporada indo ao Anfield enfrentar o Liverpool. Nesta quarta-feira (4), a derrota por 3 a 0 foi mais fiel à realidade dos fatos que aquele 4 a 3 pela Premier League.


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Para esta partida de ida das quartas da Champions, Pep apostou numa formação mais conservadora que o de costume, abrindo mão da escalação de um winger e promovendo a entrada de Gündogan no onze inicial para tentar ter um controle maior sobre o adversário na faixa central do campo, já que contaria também com David Silva e De Bruyne naquele setor além do próprio alemão.


Nos primeiros dez minutos de jogo, a estratégia até que dava certo resultado. O City mantinha a posse de bola, enquanto o Liverpool se fechava em seu campo defensivo com duas linhas de quatro muito bem postadas – o que naturalmente inviabilizou qualquer investida mais contundente do City de arrematar à meta de Karius.


O problema em enfrentar um time intenso como o Liverpool é que em um único momento de desorganização você pode ser punido por isso. À medida que o City trocava passes no campo do Liverpool, mais o time avançava, e consequentemente mais espaço deixava em seu sistema defensivo.


Com exceção de Messi e Cristiano Ronaldo, Salah é provavelmente o jogador mais letal do mundo hoje. Se você permite que ele dispare a toda velocidade em direção ao seu gol, a chance de terminar com o tento sofrido é muito grande – ainda que seja válido o registro de que o egípcio se encontrava em posição irregular no momento do passe.


A partir disso, a coisa degringolou de tal maneira para o City que é até difícil encontrar qualquer explicação. Entre o primeiro e o terceiro gol, passaram-se apenas vinte minutos e, como bem se sabe, o futebol não costuma perdoar esse tipo de apagão em jogos de mata-mata. Além disso, parece até bastante justo dizer que se não fosse por algumas intervenções providenciais feitas por Fernandinho e Laporte ainda na primeira etapa, o prejuízo poderia ser ainda maior à essa altura.


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O chutaço que Chamberlain acertou era um sinal claro de que nada daria certo pro City hoje


No primeiro tempo, o que se viu foi um Liverpool fazendo o jogo da vida, com sangue nos olhos, face a um City completamente atordoado e sem ter a menor ideia do que fazer não só para esboçar uma reação, mas sequer para sair das cordas da verdadeira surra que tomava nos 45 minutos iniciais.


Uma boa prova de que o City não tinha um plano a ser executado em caso de uma catástrofe como se viu hoje, é que a formação escolhida por Pep se mostrou bastante ineficiente. O time estava completamente torto para o lado esquerdo, já que Gündogan não apoiava o ataque pelo lado direito, e também não dava o suporte necessário para Walker no sistema defensivo. Como consequência disso, toda hora o time lançava Sané na ponta esquerda em velocidade. Não obstante, a jogada ficou manjada em pouquíssimo tempo e quase sempre era neutralizada com sucesso pela defesa do Liverpool – especialmente por Alexander-Arnold, que fez uma partida a ser aplaudida de pé.


Aliás, ainda falando em laterais-direitos, cumpre mencionar que Walker, que já coleciona alguns gols sofridos em sua conta na temporada, teve uma atuação tenebrosa nesta quarta-feira em Anfield – a começar pela incapacidade de tirar a bola da área no lance do primeiro gol.
Se de alguma forma serve como consolo, ainda no primeiro tempo time e treinador pareceram entender o que estava acontecendo de errado, ao passo que Gündogan foi deslocado para fazer a função inicialmente desempenhada por De Bruyne, enquanto o belga passou a ser uma opção ofensiva pelo lado direito.



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No segundo tempo o jogo foi outro. O Liverpool parecia bastante satisfeito com a vantagem construída no início e nem haveria como ser diferente. Toda aquela pressão e intensidade vistas no primeiro tempo por parte do time de Klopp viraram um time fechado e mais comprometido em não sofrer gol na etapa complementar.


Por outro lado, o City sabe que mesmo estando tão atrás no marcador, se trata de um confronto de 180 minutos, e que um gol fora de casa poderia mudar completamente o panorama do jogo – o que explica a postura do time na volta do intervalo. Era como se o primeiro tempo não tivesse existido e o jogo estivesse 3 a 0.


Mas como eu disse logo acima, o Liverpool voltou muito mais comprometido a não ceder espaços em seu campo defensivo e, como consequência disso, mais uma vez o City sofreu muito para criar chances reais de gol – se é que realmente o fez. Questão de ponto de vista.


De modo geral, colocar o resultado na conta do impedimento de Salah no primeiro gol ou de um suposto pênalti não marcado para o City já no segundo tempo é algo menor, assim como botar na conta do peso na camisa. É claro que o Liverpool tem muito mais história, mas condicionar um resultado desses apenas a isso é menosprezar o trabalho feito por Klopp e seus comandados nessa quarta-feira.


Deixar de acreditar e dizer que o City esta eliminado à essa altura também parece precoce e, de certa forma, leviano. Por tudo o que vimos ao longo da temporada, sabemos que o City tem plenas condições de reverter o placar e, no mínimo, levar a disputa para a prorrogação – ainda que a missão da próxima terça seja complicadíssima.


De qualquer maneira, para tanto, o City precisará ser muito diferente do que se viu hoje. Precisará ser o time que dominou o United em Old Trafford, que doutrinou o Chelsea em Stamford Bridge e no Etihad, e não o time que foi duas vezes ao Anfield e saiu de lá com sete gols nas costas.


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