Bernardo Silva e o jogo intuitivo: outra arma para Guardiola

O futebol está em constante repaginação. Após a última Champions League, agora a Copa do Mundo também tem nos mostrado como um jogo mais intenso pode lhe produzir vantagens decisivas caso você tenha os jogadores certos para tal. É possível dominar o caos. O futebol sempre vai achando respostas para as tendências que vão surgindo.


Mas isso não quer dizer que o “futebol mudou”, ou que algum estilo de jogo está ultrapassado. São simplesmente ciclos que vão se colidindo a partir das respostas que vão sendo encontradas. Jogo posicional não é errado. Privilegiar a circulação de bola também não. Jogar a partir de racionalização dos espaços também não. Tudo depende do contexto e da execução – e essa diversidade é necessária.


Um tema que vem sido discutido ultimamente é sobre o papel dos pontas no futebol. Devem esperar a bola pregados à linha lateral ou podem participar da construção por dentro? O time criar para eles ou eles criarem para o time? Parece que se aposta menos na intuição dos jogadores – não apenas os que jogam no lado do campo. Mas o imaginário ainda tem sua potência no futebol: olhe para a Copa do Mundo que faz Juan Quintero, um meia puro de conduções e passes surpreendentes. Como dito, tudo depende do contexto. Você não pode pegar um jogador como Quintero e pautar suas jogadas – sua capacidade de criação deve ser o ponto de partida para a solução de problemas.


No City, há uma mescla de estilos. De Bruyne tem liberdade total para percorrer o campo inteiro: participa da saída de bola, se desloca na direita, se associa na esquerda, enquanto Sané se mantém mais preso no lado do campo. Sterling intercala movimentos interiores durante a troca de passes, mas sempre atento para entrar na área e finalizar. Aqui, entra a discussão central do texto: Bernardo Silva.


Man City
Man City

Bernardo Silva é talvez o jogador mais habilidoso do elenco


O meia português de 23 anos chegou cercado de muita expectativa. Desfilava pelos gramados da França com o Mônaco com uma técnica invejável. Chegou no City e demorou um pouco para se adaptar. Na ponta direita, pegava a bola e cortava para dentro, mas não era a mesma coisa. O sistema do City funcionava de outra forma e não ajudava seus movimentos, não abria espaços para sua imaginação – Bernardo era apenas uma engrenagem da máquina. Com o tempo, melhorou: passou a somar bastante, inclusive gols e assistências, se mostrando ser confiável no caso de algum desfalque. Acima de tudo, mostrou personalidade também em grandes jogos, chamando o jogo mais que referências do elenco. Mas aquela segurança que poderia lhe credenciar a uma titularidade nunca chegou, mas a partir de 18/19 ele tem que lutar mais para que ela chegue.


Guardiola é visto por muitos como um treinador ortodoxo. Sua força social é tanta que deixou alguns estigmas falsos por aí. Sua trajetória na verdade é marcada por se adaptar ao contexto, aproveitar debilidades e extrair o máximo de jogadores. Talvez seja o momento de privilegiar Bernardo Silva, Pep. Mas como dar protagonismo ao português com Sterling sendo tão importante? Com Mahrez chegando? Com Sané em crescente? Pois é, difícil.


Bernardo Silva não fez boa Copa do Mundo, mas nos brindou com uma excelente atuação contra o Uruguai na eliminação portuguesa. Chamou o jogo, lutou, brigou, driblou, criou. Saiu da ponta, veio para dentro, recuou. Enfim, ele tentou. Quando não está na quina da grande área, todo movimento de Bernardo é imprevisível.


Apesar do contexto, parece que é possível sim usar Bernardo Silva como um meia por dentro. Essa é uma dúvida que já foi muito debatida entre os torcedores do City, mas caiu em esquecimento porque nem mesmo Guardiola cogitou essa formação. Mas agora é hora de repensar algumas coisas, pois uma nova temporada está por vir e não vamos jogar exatamente o mesmo futebol de 2017/18.


Apenas deixando claro que esse texto não tem a intenção de tirar David Silva do time titular. É só uma nova opção para Guardiola tentar crescer ainda mais um dos jogadores mais talentosos do elenco. No Mônaco, Bernardo chegou a ser o jogador com mais recuperações de bola no campo de ataque na liga francesa. Tem workrate, tem movimentação, tem agressividade – até demais. Para jogar nessa zona, talvez Bernardo devesse remediar um pouco mais seus movimentos para evitar alguns erros.


Mas aqui entram as concessões que Guardiola está disposto a fazer para ter jogadores de tal calibre em sua equipe. Bernardo pode errar muito, mas atletas de sua estirpe são os que tem a capacidade de resolver problemas que fogem do controle das instruções de um técnico. É o jogo intuitivo, a aposta no craque.


Hoje, o City funciona muito bem com Delph lateral-interior, Sané bem aberto, Sterling pela direita, Silva e De Bruyne com espaços por dentro. Mas mudanças devem sim acontecer: Mendy será como um novo reforço, o que pode influenciar no posicionamento de Sané e Sterling (tema para outro post); caso Mahrez realmente chegue, pode assumir a ponta direita e ser outro ponto de criatividade trazendo para dentro com sua canhota potente. A cada pequena mudança na característica dos jogadores, surgem novos mecanismos para explorá-los e compensações para diminuir desvantagens.


Cabe a Guardiola observar os contextos e continuar extraindo o melhor de cada jogador. Condicionar movimentos para achar aproveitar o melhor de alguns atletas ou desenvolver um sistema funcional com o imaginário dos jogadores sendo decisivo: as opções para ambos ele tem em mãos.


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