Nova temporada, novo City: mais protagonismo para os jogadores?

Apenas uma partida não chega a ser parâmetro para nada, ainda mais quando lembramos que alguns jogadores importantes ainda estavam fora do time titular ou sem o ritmo desejado. No entanto, os detalhes que vimos na estrutura do Manchester City diante do Arsenal no Emirates não podem passar despercebidos.


Apesar da campanha intocável que levou o clube ao título, aos 100 pontos e vários recordes, a receita para seguir alcançando o sucesso não é replicar exatamente a mesma coisa que foi feita. Como disse Guardiola em programa da Sky Sports: “temos que lembrar sim o que fizemos temporada passada, mas sempre há como melhorar. Os jogadores podem melhorar e isso reflete na equipe”.


Antes de entrar nas novas peculiaridades que o City apresentou nas últimas duas partidas, vamos relembrar como o City jogava em 2017/18 para compreender melhor essas mudanças e o ponto central desse texto.


De uma forma breve: além dos princípios tradicionais de Guardiola, alguns conceitos adaptados à Premier League. Os laterais criando superioridade por dentro para ajudar na circulação de bola, mas principalmente em um posicionamento ideal para ajudar na pressão pós-perda e proteger o time de contra-ataques. Sterling e Sané oferecendo amplitude pelos lados, com o primeiro tendo liberdade para pisar na área, já que os ataques geralmente eram finalizados pela esquerda. No meio-campo, De Bruyne tinha total liberdade em meio a esse contexto posicional, enquanto David Silva se posicionava mais adiantado para servir no terço final do gramado. Isso aconteceu, principalmente, porque Benjamin Mendy se lesionou. Falar agora é fácil, mas creio que no geral foi melhor para o time – seria impossível alcançar tanta consistência sem Fabian Delph.


Agora é 2018/2019 e, como mencionado, apesar do sucesso, pequenas coisas sempre terão que mudar. Para isso, Pep precisava de mais opções: ganhou Mendy, que é como uma nova contratação, Aymeric Laporte desde o início da temporada e Riyad Mahrez. Esses três jogadores, acompanhados da nova função para Bernardo Silva, como um meia, oferecem um novo leque de possibilidades para Guardiola.


Dito isso, podemos começar a falar do que vimos principalmente contra o Arsenal. Para começar, vamos falar sobre os laterais. Sem Fabian Delph, como Guardiola poderia compensar essa falta de maior consistência nos mecanismos do meio-campo? Algumas soluções para isso já apareceram no final da temporada passada e devem ser tendência agora. Kyle Walker, antes lateral mais preso, agora é basicamente um terceiro zagueiro pela direita. Assim, Laporte (canhoto) é o zagueiro da esquerda. Isso dá mais liberdade para Mendy, que se destaca na frente e tm problemas defensivos.


No entanto, Guardiola aproveita todo o incrível vigor físico de Walker e Mendy para que eles façam mais de uma função ao mesmo tempo. Walker é esse terceiro zagueiro, mas em determinados momentos faz ultrapassagem extremamente rápidas aproveitando os cortes para dentro de Mahrez. Na esquerda, o mesmo: Mendy começa criando superioridade por dentro, mas não tem no passe seu melhor fundamento, então a todo instante que é possível, faz a ultrapassagem por fora. Nesse caso, faz sentido ter Sterling pela esquerda, abrindo e se aproveitando dos espaços, o que, inclusive, resultou no primeiro gol em Londres.


Reprodução: SofaScore
Reprodução: SofaScore

Laporte cobre quase toda a esquerda por si


Reprodução: SofaScore
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Além de atacar por fora, Mendy oferece linha de passe por dentro


Observe nos mapas de calor como Mendy ocupa não apenas zonas laterais, mas soma por dentro em alguns momentos. Já Laporte se destaca por sua capacidade de cobrir mais espaço ali no setor, liberando o lateral francês – Otamendi não tem esse atributo. Assim, o City soma três jogadores na saída de bola, três jogadores pelo meio e um mais adiantado (o armador), além dos três homens de frente. O diferencial é que Walker e Mendy tem certa liberdade para fazerem ultrapassagens e oferecem mais opções no ataque, realizando mais de uma função ao mesmo tempo. É tudo muito híbrido, sendo quase impossível definir em uma numerologia básica (4-3-3, 3-3-1-3, etc).


Guardiola já disse também que algo que lhe preocupa é como furar times que jogam muito defensivamente, em um 5-4-1 contra o City. Em 17/18, os laterais não tinham tanta influência ofensivamente, o que parece mudar agora, fazendo com que se acumulem mais jogadores perto da área, resultando em maior poder de fogo. Ainda temos que ver como será a recomposição nesses casos, algo preocupante na Premier League.


Mas então, por que eu digo que talvez, nesse novo sistema, os jogadores sejam mais protagonistas e precisem ser mais independentes?


Quero dizer que, em 17/18, muita coisa que acontecia em campo era automatizada. Óbvio que nada aconteceria sem a inventividade de De Bruyne e David Silva, além da capacidade de 1v1 de Sané, mas tudo parecia muito bem pré-ordenado, o que resultava em vários gols semelhantes em que os atacantes precisavam apenas finalizar com um toque.


Agora, isso pode mudar um pouco, o que pode ser bom principalmente para esses casos onde a equipe vai enfrentar rivais extremamente fechados. Além do apoio dos laterais, os pontas do City precisarão criar soluções por si só ao cortar para dentro e encarar situações de drible, chute ou criação com uma visão de campo mais aberta. Antes, Sterling somava na troca de passes, enquanto Sané sempre recebia em superioridade dentro de um esquema quase que feito para ele brilhar. Agora, Mahrez chegou justamente para ser esse ponto de desequilíbrio, enquanto os jovens extremos precisam evoluir um pouco essa parte de seu jogo.


Como falei nesse texto sobre Bernardo Silva, o jogo intuitivo também faz parte do futebol. O treinador não precisa tentar controlar tudo que acontecerá em campo – precisa também mostrar fé em seus jogadores, desde que eles se mostrem acima da média.


Acredito que, desde que feita de uma forma cautelosa e sem expor a defesa, esse é o caminho certo para o City causar ainda mais problemas aos adversários. Poderemos trocar de sistema dentro de uma mesma partida sem trocar jogadores, só pela versatilidade dos mesmos. Há de se confirmar os detalhes finais dessa nova forma de jogar com De Bruyne em campo, mas a Premier League deve se preocupar em enfrentar um Shark Team ainda mais explosivo durante essa temporada.


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