Só os jogadores podem superar essa adversidade no City

É estranho falar isso agora justamente quando o belga está de volta, mas a temporada do City começou a sucumbir não apenas pelo desfalque de Fernandinho nos últimos jogos, mas por outros fatores, com o fato de não contar com seu melhor jogador, Kevin De Bruyne, por metade da temporada encabeçando essa lista.


Sim, em resultados e em atuações durante boa parte da temporada até aqui, a equipe se saiu bem sem Kevin, mas hora ou outra o time ia pagar o preço pela ausência de seu craque. Primeiro que ele é, talvez, o único jogador do elenco que não fica acolhido em adversidades e sim as encara como o grande jogador que é. Na derrota diante do Crystal Palace, por exemplo, a estratégia nos 10 minutos finais era tocar para KDB e esperar por suas mágicas – uma delas aconteceu e ele diminuiu o placar.


Enfim, essa falta de um jogador capaz de decidir os jogos ficou escancarada na partida contra o Chelsea. O primeiro tempo não foi dos piores, chegamos a dominar o jogo sem conceder chances aos blues, mas não foram criadas oportunidades a nosso favor. Muito pouco. Ali, problemas que já vinham acontecendo começaram a se virar uma bola de neve, que o resultado é esse de agora: sete pontos atrás do líder.


Sem De Bruyne, outra coisa aconteceu, mesmo nas grandes atuações: o jogo interior da equipe era quase nulo. A circulação de bola se baseava ainda mais em achar os pontas com vantagem sobre sua marcação para que as ações determinantes fossem tomadas no terço final. A questão é que esses mecanismos se tornaram viciados e hoje o que vemos é um City que abusa demais dos cruzamentos na área. E infelizmente não estou dizendo dos cruzamentos rasteiros de Sané e Sterling, que coroaram Aguero/Gabriel ou os próprios pontas durante meses, mas sim cruzamentos pelo alto que só ajudam a marcação adversária.


Bom, existem outros pontos que precisam ser lembrados. Primeiro: era ingenuidade pensar que o City repetiria os resultados da temporada passada. Foi algo totalmente fora da curva que quebrou todos os recordes da Premier League – dito isso, a pontuação que temos até agora não é ruim, mas outros pontos tornam a situação preocupante: o líder fazer uma campanha semelhante à que fizemos na temporada passada e como a displicência tem peso fundamental na queda de rendimento nos últimos dois meses.


O City realmente estava voando, a ponto de fazer ainda mais gols do que fazia na temporada passada e, com um Laporte sendo um paredão, mostrar mais consistência defensiva. Isso resultou em goleadas, que fizeram com que os jogadores achassem que poderiam fazer gols no momento que quiserem. Sim, esse é meu diagnóstico: as goleadas tiraram a competitividade do City.


Por fim, também existem fatos pontuais que ajudaram para cada tropeço nas últimas semanas. Agüero se machucou nas vésperas do duelo com o Chelsea e Gabriel estava em péssima fase; contra o Crystal Palace, a primeira vez em muito tempo, na Premier League, que jogamos sem Fernandinho, David Silva e De Bruyne juntos; contra o Leicester, um adversário naturalmente duro, ainda com desfalques importantes e já uma dúvida de capacidade na cabeça dos jogadores, além de Fernandinho seguir fora.


Com isso tudo discutido, é hora de buscar por soluções. Banco esse grupo de jogadores até o último dia de minha vida – eles não têm culpa dos erros da direção (ausência de um reserva de Fernandinho, problemas na lateral-esquerda e falta de jogadores mais decisivos). Só eles – com a ajuda de Guardiola, é claro – podem sair dessa situação em que realmente a capacidade deles estão em dúvida.


A minha sugestão é que Guardiola tente deixar um pouco de lado, na medida do possível, seu jogo posicional. Apesar de prezar por certa automatização dos movimentos, com cada jogador em seu lugar do campo, é um tipo de jogo que só funciona quando esses movimentos não estão viciados e os jogadores estão inspirados – o que claramente não é o caso. E só os jogadores poderão sair dessa situação, tomando atitudes dentro de campo.


Com Sané (canhoto) aberto na esquerda e Sterling (destro) na direita, se a fluidez do esquema não está funcionando perfeitamente, o movimento dos dois ficam muito limitados a chegar na linha de fundo ou tocar de lado para os meias. É hora de colocá-los do lado contrário e exigir deles que encontrem soluções para jogadas de forma mais criativa – e para isso, é hora de Mahrez voltar a mostrar seu valor, como um ponta criativo e efetivo que sempre foi. Sempre fui a favor desse sistema com os pontas ao seu pé natural, se mostrou extremamente eficiente, mas realizar essa inversão promoveu boas coisas até mesmo nessa temporada.


Deixando os jogadores um pouco mais livres para flutuar no campo faz com que eles precisem buscar por alternativas e joguem mais próximos um dos outros. Como eu disse, só eles vão sair dessa situação. A questão é que a defesa virou uma peneira nos últimos jogos e Guardiola precisa colocar tudo isso em prática buscando voltar a ter a consistência dos primeiros meses de temporada.


A primeira e única vez que a liga foi decidida em dezembro foi na temporada passada, com os Centurions. O cenário é ruim e ainda pode piorar depois do início de janeiro, mas ninguém disse que ia ser fácil e o favoritismo agora é deles. We go again!


Siga @igorjuni0 e @mancitystuffbr