Mídia tenta vender sucesso de Sterling como redenção, mas estão errados

O futebol não é algo que está às margens da sociedade. Ele está inserido na mesma e por todo seu alcance popular, acaba por ser determinante e muito influenciado (além de influenciar) em aspectos culturais e sociais em nossas vidas. Quem pensa que futebol não se mistura com políticas e pautas semelhantes que surgem diariamente está profundamente enganado.


Até por isso, jogadores dos patamares mais altos do futebol devem aproveitar toda sua capacidade de engajamento para fazer a diferença também fora de campo. E é isso que vemos em Raheem Sterling nos últimos tempos. O jogador do City e da Seleção Inglesa comprou a briga contra o racismo impregnado na sociedade e imprensa inglesa e tem se saído muito bem para apontar os equívocos do tratamento em relação ao jogador negro e rumos para a evolução no tratamento desses assuntos.


Só durante os últimos meses, Sterling se pronunciou abertamente duas vezes sobre o assunto de forma bastante cirúrgica. Após sofrer abuso racial de torcedores do Chelsea em dezembro de 2018, o atacante usou seu Instagram para discutir sobre como a mídia tem conexão direta com os acontecimentos recorrentes de racismo nos estádios. Confira aqui a publicação. Agora, em março de 2019, deu uma entrevista impecável ao New York Times sobre como isso tudo chegou ao limite e alguma coisa precisava ser dita e feita. Confira aqui a tradução em português.


A questão que venho levantar agora é: Raheem Sterling claramente é uma pessoa sensacional e isso só tem ficado mais em evidência. Dentro de campo, sempre foi uma promessa de alto potencial e agora se transformou em um dos melhores jogadores do mundo e está entre os favoritos para levar o prêmio de melhor jogador da Premier League 2018/2019. As pessoas tratam como se Guardiola tivesse o ensinado a jogar futebol, mas esquecem que ele foi Golden Boy em 2014.


A “bronca” com Sterling já existia no Liverpool, porque as pessoas parecem ter dificuldades em ver um garoto, imigrante e negro, começar a vencer na vida. Como o próprio Sterling disse na entrevista ao NYT, um negro gastando seu dinheiro, mesmo que para ajudar a família, é pauta polêmica, mas um branco é superação e reconhecimento. Ao deixar o Liverpool, time de grande apelo midiático e popular, as coisas ficaram mais difíceis ainda para Sterling: começou a ser vaiado em todos os estádios da Premier League.


Agora, em 2019, Sterling é um dos jogadores com mais gols e assistências na temporada europeia, é provavelmente o melhor jogador de um City vivo em todas as competições, além de marcar seu primeiro hat-trick pela Inglaterra e ser ovacionado em Wembley, estádio que foi seu jardim enquanto criança. Isso somado ao seu engajamento fora de campo pelo posicionamento em pautas tão importantes significa que ele é o jogador mais importante do Reino Unido no momento.


Mas a mídia, que tanto o colocou para baixo, pode se aproveitar disso? Qual o direito deles em abordar todo esse sucesso de Sterling como se ele estivesse vivendo uma redenção após anos ruins?


Redenção de quê? Redenção porque um grupo de homens brancos privilegiados de meia-idade se ofendeu com uma tatuagem que ele fez ano passado? Redenção por ter alguns bons carros? Redenção por comprar uma casa para sua mãe? Redenção por ser vaiado por fãs adversários em todos os jogos fora que ele jogou? Redenção por todo o seu trabalho social de caridade? Redenção porque ele perdeu algumas chances de gol no passado, como se fosse o primeiro atleta a errar?


Sterling é um menino de 24 anos que já passou por tanta coisa que chega a ser inacreditável. Sua carreira não é uma redenção, mas sim uma constante busca por ser o melhor possível dentro e fora dos gramados.


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