Há 59 anos, a história do United era reescrita

Seis de fevereiro de 1958, exatos 59 anos atrás. Uma das gerações mais promissoras da história do clube voltava de Belgrado, na Sérvia, após eliminar o Estrela Vermelha pelas quartas da Champions (na época, European Cup). Comandados pelo lendário Matt Busby, o grupo se aproximava do que seria o primeiro título continental desde sua fundação, e o favoritismo era claro. Mas o destino quis colocar um plot twist dos mais tristes e chocantes de todos os tempos. Tragédias desse tipo infelizmente estão frescas em nossa memória dado o acontecimento de 2016, então vocês sabem a sensação.



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Airspeed Ambassador era o modelo do avião, que tinha prefixo G-ALZU e fora construído pela extinta De Havilland. James Thain, o piloto que posteriormente estaria entre os afortunados sobreviventes. Isso tudo, porém, não passa de detalhes supérfluos dentro do cenário que tocou lá no fundo. Dentro da aeronave, o staff do voo começou a notar dois empecilhos preocupantes: não parava de nevar no trajeto inteiro e um dos motores estava com defeito. Mesmo informando à torre, ninguém conseguiu retorno e muito menos alguma resolução.


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The flowers of Manchester: nunca serão esquecidos


Parados no aeroporto de Munique, já haviam feito duas tentativas de decolar para partir até a Inglaterra. O estado defasado da pista não ajudava e o consenso geral era de que o voo fosse cancelado e marcado para a manhã seguinte. Alguns jogadores, inclusive, chegaram a comunicar suas famílias do atraso que não se confirmaria. Mesmo contra a vontade e raciocínio da maioria, o comandante decidiu fazer alguns ajustes na engenharia da máquina e voar. Liam Whelan, ponta irlandês, fatidicamente disse que "essa pode ser a morte, mas estou pronto". Não deu outra.


Thain, de forma negligente, deu partida e viu o avião deslizar e levantar pouco antes de pegar fogo. O próximo ocorrido foi a batida nas cercas do local, causando um impacto fatal. Vinte e três pessoas acabaram perdendo a vida, incluindo 11 membros da agremiação. Oito atletas e três funcionários: Walter Crickmer, secretário; Tom Curry, coach; Bert Whalley, coach chefe. Dois integrantes da companhia aérea e 8 jornalistas também se foram, deixando 20 sobreviventes. Entre eles, o conhecido e icônico Sir Bobby Charlton, que dispensa apresentações.



Os jogadores que não resistiram ao acidente: Roger Byrne, Eddie Colman, Duncan Edwards, Mark Jones, David Pegg, Tommy Taylor, Billy Whelan e George Bent. São lembrados até hoje, como deve ser. O filme United, produzido em 2011, reconta toda essa história e você tem a quase obrigação de assistí-lo. Aqui



O mais importante, entretanto, não poderia ser outro além de Sir Matt Busby. O treinador era a alma e o coração dos red devils no momento e tratou de dar uma aula em man-management e coaching em geral após a tragédia. Montou um novo time, tendo como pilares os survivors Harry Gregg, Bill Foulkes e o próprio Charlton. Trouxe um tal de Denis Law do Torino e assinou a contratação de ninguém menos que George Best, o primeiro superstar do futebol. De passo em passo, recolocou o United nos trilhos e chegou ao ápice 10 anos depois daquela tarde.


Em maio de 1968, as experiências e o trabalho foram recompensados com a taça do torneio que hoje chamamos de UCL. Diante do Benfica, o quinto beatle abriu a porteira na prorrogação e selamos o memorável placar em 4 a 1. Alívio, festa, história. Foi ali que caiu a ficha para todos: nenhum acontecimento, por mais desastroso que seja, poderia nos brecar. Realinhando certas práticas e seguindo a filosofia, viemos a nos tornar em um dos maiores clubes do planeta e potência reconhecida por uma infinidade de razões. Devemos boa parte disso ao comandante Busby, que foi do inferno ao céu em meio aos ruídos eternos de uma tragédia. O que fica são as lições e as memórias. Nunca esqueceremos. We will remember them.


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Em Wembley, o 'começo do recomeço': uma década após a tragédia, os sobreviventes Busby e Charlton reescreviam, com brilho, a nossa história