City e Guardiola são muito superiores, e o United deve focar na Champions

Os ingredientes para um belo clássico estavam dispostos em Old Trafford. Mais por narrativa, porém, do que realidade. O City joga melhor, tem um elenco mais qualificado e já tinha a boa vantagem de 8 pontos na liderança - agora 11. Quem acompanha sabe que o United está em um estágio menos avançado no desenvolvimento da equipe e por isso é o segundo colocado. Nada feio, é claro: cansei de reforçar aqui que o trabalho de Mourinho é bom e não merece tantas críticas. Guardiola é o ponto fora da curva, não seu rival. O processo desenhado no lado azul de Manchester é diferenciado e hoje as diferenças ficaram evidentes.


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A batalha tática sempre é o principal fator com esses treinadores. A escalação está longe de ser tudo, mas representa de certa formas as intenções. O espanhol continuou o mesmo, trocando apenas Aguero por Jesus e mantendo a base do time. O português, por outro lado, surpreendeu e a princípio dispensou o 3-5-2. Substituiu um zagueiro por Rashford e deu para Herrera a vaga do suspenso Pogba. Mkhitaryan outra vez não foi relacionado, Blind e Fellaini também ficaram de fora e Ibrahimovic marcou presença no banco de reservas.



Com a bola rolando, a disposição das peças mudou várias vezes no decorrer dos 90 minutos. No começo, Marcus ficou pela esquerda e Martial na direita, com Lingard atrás de Lukaku. Como esperado, nosso foco eram as jogadas rápidas e diretas nas costas dos laterais. Walker levou cartão amarelo logo no início e indicou certa vantagem para quem caísse por ali, mas não soubemos explorar. Os azuis tinham mais da bola, claro, e tentaram incansavelmente evitar aquela troca de passes estéril. O ritmo era intenso até pela troca de centroavantes, levando em conta que o brasileiro elevou a agilidade do setor.


A inversão dos pontas se deu também no oponente. Sané e Sterling ficaram nos flancos favoráveis ao 'corte pra dentro', com o inglês na realidade centralizando bastante. Gabriel ficou responsável por balancear esse posicionamento, saindo da referência e abrindo espaço para De Bruyne. Quem vinha de trás era Silva, sendo o núcleo do desenvolvimento citizen. Dos pés dele saiam a articulação e a incógnita para a defesa, confundindo Matic e Herrera. O papel de Lingard ganhou importância nesse cenário, reforçando a contenção quando necessário.


Em outra situação, ainda na saída, Jesse puxava a pressão - assim como fez, com brilho, diante do Arsenal. Com o tempo, Raheem e Jesus aumentaram a confusão da zaga. O primeiro passou a atuar como um falso 9 e o segundo virou um segundo atacante, partindo da lateral. Como vocês podem perceber, não tinha muito o que observar sobre os anfitriões. Nossos contragolpes estavam limitados pela ausência de Labile e Romelu estava contido. A conhecida estrutura adversária criava pequenos grupos de superioridade numérica, envolvendo a marcação e dando o pretendido controle.


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Apesar de ter sofrido com críticas injustas, Lukaku teve uma péssima atuação no derby


Com a missão de contrapor, Mou instruiu os atletas a uma postura bem reativa, usando da agressividade só em certas áreas do gramado. Os meias estavam muito preocupados com a articulação qualificada na frente deles, reduzindo a capacidade do próprio ataque. Fernandinho deu alguns passes perigosos e obrigou Lingard a recuar, prendendo de vez a equipe. O jogo do City apresentava vários pontos positivos pelo chão, mas o resultado foi sair no alto, com gol de Silva.


Nada surpreendente, pra falar a verdade. Vantagem justa que só não havia se materializado pois o desempenho da última linha de defesa era bom. O experimento com Martial e Rashford não rendia frutos e uma alteração nesse sentido poderia melhorar as coisas pra gente. Precisando marcar, o francês foi para a sua melhor posição e o inglês ficou mais próximo da trave. Efeito imediato; após lance iniciado por Anthony, Marcus completou na saída de Ederson e deixou tudo igual.



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O empate não refletia o embate, mas a imprevisibilidade não assusta ninguém. Perdemos partidas que não devíamos, vencemos outras com uma dose de sorte. Hoje, o triunfo era necessidade e a abordagem precisava mudar para atingirmos o objetivo. Até tentamos, mas em outra oportunidade aérea pecamos por falha individual. Lukaku, que marcou mal no primeiro, possibilitou o segundo gol ao afastar de forma péssima e Otamendi aproveitar a sobra. Tivemos que apelar para o tudo ou nada, culminando em uma série de movimentos de Pep para ganhar controle e frustrar nosso intuito.


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As estratégias em uma foto; um time disposto a atacar, outro a se conter - e acabar com as próprias chances de título


E o melhor treinador venceu. Sistematicamente, mentalmente e no rendimento de cada jogador. Se sentimos tanto a falta de nossa estrela, Guardiola foi capaz de sacar seu artilheiro por opção e mesmo assim entregar uma exibição coletiva. Nada fantástico, mas digno de elogios e reconhecimento. O resultado é uma soma desses fatores com os supracitados erros de Mourinho. Nosso foco tem que ser a Champions.